
O preço do etanol hidratado caiu pela nona vez consecutiva na semana entre 24 e 30 de maio, na média nacional, segundo levantamento publicado ontem pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). De acordo com os dados, compilados pelo AE-Taxas, o combustível foi vendido a R$ 4,22 por litro, recuo de aproximadamente 1,2% em relação à semana anterior. A gasolina comum, por sua vez, permaneceu estável em R$ 6,62 por litro.
A redução foi observada em praticamente todo o território nacional. Os preços caíram em 20 estados e no Distrito Federal, permaneceram estáveis em duas unidades da Federação, e avançaram em apenas quatro. O maior aumento ocorreu no Amapá, onde o litro subiu 2,40%, atingindo R$ 5,98. Também houve elevação no Maranhão, Minas Gerais e Pará.
São Paulo, principal produtor e consumidor do biocombustível, registrou o menor preço médio estadual do país, com o litro vendido a R$ 3,93 após queda de 2,08% na semana. Nos postos pesquisados individualmente, o menor valor encontrado foi de R$ 2,95, também em território paulista, enquanto o maior preço foi identificado na Bahia, onde o litro chegou a R$ 6,39.
Já a gasolina apresentou comportamento mais equilibrado. O combustível manteve média nacional de R$ 6,62 por litro, com redução de preços em 16 estados, aumento em oito e estabilidade em outras três unidades da Federação.
Além da gasolina e do etanol, o governo se mobiliza também para tentar segurar o preço do diesel. A Petrobras passou a conceder, ontem, um desconto de R$ 0,3515 por litro no diesel A vendido às distribuidoras. A iniciativa está associada à nova política de subvenção criada para compensar a retomada da cobrança de tributos sobre combustíveis.
O preço médio do diesel acumula queda real de 37,4% em relação aos valores praticados no fim de 2022, considerando a inflação do período.
Para o professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (Ieri-UFU) Benito Salomão, tanto o mecanismo de amortecimento utilizado pela Petrobras quanto as medidas adotadas pelo governo ajudam a reduzir os impactos dos choques internacionais sobre a economia brasileira.
"A fórmula de amortecimento da Petrobras me parece correta para que esses choques internacionais não causem mudanças bruscas nos custos das companhias e nos preços pagos pelos consumidores. Você cria uma primeira barreira para impedir que esse movimento se transforme rapidamente em inflação na ponta", avalia.
O economista destaca ainda que a valorização recente do real frente ao dólar também tem contribuído para suavizar os efeitos da alta internacional dos combustíveis. Segundo ele, embora derivados como querosene de aviação (QAV), diesel e gasolina possam registrar aumentos em dólar nos mercados globais, a apreciação da moeda brasileira funciona como um fator de compensação.
Aviação
A Petrobras também anunciou uma redução de 14,2% no preço do QAV vendido às distribuidoras, válido desde ontem. A queda corresponde a R$ 0,93 por litro, e ocorre após um período de alta nos custos do setor aéreo. Apesar do recuo, o combustível ainda acumula alta de 54,5% em 2026, o equivalente a um aumento de R$ 1,98 por litro em comparação com os valores registrados em dezembro de 2025.
Em maio, o preço do QAV atingiu o maior patamar da série histórica da ANP, ultrapassando R$ 6,50 por litro. Em alguns aeroportos, o combustível chegou a ser comercializado próximo de R$ 7 por litro. Em comparação, a média registrada no início do ano foi de R$ 3,40.
A pressão sobre os custos acabou sendo repassada aos consumidores. Entre março e abril, a tarifa média das passagens aéreas registrou aumento de quase 27% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Paralelamente, companhias como Azul, Gol e Latam Airlines reduziram suas operações para conter despesas. Em abril e maio, houve corte médio de 93 voos diários.
Para o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Renan Pieri, o principal risco de um combustível persistentemente caro vai além dos balanços das companhias, e pode comprometer a conectividade nacional, afetando, especialmente, regiões mais dependentes da aviação.
"Isso afeta principalmente os destinos mais dependentes do avião, como Norte, Nordeste e cidades médias. Quando a passagem encarece e há menos voos, o turismo perde fluxo, hotéis e restaurantes vendem menos, eventos ficam mais caros e a própria integração econômica do país piora", afirmou.
O economista ressalta que os impactos também atingem viagens corporativas, transporte de cargas de maior valor agregado e a mobilidade de trabalhadores entre diferentes regiões do país.
Apesar de considerar a redução anunciada pela Petrobras positiva, Pieri avalia que os efeitos sobre os preços das passagens devem ocorrer de forma gradual. "A redução de 14,2% no QAV ajuda, mas não resolve o problema sozinha. Ela alivia o caixa das companhias e reduz a pressão por novos aumentos de passagem ou cortes adicionais de voos. Mas o repasse ao consumidor não é automático nem integral", explicou.
*Estagiário sob a supervisão de Victor Correia
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