
Assinado na semana passada pelo governo brasileiro, o Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana (Alas) prevê a criação de um mercado comum para o setor de aviação na América do Sul. A ideia do Alas, assim como no bloco Mercosul, é buscar entendimentos para uma uniformização do transporte aéreo civil. Além do Brasil, assinaram o memorando países como a Argentina, Chile e Paraguai.
Na prática, a uniformização prevista no Alas dispõe que empresas aéreas operem voos domésticos em países diferentes de suas origens. Com essa flexibilização, será possível que uma companhia aérea argentina, como a Aerolíneas Argentinas, realize um voo entre Brasília e Rio de Janeiro, por exemplo.
Até ser colocado em prática pelos países signatários do Alas, o acordo passará por análise de um Grupo de Trabalho com o objetivo de apresentar um ambiente regulatório comum. Essa proposta será apresentada em até 12 meses.
A flexibilização da presença de companhias aéreas estrangeiras em voos domésticos, segundo o Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana, será feita em duas etapas. Na primeira, a companhia aérea estrangeira só poderá transportar passageiros entre cidades de outro país desde que o trecho faça parte de uma linha internacional já operada pela mesma empresa.
Após essa fase, a intenção do Alas é permitir que as aéreas atuem livremente em quaisquer mercados dos países participantes do acordo, independente da rota internacional prevista na primeira fase de aplicação do entendimento.
De acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos, outros países sul-americanos devem se juntar a Brasil, Argentina, Chile e Paraguai, na assinatura do Alas. Na semana passada, havia perspectiva de o Uruguai também participar do endosso ao mercado comum de transporte aéreo. O país, no entanto, justificou que trâmites administrativos o impossibilitaram de assinar o acordo, ação que fará posteriormente.
Incertezas
A efetivação e o avanço do acordo ainda são incertos. As três principais empresas aéreas brasileiras não se manifestaram sobre a efetividade do tratado para o longo prazo. Contatada pelo Correio, a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear) também comunicou não ter, até o momento, posicionamentos sobre o Alas.
Embora o setor não tenha se manifestado, analistas de mercado veem com ceticismo a construção de entendimentos no setor aéreo sul-americano em um prazo de 12 meses, período previsto no Grupo de Trabalho do Alas.
Para Felipe Sant Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, o projeto ainda é extremamente incipiente e corre riscos políticos devido à instabilidade socioeconômica de países da América do Sul.
"A gente sabe que pode ser prorrogado. Às vezes, troca o governo e os novos presidentes saem dessas alianças. Essa discussão é muito antiga, mas eu ainda estou descrente. Um ano para a América do Sul é um tempo eterno. Assim como o acordo com o Mercosul e União Europeia levou anos para acontecer, pode ser que esse também não saia. Faço votos que sim, torço que sim, mas sou bastante cético em relação a essa questão", discorreu Sant Anna.
Por outro lado, na avaliação do economista Adenauer Rockenmeyer, o mercado brasileiro de aviação gera interesses de países vizinhos para aderir ao memorando e lançar suas empresas a operarem nos voos domésticos.
"O Brasil é o segundo maior mercado de voos domésticos do mundo. Então, tendo o acordo, vai ampliar o número de capacidade de acesso às empresas, tanto as empresas nacionais como as empresas internacionais, ao mercado brasileiro e ao mercado dos países signatários", afirmou Rockenmeyer.
Conselheiro do Conselho de Economia de São Paulo, Rockenmeyer destacou que uma futura abertura de mercado de voos domésticos poderá reduzir o preço das passagens aéreas. "O preço médio da passagem doméstica, em 2025, ficou em R$ 652. É muito importante que haja a inserção de novas companhias para operarem no mercado doméstico, inclusive, até para fortalecer competitividade e redução de custos por parte das passagens aos passageiros. O aumento dessa concorrência só faz beneficiar os consumidores", projetou Rockenmeyer.
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A possível queda no preço das passagens gerada pelo aumento da oferta e voos domésticos — com a validação do Alas — também foi comentada pelo Ministério de Portos e Aeroportos. Em nota enviada ao Correio, a pasta ponderou ser "prematuro" atribuir ao acordo um efeito de redução do preço das passagens. "Ainda é prematuro atribuir uma eventual redução tarifária exclusivamente ao Memorando Alas ou estimar um percentual de queda, uma vez que a formação do preço depende de diversos fatores, como a cotação do dólar, o custo do querosene de aviação (QAV), a carga tributária, a demanda e os custos operacionais", afirmou a pasta.

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