CASO MASTER

CVM: Fraudes foram resultado um 'alinhamento perverso'

Em depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado Federal, presidente interino da CVM, João Accioly, afirma que o Banco Master foi "promotor ativo" do superdimensionamento dos ativos da instituição liquidada em novembro de 2025

Em depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, reconheceu que a entidade não tem pessoal suficiente para a fiscalização e declarou que o escândalo das fraudes do Banco Master envolveu um “alinhamento perverso entre gestores e investidores”, para inflar os ativos da instituição do banqueiro Daniel Vorcaro.

“O caso Master tem uma peculiaridade estrutural que é uma grande inovação dele que é talvez inédito, porque sai do padrão. O prejudicado considerado o Banco Master como cotista dos fundos, foi, em larga medida, o promotor ativo do superdimensionamento dos ativos dos fundos em que ele investia”, disse Accioly, nesta terça-feira (24/02).

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O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025. A instituição de Vorcaro é alvo de investigações da Polícia Federal, na Operação Compliance Zero, que identificou fraudes de R$ 12,2 bilhões na venda de carteiras de crédito podres ao Banco de Brasília (BRB), que pode ter um prejuízo superior a R$ 5 bilhões por conta dessas operações. 

Diretor da CVM desde 2022, Aciolly contou que assumiu a presidência interina no início deste ano. Ele contou que, órgão teve dificuldade para identificar os problemas porque as operações fraudulentas ocorreram por meio de fundos exclusivos.  “Tinha um alinhamento perverso de incentivos entre gestores e investidores para manter a ficção contábil”,  disse. Esses mecanismos, segundo ele, deixavam o banco com um balanço mais robusto e com uma solidez que ele não tinha. “Era um que eu gosto”, acrescentou.

De acordo com o executivo, o caso do Master mostrou que o banco “gostava de ser enganado”, porque se o fundo tem valor superior ao que ele realmente vale, o Master pegava esse dado inflado e colocava no balanço dele para poder emitir mais CDB (Certificados de Crédito Bancário (CDBs) — cuja emissão é monitorada pelo Banco Central e não pela CVM, segundo o depoente.

Segundo Aciolly, a CVM trabalha para identificar a fraude tradicional, focando na fiscalização voltada para a massa de investidores pequenos, porque os grandes possuem mecanismos próprios. "Cotistas de fundos exclusivos recebem menos atenção porque se supõe que o grande investidor tem condições de estar verificando isso", afirmou.

Accioly declarou ainda que não houve omissão da CVM no caso Master, pois as irregularidades envolviam fundos exclusivos. "Não é uma omissão regulatória", declarou. Segundo ele, a autarquia começou a registrar indícios de irregularidades em 2027 e, desde 2022, tem investigado irregularidades no Master, abrindo mais de 200 processos para apurar negociações e possíveis fraudes. Contudo, devido ao pessoal limitado, não tem conseguido concluir esses processos com agilidade.

Na avaliação do executivo, as regras podem ser aprimoradas, incluindo o uso de tecnologia como algoritmos que identifiquem padrões suspeitos, mas é preciso não confundir o criminoso com quem o combate.  "O pessoal trabalha além da capacidade máxima. Há muitos servidores que têm atuação exaustiva. Há recursos tecnológicos que precisam ser feitos", afirmou. “Em caso de fraudes, por maiores que elas sejam, a grande responsabilidade é de quem as comete. A cada nova fraude é preciso aperfeiçoar, mas a causa do crime é escolha do criminoso e não do policial que a combate”, frisou.

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