
O governo federal adiou para a próxima semana a decisão sobre a retirada da subvenção à gasolina diante da nova escalada dos preços do petróleo no mercado internacional. A medida, que vinha sendo preparada pela equipe econômica e poderia ser anunciada ainda nesta semana, foi postergada após o aumento das tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã elevar as cotações da commodity e ampliar a incerteza sobre o comportamento dos combustíveis.
Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o cenário externo mudou de forma significativa nos últimos dias, exigindo uma reavaliação do cronograma inicialmente previsto. A preocupação do governo é evitar que a retirada do benefício coincida com um momento de pressão adicional sobre os preços ao consumidor.
"Essa semana, eu ia anunciar a retirada da gasolina. Vou analisar a retirada na próxima semana, porque o preço da gasolina já está com impacto diferente do que eu estava prevendo", afirmou o ministro, ontem, em entrevista à Rádio Gaúcha.
A postergação ocorre em meio à valorização do petróleo tipo Brent, referência para o mercado internacional, que voltou a ser negociado acima de US$ 80 por barril após a intensificação do conflito no Oriente Médio. A troca de ataques entre Estados Unidos e Irã reacendeu os temores de interrupções no fornecimento global de petróleo, especialmente em razão das ameaças ao Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de um quinto da produção mundial comercializada.
Apesar do adiamento, Durigan sinalizou que a intenção do governo permanece inalterada: reduzir gradualmente os subsídios aos combustíveis fósseis, desde que o ambiente internacional permita.
"Semana que vem, a depender da situação, o que eu gostaria de fazer é retirar o subsídio da gasolina, seja parcial, seja totalmente", declarou.
O ministro destacou que a estratégia da equipe econômica busca equilibrar o ajuste fiscal com a necessidade de evitar impactos bruscos sobre a inflação e o custo de vida da população. Segundo ele, qualquer mudança será calibrada de acordo com a evolução dos preços internacionais do petróleo.
Diesel
Durigan também indicou que a política para o diesel continuará sendo conduzida de forma mais cautelosa, em razão da importância do combustível para o transporte de cargas, alimentos e passageiros. "Nós temos de adotar com cautela a retirada de subsídios", afirmou, ao ressaltar que o atual patamar das cotações internacionais ainda recomenda prudência.
O governo já iniciou a redução dos incentivos ao diesel. Em 1º de julho, foi encerrada a subvenção temporária de R$ 0,35 por litro, criada para amortecer os efeitos da alta internacional dos preços. No entanto, permanece em vigor o principal mecanismo de apoio ao combustível, equivalente a R$ 1,12 por litro para o diesel rodoviário.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou que o Congresso e o governo chegaram a um entendimento para avançar com medidas voltadas ao mercado de combustíveis, mas indicou que qualquer decisão dependerá da estabilização do cenário internacional.
"Com relação ao PLP dos combustíveis, o governo federal segue comprometido em retirar o subsídio que está sendo dado para a gasolina, necessitando apenas de mais um tempo para aguardar a estabilização do preço decorrente do conflito no Irã", escreveu Motta em publicação no X.
Etanol na gasolina
Além da revisão da política de subsídios, o governo pretende acelerar a ampliação da participação dos biocombustíveis na matriz de combustíveis do país. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a equipe econômica trabalha para elevar, nos próximos dias, o percentual de etanol anidro misturado à gasolina, dos atuais 30% para 32%.
A decisão, no entanto, voltou a ser adiada. Esta é a terceira vez que o governo posterga a deliberação sobre o tema. A expectativa era de que o aumento da mistura fosse aprovado na reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), prevista para esta semana no Ministério de Minas e Energia (MME). O encontro, no entanto, foi cancelado, adiando novamente a definição.
A ampliação da mistura faz parte da estratégia do governo para reduzir a dependência da gasolina de origem fóssil, ampliar o consumo de biocombustíveis produzidos no país e diminuir a exposição do mercado doméstico à volatilidade dos preços internacionais do petróleo. A avaliação da equipe econômica é que a medida também fortalece a cadeia sucroenergética, amplia a segurança energética e contribui para a descarbonização do setor de transportes.
O presidente da Câmara também indicou apoio à iniciativa. "Em contato com os ministros do Planejamento, Bruno Moretti, e de Minas e Energia, Alexandre Silveira, acertamos que o CNPE irá se reunir na próxima terça-feira para deliberar sobre o aumento do percentual de 30% para 32% do etanol na gasolina", informou Motta.
A proposta divide opiniões entre governo, setor sucroenergético e indústria automobilística. Enquanto o Executivo defende a medida como uma forma de reduzir a dependência de combustíveis fósseis e ampliar o uso de fontes renováveis, fabricantes de veículos alertam para a necessidade de mais testes antes da adoção da nova mistura.
A principal preocupação está na compatibilidade do combustível com a frota em circulação, especialmente veículos mais antigos ou importados, desenvolvidos para operar com teores menores de etanol. Especialistas apontam que o aumento da concentração pode acelerar o desgaste de componentes do sistema de alimentação e do motor em modelos que não foram calibrados para essa composição.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) tem defendido cautela na implementação da medida. Segundo o presidente da entidade, Igor Calvet, a preocupação da indústria não é com o aumento da mistura em si, mas com a necessidade de validação técnica antes da mudança. "Nós temos discutido, na verdade, é que o aumento da mistura deve ser precedido de testes. Esse é o único ponto da Anfavea ", defendeu.
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Para a entidade, a realização de ensaios e de avaliações de desempenho é fundamental para garantir a compatibilidade da nova formulação com os diferentes modelos da frota brasileira e evitar impactos sobre a durabilidade dos veículos.

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