Caso Master

Crise do Master amplia rombo no Fundo Garantidor de Créditos

Estimativas apontam que impacto da liquidação no fundo vai além dos R$ 51,8 bilhões estimados na crise das empresas de Vorcaro

Na prática, o FGC enfrenta um duplo impacto, após liquidação do Banco Master e subsidiárias e reacende debate sobre o desenho do sistema -  (crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Na prática, o FGC enfrenta um duplo impacto, após liquidação do Banco Master e subsidiárias e reacende debate sobre o desenho do sistema - (crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil)

A crise desencadeada pela liquidação extrajudicial de instituições financeiras ligadas ao Banco Master tornou-se um dos maiores testes recentes ao sistema financeiro brasileiro e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Com a decisão mais recente do Banco Central de liquidar o Banco Pleno, ligado a um ex-sócio do grupo, o impacto estimado para o FGC supera R$ 51,8 bilhões — cerca de 32% do patrimônio do fundo, hoje estimado em aproximadamente R$ 122 bilhões, e valor equivalente a quase metade do lucro combinado dos maiores bancos do país em 2025. A cifra oficial, porém, pode não refletir o tamanho real da conta.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

O montante divulgado considera apenas o ressarcimento a depositantes dentro do limite legal de R$ 250 mil por CPF e não inclui, de forma integral, os empréstimos de assistência de liquidez concedidos pelo FGC às instituições que posteriormente quebraram, valores que não são detalhados publicamente por regra regulatória.

Na prática, o Fundo Garantidor enfrenta um duplo impacto: arca com o pagamento das garantias aos clientes e, ao mesmo tempo, corre o risco de não recuperar os recursos emprestados aos bancos em dificuldade. “Os R$ 51,8 bilhões estimados correspondem, exclusivamente, às garantias a pagar nos casos do Master, Will Bank e Banco Pleno.

Esse número não incorpora os empréstimos emergenciais concedidos às entidades do conglomerado”, afirma o especialista em direito bancário José Andrés Lopes da Costa, sócio do DCLC Advogados. “Quando a instituição quebra sem quitar esses empréstimos, o crédito da assistência se converte em inadimplência.” O episódio reacende o debate sobre o desenho do sistema. Criado como entidade privada mantida pelos próprios bancos, o FGC tem a função principal de proteger depositantes e preservar a estabilidade financeira.

Para Lopes da Costa, no entanto, a atuação como agente de assistência de liquidez amplia seu papel original. “Quando concede socorro a uma instituição que depois não honra o empréstimo, o fundo acaba socializando perdas privadas, exercendo na prática uma função de garantia pública implícita.”Enquanto os desembolsosavançam, o impacto concretojá é expressivo.

Segundo o balanço mais recente, divulgadona semana passada, o FGC jápagou R$ 37,2 bilhões aos credores do Master, beneficiandocerca de 653 mil investidores.

Aportes antecipados

Para recompor o caixa e preservar a capacidade de resposta, cerca de 250 instituições associadasterão de reforçar as contribuições. Um plano emergencial aprovado em fevereiro de 2026 prevê a antecipação de até sete anos de aportes futuros e a elevação temporária das alíquotas mensais. Bancos de grande porte, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, já iniciaram a antecipação de contribuições equivalentes a cinco ou sete anos.

Segundo estimativas do setor, apenas para o Itaú Unibanco, o impacto pode chegar a cerca de R$ 7 bilhões. “Esse custo tende a ser repassado ao mercado, com reflexos no preço do crédito”, afirma Lopes da Costa. O aumento estrutural das contribuições pode reduzir margens, alterar estratégias de expansão e encarecer a captação, especialmente para bancos médios que dependem da emissão de CDBs em plataformas digitais.

Há, ainda, preocupação com a sustentabilidade futura do fundo. Ao concentrar no presente receitas previstas para os próximos anos, o FGC recompõe liquidez no curto prazo, mas reduz sua margem de manobra diante de novos eventos relevantes antes de 2031. “Se houver outra liquidação de grande porte nesse intervalo, o fundo estará mais vulnerável”, diz o especialista.

Dimensão da crise

Na avaliação do advogado Vanderlei Garcia Jr., doutor em Direito Civil pela USP e sócio do VGJr Advogados Associados, a crise deve ser analisada sob três dimensões: regulatória, sistêmica e reputacional. No eixo regulatório, ele vê sinais de fragilidades na governança corporativa e nos modelos de negócios de parte das instituições de médio porte. “A sucessão de liquidações sugere problemas estruturais, especialmente em bancos com estratégias de captação mais agressivas”, afirma. Para ele, o episódio deve levar à revisão dos critérios de supervisão prudencial e monitoramento contínuo.

O impacto da crise também atinge o Banco de Brasília (BRB), que realizou negócios considerados problemáticos com o Banco Master e, hoje, é alvo de investigações. Diferentemente de instituições menores que orbitavam o Master, como o Banco Pleno, o BRB é um banco público tradicional, controlado pelo governo do Distrito Federal. Segundo o Banco Central, o rombo estimado no BRB gira em torno de R$ 5 bilhões, valor que pode crescer diante da demora na definição de um plano de recapitalização.

Como acionista controlador, o governo distrital terá de aportar recursos para recompor o capital da instituição. A situação impõe pressão política ao governador Ibaneis Rocha (MDB), que precisa apresentar uma solução para o banco sem postergar decisões por razões eleitorais. O Governo do Distrito Federal (GDF) enviou, na sexta-feira, à Câmara Legislativa uma proposta para utilizar imóveis do governo distrital como garantia para capitalizar o BRB. Em entrevista ao Correio, o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, demonstrou otimismo com o plano e disse acreditar que está confiante de que haverá demanda pelos imóveis que estão localizados em Brasília.

Efeito sistêmico

Sob a ótica sistêmica, Garcia Jr. afirma que não há indícios de colapso generalizado, mas reconhece aumento da percepção de risco. “A repetição de intervenções eleva o prêmio de risco para bancos médios, pressiona instrumentos de proteção como o FGC e pode encarecer o funding dessas instituições.” Ele considera plausível a elevação das contribuições para recompor o patrimônio do fundo. “Isso afeta custos, margens e pode repercutir no crédito ao consumidor”, complementa.

No campo reputacional, o impacto também é relevante. “O sistema financeiro é sustentado pela confiança. Mesmo sem risco sistêmico amplo, a percepção de instabilidade pode influenciar o comportamento de investidores e correntistas”, enfatiza. Apesar do cenário desafiador, Garcia Jr. destaca que o sistema bancário brasileiro mantém elevado grau de regulação e capitalização. “Não há, até o momento, indicativos de contágio generalizado. O que se observa é um teste importante de resiliência institucional, que pode resultar em ajustes regulatórios e aperfeiçoamento dos mecanismos de controle.”

A percepção é de que a crise pode levar a mudanças importantes, como separar de forma mais clara a garantia de depósitos da ajuda emergencial aos bancos, reforçar a fiscalização e ajustar as contribuições de acordo com o risco de cada instituição. O desafio será manter esse movimento de melhoria mesmo depois que a tensão diminuir, para que essa situação deixe avanços duradouros na proteção dos depositantes e na estabilidade do sistema financeiro.

  • Google Discover Icon
postado em 24/02/2026 03:42
x