A rápida expansão da soja nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal está alterando o perfil da produção agrícola em áreas que concentram quase metade da população da região e acende um alerta sobre a segurança alimentar. Entre 2017 e 2024, a área plantada com soja cresceu mais de 70% nesses territórios — ritmo superior ao observado tanto na média nacional quanto no conjunto dos estados amazônicos —, enquanto culturas fundamentais para a alimentação da população, como mandioca, banana, arroz e melancia, perderam espaço.
As conclusões integram o estudo "Muita soja e pouca mandioca: a alimentação nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal", do Instituto Escolhas, obtido pelo Correio. A pesquisa analisou dez bases públicas de dados e avaliou desde produção agrícola e consumo alimentar até abastecimento e orçamento público para identificar como evoluíram os sistemas alimentares dos 138 municípios que integram as regiões metropolitanas da Amazônia Legal.
Para a diretora de Pesquisa do Instituto Escolhas, Juliana Ramos Luiz, a discussão vai além da agricultura. Trata-se de um desafio de planejamento urbano, desenvolvimento regional e segurança alimentar. "A produção de alimentos é um problema público que ultrapassa fronteiras territoriais. Assim como o transporte precisa ser pensado regionalmente, o abastecimento alimentar também deveria ser tratado dessa forma", afirma.
Embora frequentemente associada apenas ao bioma amazônico, a Amazônia Legal é também um arranjo político-administrativo criado para orientar políticas de desenvolvimento regional por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). O território reúne 773 municípios distribuídos em nove estados e engloba, além da Amazônia, áreas do Cerrado e do Pantanal.
Dentro desse universo, 138 municípios pertencem às regiões metropolitanas, criadas por leis estaduais justamente para enfrentar problemas públicos que extrapolam os limites municipais, como transporte, saneamento e, segundo a pesquisadora, também a alimentação.
O estudo mostra que o tema ganha ainda mais relevância diante dos indicadores sociais. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) apontam que 24% dos domicílios brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar. Nos estados da Amazônia Legal, seis dos nove apresentam índices superiores à média nacional. No Pará, o percentual chega a 44%.
Mudança produtiva
O principal sinal identificado pelo levantamento é a mudança na ocupação agrícola. Entre 2017 e 2024, a área destinada à soja aumentou mais de 70% nas regiões metropolitanas amazônicas, enquanto a expansão nacional foi de 36% e, nos estados da Amazônia Legal, de cerca de 45%. O avanço ocorre justamente em áreas próximas aos centros urbanos, locais estratégicos para abastecimento de frutas, verduras e alimentos frescos.
Juliana ressalta que o estudo não questiona a importância econômica da soja, principal commodity agrícola brasileira, mas alerta para seus efeitos sobre a produção destinada ao consumo local. "Os dados mostram que cerca de 72% da soja produzida na Amazônia Legal é exportada em grãos, sem beneficiamento. É uma atividade economicamente importante, mas estamos falando de regiões próximas às cidades. Produzir alimentos perto das pessoas também é uma ferramenta de segurança alimentar", avalia.
O crescimento da oleaginosa veio acompanhado da redução da área cultivada com alimentos tradicionais. Entre eles estão banana, melancia, arroz e, principalmente, mandioca — alimento central na dieta amazônica.
A pesquisa mostra que, enquanto a soja expandiu sua área, a mandioca perdeu espaço relativo. Se em 2017 a diferença entre ambas já era significativa, em 2024 a área destinada à mandioca passou a representar uma fração ainda menor da ocupada pela soja. "É um sinal de alerta relevante. Estamos observando uma alteração produtiva justamente em regiões onde vivem milhões de pessoas", diz.
Segundo a pesquisadora, dados de consumo também indicam uma tendência preocupante. "As pesquisas já mostram redução no consumo de frutas, legumes e verduras e aumento de alimentos ultraprocessados. Se essa alteração produtiva continuar, a tendência é que esse cenário se aprofunde", destaca.
Falta de dados
O segundo grande alerta do estudo envolve o abastecimento alimentar. A pesquisa identificou forte desigualdade na distribuição das Centrais de Abastecimento (Ceasas). Das unidades monitoradas pelo Programa Brasileiro de Modernização do Mercado Hortigranjeiro (Prohort), apenas cinco estão na Amazônia Legal.
Além do número reduzido de estruturas, a disponibilidade de informações também é limitada. "Existe pouco espaço físico dedicado ao abastecimento e também pouca transparência sobre os dados. Muitas dessas centrais praticamente não disponibilizam informações sobre comercialização, origem e circulação dos alimentos", afirma Juliana.
Mesmo com as limitações, os dados disponíveis mostram que menos de 2% de todas as frutas, legumes e verduras comercializadas nas centrais brasileiras têm origem na Amazônia Legal. Entre 2017 e 2024, o volume desses alimentos caiu de 180 mil para 161 mil toneladas, redução de 11%. O resultado pode indicar tanto diminuição da produção quanto mudanças na distribuição regional dos alimentos.
Orçamento
O levantamento também identificou baixa prioridade orçamentária para políticas de abastecimento. Segundo o estudo, diversos estados da Amazônia Legal não destinam recursos específicos para essa área. Quando há investimentos, os valores representam parcela muito pequena dos gastos públicos.
Em 2024, os recursos destinados ao abastecimento somaram apenas R$ 14 milhões, valor corrigido pela inflação, equivalente a cerca de 2% da função Agricultura. "Estamos muito longe de uma coordenação estadual capaz de organizar os sistemas alimentares dessas regiões", afirma Juliana.
Outro diagnóstico preocupante envolve o planejamento municipal. Embora muitos municípios possuam alguma estrutura administrativa voltada à segurança alimentar, apenas 11% contam com Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional. "Ter uma secretaria não basta. O plano estabelece diagnóstico, metas, cronograma e permite transformar o tema em política pública", enfatiza.
Caminhos
Entre as recomendações, o Instituto Escolhas defende maior adesão dos municípios ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), cuja participação é voluntária. Segundo Juliana, a adesão facilita o acesso a programas federais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e fortalece estruturas de abastecimento da agricultura familiar.
A pesquisadora também defende maior protagonismo dos estados. "O estado precisa exercer esse papel de coordenação, ampliar recursos para abastecimento, olhar os sistemas alimentares de forma integrada, da produção ao consumo, e dar mais transparência aos dados."
Para Juliana, o crescimento da produção agrícola não precisa ocorrer em detrimento da segurança alimentar, desde que seja acompanhado por diversificação produtiva e boas práticas agrícolas. Ela lembra que o próprio Plano ABC+, voltado à agricultura de baixa emissão de carbono, prevê práticas como o sistema de plantio direto e a rotação de culturas. "Hoje predominam sucessões como soja e milho. A rotação de culturas permite diversificar a produção, melhora a saúde do solo e reduz a dependência de um único cultivo", pondera.
Segundo a pesquisadora, manter a expansão baseada apenas na monocultura traz riscos econômicos e ambientais. "Não é uma questão apenas ambiental. O solo se exaure, os custos aumentam e o sistema perde sustentabilidade econômica. A Amazônia é a região mais biodiversa do planeta. Existe enorme potencial para produzir mais, diversificar e fortalecer a bioeconomia."
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