As chamadas terras raras ganharam espaço nas disputas entre grandes potências e colocaram o Brasil no centro de uma corrida global por minerais estratégicos. Presentes em celulares, carros elétricos, equipamentos militares e sistemas de inteligência artificial (IA), esses elementos são considerados fundamentais para a economia digital e para a transição energética.
Apesar do nome, as terras raras não são exatamente raras. Segundo o advogado especializado em mineração e transição energética Luiz Carlos Adami, o termo está ligado à dificuldade de encontrar esses minerais em grandes concentrações economicamente viáveis e à complexidade do processamento industrial.
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“As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica. O termo raras está mais relacionado à dificuldade de encontrá-las concentradas em grandes depósitos economicamente viáveis e à complexidade de separá-las e processá-las industrialmente”, explicou ao Correio.
Esses minerais têm aplicações cada vez mais estratégicas. As terras raras leves são usadas principalmente em smartphones, veículos elétricos e ímãs de alta potência. Já as pesadas têm maior valor estratégico e aparecem em equipamentos militares, foguetes, turbinas eólicas e aparelhos médicos.
Segundo Adami, a importância desses elementos cresceu porque eles permitem a produção de equipamentos menores, mais potentes e mais eficientes energeticamente.
“Nos carros elétricos, por exemplo, as terras raras são essenciais para produzir motores mais potentes e eficientes. Nos celulares, estão presentes em telas, sensores, câmeras, alto-falantes e baterias”, afirma.
Na área de defesa, o peso estratégico é ainda maior. As terras raras são usadas na fabricação de mísseis, radares, drones militares, aviões de combate, lasers e sistemas avançados de comunicação e navegação.
A importância econômica e militar desses minerais ajuda a explicar a disputa internacional em torno deles. Hoje, a China domina grande parte desse mercado. Além de concentrar as maiores reservas conhecidas, o país também lidera o processamento industrial.
“A China domina cerca de 90% da capacidade global de refino e processamento. Isso gera forte dependência internacional, inclusive de países que possuem reservas próprias”, diz o especialista.
O Brasil no centro da disputa mundial
Nesse cenário, o Brasil passou a chamar a atenção de governos e empresas estrangeiras. O país tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo e aparece em estimativas internacionais como o segundo maior detentor desses minerais, atrás apenas da China.
Para Adami, a disputa geopolítica entre China e Estados Unidos por minerais estratégicos colocou o Brasil em posição estratégica para diversificar o fornecimento global.
Apesar do potencial, o país ainda enfrenta desafios tecnológicos. O Brasil consegue extrair os minerais e produzir concentrados, mas ainda depende do exterior para etapas mais sofisticadas, como separação química, refino e fabricação de componentes de alta tecnologia.
A exploração também levanta preocupações ambientais. Isso porque muitos depósitos estão associados a minerais radioativos e o processamento exige o uso de substâncias químicas agressivas.
“O grande desafio global é equilibrar transição energética, segurança mineral e sustentabilidade ambiental”, afirma.
Segundo o especialista, o Brasil até pode transformar suas reservas em vantagem econômica e estratégica, mas isso dependerá de investimentos em tecnologia e política industrial. Segundo ele, o debate já começou no Congresso Nacional por meio do PL 2780/2024, cujo objetivo é trazer propostas voltadas aos minerais estratégicos e à inserção do país nas cadeias globais da economia digital e da transição energética.
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