Conflito no Oriente

FMI reduz projeção de PIB global

Em relatório, Fundo afirma que a guerra no Irã interrompeu a trajetória de crescimento constante e diminui projeção para 3,1%

A economia global sob a sombra da guerra foi o tema principal do relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês) divulgado, ontem, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O organismo multilateral reduziu a perspectiva de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) global de 3,3% para 3,1% em relação às atualizações de janeiro do WEO. O Fundo retomou as projeções de outubro de 2025 e reforçou os alertas para os riscos de desaceleração na atividade e de aumento das pressões inflacionárias por conta do conflito no Irã. Mas essa projeção, que considera uma inflação global de 4,4% — acima da anterior, de 3,7% — é apenas uma dos três cenários traçados pelo FMI para este ano.

Nos outros dois cenários — adverso e severo — o organismo considera uma desaceleração maior no PIB global, para 2,5% e 2%, respectivamente, devido ao prolongamento do conflito no Oriente Médio. Além disso, vê maiores consequências na inflação global, com o indicador do custo de vida subindo para 5,4% no cenário adverso e podendo ultrapassar 6% no cenário severo — que considera uma ruptura de abastecimento e com danos à infraestrutura energética na região do conflito. Para 2027, a projeção de expansão de 3,2% para o PIB foi mantida.

"A guerra interrompeu o que vinha sendo uma trajetória de crescimento constante. Antes da guerra, estávamos preparados para revisar para cima nossa previsão de crescimento global, refletindo o impulso contínuo da economia global, sustentado por um boom de investimentos em tecnologia, alguma moderação nas tensões da política comercial, apoio fiscal em alguns países e condições financeiras favoráveis. A guerra no Oriente Médio irá sobrepujar essas forças subjacentes", destacou o FMI, logo no início da apresentação do documento que analisa a conjuntura macroeconômica global e o desempenho dos 191 países membros.

Ao comentar sobre o relatório aos jornalistas, ontem, em Washington, o economista-chefe e diretor do departamento de pesquisa do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, reforçou o alerta sobre os riscos do excesso de subsídios dos governos para evitar pressões inflacionárias diante da alta dos preços do petróleo, uma vez que eles podem atrapalhar o trabalho dos bancos centrais no controle da inflação. E, assim, eles serão obrigados a adotarem políticas monetárias ainda mais restritivas. "Talvez seja necessário infligir muito mais dor para obter o mesmo resultado de desinflação", disse.

pacifico - economia fmi

Melhora no Brasil

O Fundo melhorou a projeção de crescimento do PIB brasileiro, elevando a previsão de 1,6% para 1,9%. Mas reduziu de 2,3% para 2% a estimativa para o PIB de 2027. De acordo com o Fundo, a guerra no Oriente Médio deverá ter "um pequeno efeito líquido positivo no Brasil em 2026, como resultado do país ser um exportador líquido de energia, contudo, a desaceleração da demanda global, o aumento dos custos de insumos, incluindo fertilizantes e as condições financeiras mais restritivas deverão dominar, "reduzindo o crescimento em aproximadamente 0,3 ponto percentual, em comparação com a projeção de janeiro".

Ao lado de Gourinchas, Petya Koeva Brooks, vice-diretora do Departamento de Pesquisa do FMI, destacou que o Brasil é um dos países com grande participação de energias renováveis na matriz energética e que elas podem "mitigar os impactos da alta dos preços do petróleo". Contudo, as taxas previstas pelo FMI para o crescimento do PIB brasileiro seguem abaixo da média da América Latina e de países emergentes. A América Latina deverá registrar uma expansão de 2,3%, neste ano, e de 2,7%, em 2027, após avanço de 2,4% em 2025, segundo o relatório. Já o PIB dos países emergentes deve recuar de 4,4%, em 2025, para 3,9%, neste ano, e para 4,2%, em 2027.

A economista Paula Sauer, professora da FIA Business School, reforçou que o FMI apontou um cenário levemente positivo para o Brasil, mas reconheceu que o momento pede cautela.  aponta cenário levemente positivo para o Brasil, mas o momento pede cautela. No primeiro cenário, pode-se contar com uma desaceleração econômica, mas de menor impacto e de certa forma, controlada; uma vez que o governo tem fôlego para alguns subsídios no curto prazo, objetivando conter os preços dos alimentos e dos transportes.

Contudo, no segundo cenário, em que o conflito será mais prolongado, o impacto no Brasil será potencialmente mais expressivo. “O governo não poderá manter os subsídios por muito tempo, assim como não poderá abrir mão das receitas atualmente zeradas do PIS/Cofins sobre o diesel e o biodiesel, assim, como manter a redução de tributos sobre combustíveis e querosene de aviação, em função da isenção fiscal que tem como objetivo segurar os preços dos combustíveis, que impactam diretamente o preço dos transportes e alimentos para o consumidor final”, alertou a acadêmica, lembrando também do subsídio para o gás de cozinha de R$ 11 por botijão. O pacote de medidas anunciado pelo governo para conter a alta dos preços de combustíveis, pelos cálculos da Warren Investimentos, deve custar aos cofres públicos R$ 34,7 bilhões até agosto.

 “A curto prazo, essas medidas amenizam, mas não resolvem o problema maior que é a guerra e o petróleo caro e o impacto do aumento dos custos na inflação. E, a longo prazo, isso é uma bomba para o governo, uma vez que subsídios e renúncias tributárias custam caro e, mesmo com compensações, aumenta o risco fiscal, lembrando que o Banco Central observa cada um desses passos para calcular a taxa básica da economia (Selic)”, alertou Paula Sauer, da FIA. 

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