AGRICULTURA

Por que cidades de Minas estão proibindo o plantio de murta?

Planta comum em jardins virou alvo de leis municipais por atrair o vetor do greening. Veja como a medida tenta salvar a produção de laranja e limão

Minas Gerais ocupa atualmente a segunda posição nacional na produção de laranja, limão e tangerina -  (crédito: Divulgação)
Minas Gerais ocupa atualmente a segunda posição nacional na produção de laranja, limão e tangerina - (crédito: Divulgação)

Produtores de laranja, limão e tangerina de Minas Gerais estão criando um cinturão para conter o avanço do greening, considerada a doença mais devastadora da citricultura. A iniciativa, da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Sistema Faemg Senar) e de alguns sindicatos rurais, visa cobrir uma área de 155 mil quilômetros quadrados (km²), abrangendo as regiões do Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste do estado.

De acordo com Osny Zago, presidente do Núcleo dos Sindicatos dos Produtores Rurais do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, as sementes deste projeto foram as leis municipais aprovadas em Araxá e Sacramento em 2024, que proíbem o plantio, o comércio, o transporte e a formação de mudas de murta (ou jasmim laranja), uma planta frequentemente usada como cerca-viva que atrai o inseto vetor do greening, servindo como um elo em sua cadeia de transmissão.

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Quando a Faemg tomou conhecimento da iniciativa, por meio do consultor Daniel Amorim, foi desenhado um projeto para ampliar essa área de proteção, que no final se estendeu para 49 municípios, sempre com o apoio dos sindicatos de produtores rurais das regiões envolvidas. A partir do lançamento do cinturão antigreening, no fim de março, o trabalho dessas entidades passou a ser sensibilizar sindicatos e prefeituras para a adesão ao programa. 

 

“Fomos pioneiros em uma legislação simples, mas que traz grandes benefícios para o setor. Agora, o objetivo é ampliar essa iniciativa para outros municípios e consolidar Minas Gerais como referência na prevenção ao greening”, afirmou Osmar Gonçalves, presidente do Sindicato Rural de Araxá.

A construção desse cinturão foi pensada a partir de frentes coordenadas de combate. A primeira é a fiscalização urbana para o mapeamento e a eliminação da murta como hospedeiro do mosquito vetor da doença. A segunda frente é a vigilância ativa no campo para a detecção precoce e resposta rápida da doença, feita a partir de armadilhas para capturar o psilídeo (o inseto vetor), roteiros de inspeção e protocolos de coleta e encaminhamento de amostras suspeitas.


O terceiro cuidado é o manejo da cultura, mantendo o pomar em bom estado nutricional e sanitário (bordaduras limpas, manejo de brotações, irrigação e adubação adequadas), com controle integrado do vetor e eliminação ágil de plantas sintomáticas. Por fim, o programa defende a transparência e o engajamento dos produtores para orientar decisões e prestar contas à sociedade. “Esse cinturão vai proteger uma grande área produtiva e trazer mais segurança para os investimentos”, disse Osny. 

O presidente do Núcleo dos SPRs do Triângulo e Alto Paranaíba explica que Minas Gerais já tem uma legislação para amparar o combate ao greening, a Portaria nº 1644 do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). “Mas, uma fiscalização local é mais fácil de controlar. Por isso nós levantamos a bandeira para que todos os demais municípios também façam essa lei. Caso algum município não queira fazer, o IMA tem poder de Polícia para fazer cumprir a legislação estadual”, explicou.

Ele cita uma parceria do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) para os produtores dos municípios que tiverem essa legislação. Caso seja detectado algum pomar contaminado pelo greening, a entidade vai custear a retirada desses cítricos e fornecer outras espécies de frutas. “Pode ser o que o produtor quiser - ameixa, uva, abacate -, mas nada que seja ligado aos citros. Agora, se o produtor não quiser tirar os cítricos contaminados, o técnico do Fundecitrus vai entregar o relatório ao IMA, que fará a autuação. Nesse caso, o fundo também retira a parceria”, comentou.

Cítricos em Minas Gerais

A produção citrícola em Minas Gerais apresentou crescimento de 16% entre 2019 e 2023. A atividade vem crescendo, com expansão de aproximadamente 6% na área cultivada nos últimos cinco anos, o que reforça a necessidade das medidas preventivas. O estado ocupa atualmente a segunda posição nacional na produção de laranja, limão e tangerina, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Triângulo Mineiro foi responsável por aproximadamente metade da produção de cítricos no estado em 2024, se consolidando como a principal região produtora em Minas Gerais. De acordo com o último levantamento da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa/MG), a produtividade média de cítricos no estado é de 24,3 toneladas por hectare, sendo que a área plantada atualmente é de 85.198 hectares.

Os produtores de São Paulo, maior produtor de cítrico do Brasil, estão migrando para Minas Gerais justamente devido à infestação de greening em seus pomares. Segundo Mariana Marotta, analista de Agronegócios do Sistema Faemg Senar, a citricultura brasileira tem peso estratégico global: “Três de cada quatro copos de suco de laranja consumidos no mundo são produzidos no Brasil. Porém, o setor enfrenta um grande desafio sanitário com o greening”. Em 2025, Minas Gerais exportou laranjas para países como Estados Unidos, Argentina e Canadá.

O que é o greening?

O greening é uma doença causada por uma bactéria (do gênero Candidatus Liberibacter) que atinge o floema das plantas cítricas, que é o tecido responsável pelo transporte de nutrientes essenciais, reduzindo a produtividade e a qualidade do fruto. O vetor dessa bactéria é um mosquitinho conhecido como psilídeo cítrico asiático (Diaphorina citri).

Atualmente não existe cura para essa doença. Uma vez instalada nos cítricos, o procedimento a ser adotado é retirar os pés doentes e depois enterrá-los ou queimá-los. Também é necessário deixar aquela área sem cítricos por 20 anos, sob o risco da doença voltar. De acordo com o Fundecitrus, em 2025 houve aumento de 7,4% na incidência da doença na região citrícola que inclui São Paulo e parte do Triângulo/Sudoeste de Minas. Apesar disso, o Triângulo Mineiro ainda apresenta menor incidência relativa, o que reforça a importância das ações preventivas.

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PC
postado em 13/04/2026 12:26
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