
A carreira docente enfrenta um cenário de baixa satisfação e elevada saída de profissionais no Brasil, segundo dados do Education at a Glance 2026, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O levantamento mostra que 10,3% dos professores plenamente qualificados do ensino fundamental e médio que atuavam em instituições públicas deixaram a profissão em 2022, seja por aposentadoria ou seja por pedido de demissão, ocupando o quarto colocado entre os países analisados. Na média dos países analisados pela OCDE, a taxa foi de 6,4%, considerando 2024/25.
Os dados indicam que o desafio para o sistema educacional brasileiro não está apenas na formação de novos professores, mas também na capacidade de manter esses profissionais na carreira. Entre os docentes brasileiros do ensino fundamental II, apenas 22,3% afirmaram estar satisfeitos com os salários, ante 38,7% na média dos países da OCDE. A diferença também aparece quando são consideradas as demais condições de trabalho: 44,3% dos professores brasileiros declararam satisfação, enquanto a média internacional chegou a 68,4%, a terceira pior do ranking, ficando atrás apenas de Japão, com 37,3% e de Portugal, com 39,1%.
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Em entrevista ao Correio, a gerente-executiva de advocacy do Instituto Ayrton Senna, Beatriz Alquéres, afirmou que os dados reforçam a necessidade de tratar a valorização docente de forma mais ampla. Para ela, embora a criação do Piso Nacional do Magistério tenha representado um avanço, a remuneração é apenas uma das dimensões do problema. Beatriz defende mudanças na organização da jornada, de modo que o professor possa permanecer em uma mesma escola e construir vínculos com a comunidade, além de uma formação inicial mais próxima da realidade da sala de aula. "Quando a formação inicial é excessivamente distante dessa prática, não prepara esse professor para desafios reais da sala de aula. Possui uma frustração e contribui para afastá-lo dessa profissão", afirmou.
Outro indicador chama atenção para a estabilidade dos profissionais. No Brasil, 37% dos professores têm contratos temporários, quase o dobro da média registrada pela OCDE, de 19%. O levantamento considera esse cenário dentro de um contexto internacional de escassez de mão de obra qualificada, que também atinge a educação. No país, 9% dos professores do ensino fundamental e médio da rede pública não eram plenamente qualificados em 2024/25. O percentual é próximo da média da OCDE, de 9,1%.
Motivações
A organização ressalta, no entanto, que a saída de professores não pode ser atribuída exclusivamente à insatisfação com a profissão. A taxa de desligamento também sofre influência da estrutura etária da força de trabalho, das condições do mercado e das características de cada sistema educacional. No caso brasileiro, portanto, o dado de 10,3% reúne tanto aposentadorias quanto pedidos de demissão e não permite, isoladamente, dimensionar quanto da saída está relacionado às condições de trabalho.
A formação e a composição da carreira também aparecem no diagnóstico. Segundo a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) de 2024, 11,5% dos professores brasileiros do ensino fundamental II já haviam trabalhado anteriormente em outras áreas da educação. Na média da OCDE, eram 8,4%. Para a organização, a contratação de profissionais com experiências anteriores em outras funções educacionais é uma das estratégias utilizadas pelos sistemas de ensino para enfrentar a escassez de docentes.
O problema ganha outra dimensão quando os dados sobre professores são observados em conjunto com a evolução da população escolar. Entre 2015 e 2024, o número de professores do ensino fundamental no Brasil aumentou 4%, enquanto o número de alunos caiu 7%. A tendência demográfica deve continuar pressionando a demanda por docentes: a OCDE projeta uma redução de 3% no número de crianças de 5 a 14 anos no país entre 2024 e 2033, caso as demais políticas permaneçam inalteradas.
A própria organização, porém, alerta que a quantidade de crianças em idade escolar não é suficiente para determinar a necessidade de professores. O tamanho das turmas, a jornada de trabalho, o tempo destinado ao ensino, a rotatividade dos profissionais e as decisões de financiamento também interferem na quantidade de docentes necessária em cada sistema. A redução da população escolar, portanto, não significa automaticamente que haverá menor necessidade de professores em todas as regiões e redes.
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