Brasil Soberano 3

Setor vê ajuda do governo, mas teme impacto de tarifas dos EUA

Entidades e especialistas lembram que aumento de tarifas dos Estados Unidos ainda está em curso e essa recomposição poderá retornar aos 50% aplicados em 2025

Temor é de que a taxação imposta por Trump não fique apenas nos 25% que entraram em vigor ontem -  (crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Temor é de que a taxação imposta por Trump não fique apenas nos 25% que entraram em vigor ontem - (crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

A resposta emergencial do governo federal para a tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre mais de 3 mil produtos brasileiros, que começou a vigorar ontem, foi vista como positiva pelo setor produtivo, que também esboçou preocupação. Para empresários e especialista, a medida não deve ser suficiente para estancar os danos que o presidente norte-americano Donald Trump está causando com a nova guerra comercial que resolveu travar com vários países.

Uma nova taxa, de 12,5% é aguardada para sexta-feira e não ficará por aí. A expectativa é de que o republicano poderá voltar aos 50%, como aconteceu com o Canadá recentemente e como pretendia fazer com o Brasil, no ano passado.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou a terceira edição do Plano Brasil Soberano, que prevê uma linha de financiamento de até R$ 18,5 bilhões para empresas que atuam em setores estratégicos da balança comercial, afetadas pelas tarifas impostas pelos EUA, por conflitos internacionais e pelo avanço de medidas protecionistas.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a medida "é oportuna" e "ajuda a aliviar o duro golpe recebido por setores importantes da indústria nacional". Segundo a entidade, a sobreposição dessa barreira protecionista ao estrangulamento financeiro das empresas "evidencia a urgência do pacote governamental". "Há espaço, no entanto, para que a resposta emergencial anunciada pelo governo seja um dos instrumentos de uma 7ª missão da Nova Indústria Brasil (NIB), voltada para a ampliação da inserção da indústria brasileira no mercado internacional", defendeu a CNI, em nota após o anúncio do Plano Brasil Soberano 3, na qual criticou as amarras do setor produtivo como juros altos e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos.

A Federação das Indústrias do Estado de M.inas Gerais (Fiemg) avaliou que a nova linha de crédito "pode contribuir para mitigar os impactos enfrentados pelas empresas afetadas pelas novas tarifas impostas pelos Estados Unidos", mas "ainda não é possível avaliar se o volume anunciado e as condições de acesso aos recursos serão suficientes diante da dimensão dos impactos e da demanda das empresas elegíveis".

"Será necessário acompanhar a reação de cada setor às novas condições comerciais. Também será preciso analisar a capacidade das empresas de diversificar seus mercados de destino, assim como a possibilidade de absorção, pelo mercado interno ou por outros países, das mercadorias anteriormente exportadas para os Estados Unidos", destacou a Fiemg, em nota.

A entidade informou que segue acompanhando as medidas adotadas pelo governo dos EUA e defende que o governo brasileiro mantenha o caminho da diplomacia e da negociação, "buscando um acordo entre Brasil e Estados Unidos que possibilite a redução ou a modulação das tarifas, além da ampliação da lista de exceções".

A Fiemg ressaltou que aguarda a conclusão, até o fim desta semana, da investigação relacionada à proibição de importações de produtos fabricados com trabalho forçado. A medida proposta prevê uma nova tarifa adicional de 12,5% para o Brasil.

Tarifa vira imposto

A economista e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics (PIIE) Monica de Bolle, em artigo recente, lembrou que esse tarifaço de Trump está virando imposto, porque Trump vem tentando recompor as tarifas que criou desde que reassumiu a Casa Branca, no ano passado, mas que foi obrigado a recuar por decisão da Corte Suprema norte-americana em fevereiro. Por conta disso, ela lembra que, além dos 12,5% que já foram sinalizados pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) a partir de sexta-feira, outros 12,5% ainda devem ser anunciados ao longo deste ano para que os 50% que eram cobrados anteriormente sobre os produtos brasileiros no ano passado sejam retomados. E essa recomposição gradual de tarifas deve acontecer com os demais países com os quais os EUA vem sinalizando, porque elas foram importantes para a arrecadação do ano passado do governo norte-americano que tem aumentado significativamente os gastos, especialmente devido ao conflito no Irã, que já consumiu quase de US$ 38 bilhões e poderá custar mais de US$ 100 bilhões.

Questão fiscal

"Essas tarifas, agora, também viraram um instrumento de manejo fiscal para o governo Trump, principalmente, nessa situação em que o deficit público norte-americano está aumentando por razões diversas, com o ressarcimento que tem que ser feito às empresas, com a guerra do Irã, com uma porção de outras medidas que o governo Trump andou fazendo, como redução de impostos, por exemplo. Eles, agora, contam com esses recursos das tarifas para fechar as contas, então, vão remontar todo aquele aparato tarifário que eles fizeram no ano passado", explicou a economista, em entrevista ao Correio.

"Isso significa que para o Brasil, estamos caminhando de volta para os 50% em etapas. Então, vimos, primeiro, os 25% que já entraram em vigor, e veremos, na sexta-feira os 12,5% que levarão as tarifas para 37,5%. E a reconstituição final para os 50% adicionais anteriores, ou seja, os 12,5% faltantes, certamente vão vir de uma ação muito parecida com a que foi feita contra o Canadá", afirmou.

Na avaliação de Monica de Bolle, por conta dessa recomposição de tarifas que está em curso pelo governo dos EUA, não apenas contra o Brasil mas contra o resto do mundo, e, isso ainda vai custar caro para os contribuintes em algum momento. "O Brasil vai ter que reagir de alguma forma além desse tipo de medida. Entendo que temos muitas restrições neste momento, que é um momento difícil, com eleições, e o governo está fazendo milhões de cálculos políticos para avaliar qual a melhor rota a seguir. Por enquanto, parece que a rota a seguir foi essa, do anúncio do pacote de financiamento para as empresas afetadas", avaliou. A economista lembrou que os setores beneficiados são os menos produtivos e menos competitivos da economia brasileira. Os ministros não informaram o impacto fiscal da medida. Mas, para Monica de Bolle, isso significa que, sim, a medida ainda vai custar para todos quando os subsídios forem ampliados. "Esse auxílio, atende às necessidades desses setores, mas custa para a economia brasileira. É custoso não só porque envolve subsídios, isenções tributárias e coisas desse tipo, mas também porque é dinheiro que está sendo direcionado para setores que são relativamente ineficientes", alertou.

 


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postado em 23/07/2026 05:00
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