
Os documentos de vários relatórios sigilosos das investigações da Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero, que trata do escândalo de fraudes do Banco Master, revelam uma série de conversas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro que colocam não apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) em uma crise institucional, mas também o Banco Central.
Nos documentos anexados, os autos registram que Vorcaro mantinha interlocução frequente com dois funcionários do Banco Central: Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto do Desup, ambos afastados do BC após vazamento de informações sobre as investigações. Eles chegaram a dar consultorias a Vorcaro. Paulo Sérgio, inclusive, deu instruções sobre como o ex-banqueiro deveria se comportar em reunião com o presidente do BC.
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Belline Santana é acusado de ter recebido R$ 2 milhões em propina para atuar como uma espécie de consultor informal do Master dentro do próprio BC. Conforme investigação aberta pela autoridade monetária, ele abriu uma empresa destinada à educação financeira de crianças carentes para receber dinheiro do Master.
Segundo relatório da Polícia Federal, ele recebeu os recursos, enquanto mantinha contatos frequentes com Vorcaro, revisando documentos e dando instruções sobre como enviá-los ao órgão. O inquérito demonstra farto material mostrando que Belline também participava de reuniões virtuais e presenciais com o banqueiro, além de repassar informações sobre a fiscalização do BC sobre o Banco Master. Belline ainda é acusado de ter recebido favores durante uma viagem a Paris com a sua esposa, recebendo vantagens materiais em almoços e jantares em restaurantes da capital francesa.
Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do BC, também é acusado de participar do mesmo esquema, tendo recebido R$ 4,8 milhões em propina, por meio da venda de um sítio no interior de Minas Gerais.
Nos autos do processo, há a indicação de serviços prestados por Daniel Vorcaro a Paulo Sérgio e família em uma viagem para Orlando, na Flórida (Estados Unidos), para a Disney.
Pressões sobre Galípolo
Em um dos autos, Vorcaro pediu ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para tentar um encontro com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, na véspera de ele ser preso. Um print da conversa datada em 16 de novembro de 2025, Vorcaro afirma: "Tentar que o Galípolo me receba e eu apresente o que vamos protocolar essa semana. Vamos resolver tudo. Não podem estourar uma bomba atômica na hora da solução, não faz sentido pra ninguém", informou o print de uma anotação no bloco de notas encontrada no celular do ex-banqueiro. Segundo as investigações da PF, Vorcaro tirou foto do registro e o enviou para o contato de Moraes em 16 de novembro de 2025.
Pouco antes, no dia 30 de outubro, Vorcaro registrou uma nota relatando que viajaria para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, a fim de se encontrar com o interlocutor. Na mesma anotação, descreveu a situação do banco e os problemas que vinha enfrentando, destacando que havia recebido informações confidenciais de integrantes do Banco Central de que "G" (provavelmente Gabriel Galípolo, presidente do BC, segundo as informações dos investigadores da PF) e os demais diretores estariam novamente sob forte pressão para adotar alguma medida, em razão de intensa cobrança proveniente da PF e do Ministério Público Federal (MPF), os quais estariam alegando que tomariam providências contra ele.
Tornozeleira
Ontem, a defesa de Belline solicitou ao ministro André Mendonça, relator do caso, a revogação da obrigação de uso de tornozeleira eletrônica pelo cliente.
Em petição ao ministro, o advogado Leonardo Palazzi, usou como argumento a existência de "inadequações, disfuncionalidades, irregularidades e potenciais ilicitudes" por parte da Polícia Federal, argumento usado pelo próprio Mendonça em sua decisão de afastar Andrei Rodrigues da chefia do próprio órgão, na última terça-feira. No dia seguinte, o presidente do Supremo, Edson Fachin, suspendeu a decisão e manteve Andrei no posto. (Com Agência Estado)
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