Eleições 2026

Lula e Flávio representam caminhos distintos para a economia

Principais concorrentes à Presidência defendem programas opostos: manutenção dos gastos ou corte radical

Projeto econômico, porém, foi ofuscado na campanha por escândalos e temas como saúde e segurança -  (crédito: Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Ag.Senado)
Projeto econômico, porém, foi ofuscado na campanha por escândalos e temas como saúde e segurança - (crédito: Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Ag.Senado)

O primeiro turno das eleições, hoje, representa o embate entre projetos diferentes de país, inclusive para a economia. No atual cenário — novamente — polarizado, chamam atenção as propostas colocadas pelo atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e pelo principal concorrente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Os demais adversários, porém, também representam suas próprias visões de país. (Leia mais na página 10)

Apesar de o tema, neste pleito, estar à margem das principais preocupações do eleitorado, é inegável que a condução da economia é um dos pontos de maior impacto para a população em um governo, e as propostas devem ser avaliadas com atenção antes do voto.

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Há pouco mais de vinte anos, o Brasil convivia, diariamente, com uma inflação descontrolada e elevada dívida externa, sobretudo para com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse contexto, diversas reformas econômicas foram implementadas durante o final da década de 1980 — também conhecida como a "década perdida" — e o início dos anos 1990, até que, no governo de Itamar Franco, sob a gestão do também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), o governo implementou o Plano Real, que conseguiu frear de vez a crise inflacionária.

Nessas últimas duas décadas, o país testemunhou momentos de crescimento mais forte da economia, com algumas crises pontuais, como no segundo governo de Dilma Rousseff (PT) e durante a pandemia de covid-19, já sob o comando de Jair Bolsonaro (PL). A inflação, no entanto, nunca mais retornou ao patamar de antes da criação do real. Diante disso, o debate sobre propostas para economia perdeu força nas últimas eleições para outros temas, como saúde, segurança pública e meio ambiente, além das pautas consideradas ideológicas.

Mesmo não sendo o assunto mais discutido entre os candidatos em si, nos bastidores das eleições deste ano, os integrantes das equipes econômicas dos candidatos não deixam de apontar o que pensam para o país e qual o plano de sua chapa para resolver os problemas econômicos. Apesar de manter um câmbio estável desde o início do mandato e a inflação dentro do limite superior da meta, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não conseguiu resolver a crise fiscal do país, com um aumento das despesas obrigatórias e da dívida pública nos últimos anos, como avaliam os adversários e analistas do mercado.

Mais do mesmo

No plano de governo do atual presidente, há poucas propostas novas para o campo da economia. Ao contrário, Lula aposta na permanência de programas instituídos no seu atual governo, como as políticas para frear o endividamento, encabeçadas pelo Desenrola — que chegou, nesta semana, à sua terceira fase — além da manutenção do arcabouço fiscal para controlar as receitas e despesas do Orçamento Federal. Além disso, o programa cita a valorização real do salário mínimo, retomado no seu governo, além de políticas para estudantes, como o Pé-de-Meia e o Programa Universidade para Todos (Prouni).

Apesar do crescimento das despesas nos últimos anos, a campanha de Lula aposta que o resultado fiscal virá a partir da retomada do crescimento econômico, dos investimentos na melhoria da eficiência e da qualidade do gasto público, na promoção da justiça tributária e no combate a privilégios e distorções. "A inflação baixa e a estabilidade de preços são pressupostos fundamentais do nosso governo. Manteremos a inflação sob controle de forma duradoura e sustentável, garantindo que a renda real da população cresça acima do custo de vida", destaca o plano.

Em um artigo escrito para a revista britânica The Economist, o ministro da Fazenda de Lula, Dario Durigan, disse que o presidente adotou a "política fiscal correta para o Brasil" e destacou que o deficit primário saiu de pouco mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023 para uma projeção de 0,6% do PIB em 2026. Em outras entrevistas recentes, o chefe da equipe econômica também tem falado sobre "apertar" a atual regra fiscal, apesar de eximir o governo de exceções aplicadas ao arcabouço.

Um dos maiores desafios de Lula em um possível quarto governo, no entanto, será retomar a credibilidade com o mercado financeiro, que ainda olha cético para a efetividade do arcabouço e dos meios para controlar a inflação. Uma das provas disso é a taxa básica de juros, que atingiu o maior valor nominal em duas décadas, ao chegar a 15% no ano passado. A percepção do próprio Banco Central nas atas divulgadas no início do ano era de uma trajetória de preços descontrolada e um ambiente doméstico desfavorável para a redução da Selic.

O economista e especialista em mercado financeiro César Bergo, professor da Universidade de Brasília (UnB), avalia que as diferenças entre os principais candidatos na área econômica aparecem, sobretudo, na forma como cada um pretende lidar com as contas públicas e o papel do Estado na economia. Segundo ele, enquanto Lula combina responsabilidade fiscal com a manutenção de investimentos públicos e políticas sociais, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concentra sua proposta na redução da máquina pública.

Tesouraço

No outro lado da disputa, o principal adversário de Lula nas eleições, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, promete um "grande tesouraço" já no início de 2027, com a revisão dos atuais modelos orçamentários, além de propostas para reduzir o tamanho da máquina pública. Um dos nomes cotados para assumir o Ministério da Fazenda em eventual governo de Flávio é a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal durante o mandato de Jair Bolsonaro, e que já disse ser entusiasta do modelo implementado na Argentina por Javier Milei, que, segundo ela, seria utilizado como "inspiração" para o possível governo.

No plano de governo do senador, as propostas para a economia incluem uma revisão do pacto federativo e mudança nas regras e processos orçamentários, com o objetivo de agilizar a aprovação e liberação de recursos. "No mesmo esforço de organizar melhor o orçamento, daremos mais transparência, controle e rastreabilidade às emendas parlamentares", destaca o programa. Ele promete, ainda, enxugar a máquina pública por meio de uma reforma administrativa e, assim como o pai fez em 2019, pretende reduzir o número de ministérios na Esplanada.

Flávio também pretende revisar a reforma tributária aprovada durante o governo Lula, que, segundo ele, foi "entregue ao sabor dos lobbies", com um número elevado de exceções. "Vamos corrigir suas distorções, reduzir o IVA (Imposto sobre o Valor Agregado), hoje projetado num dos patamares mais altos do mundo, e assegurar a não cumulatividade, para que não se cobre imposto sobre imposto", defende o candidato, que também prevê medidas para reduzir as fraudes na Previdência Social e a reformulação das regras fiscais para garantir a "estabilização" e "redução" da dívida pública.

Para Bergo, a diferença entre os candidatos também aparece nas propostas tributárias. "Com relação à reforma tributária, eles também apresentam propostas importantes com impacto na atividade econômica. Lula defende consolidar a reforma tributária já aprovada e simplificar a tributação para pequenos negócios, trabalhadores autônomos. Já Bolsonaro, o Flávio, propõe revisar a reforma tributária, reduzindo a carga sobre produção. E os demais também, o Caiado principalmente, concentra mais na revisão do subsídio e benefícios fiscais. O Zema propõe metas progressivas de redução da carga tributária. Já Renan Santos propõe reduzir, aproximadamente, o que a gente tem visto aí, né, em torno de 100 bilhões das renúncias fiscais", explica.

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postado em 03/10/2026 21:05
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