
As apostas on-line, popularmente conhecidas como bets, vêm se consolidando como uma das principais pautas do debate público atualmente, segundo mostra uma pesquisa do Instituto Ideia feita em parceria com o Meio — realizada entre os dias 1 e 5 de maio, com eleitores acima de 16 anos.
De acordo com o estudo, quase 30% dos homens e 22% das mulheres realizaram apostas on-line nos 30 dias anteriores ao questionário.
A pesquisa mostra que 28% dos brasileiros afirmam que algum familiar, além deles próprios, também fez apostas on-line no período. Além disso, 31% dos entrevistados acreditam que algum membro da sua família aposta regularmente e esconde o hábito dos demais, indicando uma camada de comportamento compulsivo ou vergonha associada à prática.
No que se diz respeito aos problemas financeiros, o relatório aponta que há uma visão negativa majoritária sobre as consequências das apostas, com 59% dos brasileiros concordando que as bets provocam endividamento, e 61,9% afirmando que elas viciam. Entretanto, somente 44% defendem que as plataformas devem ser proibidas no país.
Outros 33% concordam que elas podem continuar operando, mas devem ser proibidas de fazer propaganda, e 25% acreditam que devem continuar funcionando sob a premissa de que a responsabilidade é individual.
Impacto financeiro
Para o economista e diretor da VLGI Asset, Matheus Portela, já existem sinais do impacto do avanço das bets no consumo, especialmente em segmentos ligados ao varejo popular.
"O avanço do endividamento associado às apostas preocupa, porque pode comprometer a capacidade de consumo e a estabilidade financeira das famílias mais vulneráveis. Sem mecanismos mais rigorosos de regulação e prevenção, a tendência é de agravamento desse cenário no médio prazo", explicou.
De janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas apostas on-line retirou R$143 bilhões do comércio varejista. O montante equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025. A informação foi levantada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com base em dados do Banco Central.
Ainda segundo a CNC, o crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas nesse período foi superior a R$ 30 bilhões por mês. Para a entidade, o dito "entretenimento" compromete a disponibilidade de renda para manter o pagamento em dia das dívidas e podem ter levado 270 mil famílias à situação de inadimplência severa, quando há incapacidade de pagar marcada por atrasos de 90 dias ou mais.
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a implementação de políticas públicas regulatórias para as plataformas e de proteção aos consumidores
"O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras", frisou.
Bets contestam
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de aposta que operam legalmente no Brasil, enviou uma notificação formal à CNC cobrando "transparência metodológica" e "acesso integral" às bases de dados que a entidade usa para avaliar o impacto das bets no endividamento das famílias.
Para o IBJR, outras edições do estudo partiram de "premissa completamente desalinhada com os dados oficiais." Conforme o instituto, "as conclusões divulgadas pela CNC são alarmistas e contrariam frontalmente as métricas oficiais."
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também disse que os números apresentados pela CNC "não condizem com os dados oficiais do governo e do setor". Segundo a associação, a CNC desconsidera "a natureza multifatorial do endividamento dos brasileiros."
O estudo realizado pelo Instituto ideia aponta que 44% das pessoas acreditam que o endividamento está maior comparado com o ano passado. A percepção do custo de vida também é crítica, com 66% afirmando que ele aumentou (30,7% dizem que "aumentou muito" e 35,3% que "aumentou, mas não muito").
Para o economista e professor de Mercado Financeiro da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo, as pesquisas indicam que as camadas mais pobres são mais sensíveis ao apelo dos jogos, movidas pela necessidade ou pelo sonho de ganhos rápidos. Na prática, se houvesse maior educação financeira, as pessoas saberiam que a maior parte do dinheiro acaba ficando com a "banca".
Bergo explica que um alto percentual dos recursos do sistema de jogos é destinado a impostos ou ao lucro do próprio empreendimento, restando muito pouco para os apostadores.
"Historicamente, o país já lidou com perdas financeiras vultosas em corridas de cavalos e nos antigos cassinos, o que reforça a necessidade de disciplina sobre o tema. Além dos mais pobres, os jovens também são grandes frequentadores desses jogos, muitas vezes sem possuir recursos próprios. Há registros de pessoas que utilizam recursos do Bolsa Família para apostar", relatou.
Para a advogada Débora Cunha Ramanov, por outro lado, há alegações que não refletem integralmente o modelo regulatório hoje aplicável ao setor, como a afirmação de que o apostador competiria contra um sistema "sem qualquer possibilidade de aferição independente da regularidade dos resultados".
"Na realidade, a atual regulamentação brasileira de apostas de quota fixa, que, nos termos da Lei nº 14.790/2023, abrange tanto apostas esportivas quanto jogos de cassino on-line, prevê um conjunto bastante detalhado e rigoroso de regras técnicas, operacionais e de proteção ao consumidor para operadores autorizados no Brasil", destacou.
Além dos desafios econômicos, devido à sua escala e impactos sociais, o tema das apostas on-line passou a ser considerado um dos assuntos mais relevantes para as eleições presidenciais, em outubro deste ano. De acordo com a pesquisa Meio/Ideia, 41,9% dos eleitores entrevistados consideram o custo de vida e o endividamento como temas "muito importantes" para a decisão do voto.
*Estagiários sob a supervisão de Victor Correia
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