Eleições 2026

Candidatos trazem propostas econômicas em alternativa à polarização

Reduzir gastos é consenso entre os candidatos que não lideram a corrida ao Planalto, mas propostas vão da queda gradual ao "choque fiscal"

Relação comercial com outros países, como os Estados Unidos, é ponto de divergência entre os candidatos -  (crédito: instagram @portodesantosbr)
Relação comercial com outros países, como os Estados Unidos, é ponto de divergência entre os candidatos - (crédito: instagram @portodesantosbr)

Fora da polarização entre os dois candidatos que lideram a corrida ao Planalto, outros concorrentes defendem agendas que também incluem reformas estruturais e mudanças no arcabouço fiscal, como o candidato pelo Partido Social Democrático (PSD), Ronaldo Caiado. No plano de governo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele promete encaminhar ao Congresso um "pacotão" que inclui medidas fiscais, administrativas, políticas, de segurança, produtividade e qualidade regulatória. Entre as medidas para a economia, prevê dar mais transparência ao Orçamento e rever benefícios tributários, com o combate aos chamados "supersalários".

Em entrevista ao Correio, o responsável pelos assuntos econômicos na campanha do ex-governador de Goiás, o ex-ministro da Previdência e Assistência Social no governo de Fernando Henrique Cardoso, Roberto Brant, disse que a ideia é aprovar uma emenda constitucional de "emergência" nos primeiros 100 dias de governo, para limitar o crescimento das despesas já a partir de 2027, com a correção da inflação do ano anterior mais 50% da projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, as despesas primárias da União passariam a crescer menos do que a economia, segundo ele.

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"Para isso, vai ser preciso mexer nas despesas obrigatórias, nas emendas parlamentares, nos supersalários do Poder Judiciário e do Ministério Público", destaca Brant, que acusa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de não terem "credenciais morais" para falar sobre controle fiscal. "Mesmo que eles, por milagre, quisessem fazer qualquer forma de ajuste fiscal, não sei se eles teriam apoio político no Congresso, tal a divisão que eles promovem. Uma vitória eventual do Caiado teria essa vantagem", completa.

O ex-ministro também acredita em um roteiro similar ao promovido pelo governo do ex-presidente Michel Temer para reduzir o nível da Selic. Ele lembra que, quando assumiu o governo, o emedebista contava com uma taxa de juros em 14,5%, em patamar próximo ao de hoje, e que, após a aprovação do teto de gastos, essa taxa iniciou uma trajetória decrescente, até chegar a 2% durante o governo Bolsonaro.

"Então, são receitas que já provaram que dão certo. Quer dizer, você precisa mostrar uma trajetória de rigor fiscal. Essa trajetória é transmitida para o setor privado e, ali, há uma mudança nas expectativas, uma mudança na percepção do risco fiscal. Os juros caem simultaneamente e, com a combinação de superavit crescente e juros decadentes, você claramente chega a uma estabilização da dívida por volta de 2030, no final do mandato", avalia.

Indicadores

O candidato Augusto Cury (Avante) promete manter o deficit fiscal próximo de zero durante todo o mandato, de acordo com o plano de governo. Ele também menciona a redução "gradual e sustentável" da dívida pública, com crescimento econômico e responsabilidade fiscal, além de defender também uma reforma administrativa, que incluiria a redução do número de ministérios e mecanismos de avaliação de desempenho para servidores. O presidenciável aposta na avaliação permanente das políticas de governo, por meio de "indicadores transparentes".

Imediatamente após a eleição, Cury promete, ainda durante a transição, fazer um levantamento completo da administração pública federal, das despesas, dos programas, dos contratos e das empresas estatais, especialmente daquelas que acumulam prejuízos, como explica ao Correio o deputado Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR), responsável pelo programa do candidato. "Faremos uma revisão ampla e detalhada das contas para identificar desperdícios, sobreposições, privilégios e estruturas que não entregam resultados à população", destaca.

Sobre a questão dos juros e crédito mais restrito, Hauly diz que o objetivo do candidato é ampliar a concorrência bancária, a portabilidade, o Open Finance, as cooperativas de crédito e o mercado de capitais, para reduzir tanto a taxa básica quanto os spreads bancários. "A meta do governo Augusto Cury será construir as condições para reduzir pela metade, ao longo do mandato, o custo dos juros básicos e finais, sem artificialismo, calote ou intervencionismo", defende.

Para recuperar a credibilidade de investidores internacionais e recuperar o grau de investimento (nota de crédito que indica que o país é um bom pagador) do Brasil nas principais agências de risco, a proposta do candidato é apresentar uma carteira de concessões e parcerias com o setor privado em diferentes setores, além de manter a responsabilidade fiscal e garantir sustentabilidade à trajetória da dívida. "O governo fará a sua parte: responsabilidade fiscal, dívida em trajetória sustentável, juros menores, estabilidade regulatória, respeito aos contratos e crescimento com produtividade", promete Hauly.

Remédio amargo

Com uma visão ainda mais liberal sobre a economia, o candidato pelo Missão, Renan Santos, que disputa as eleições pela primeira vez, adota um tom crítico tanto à regra fiscal adotada por Temer quanto à implementada no atual governo. Ele defende uma revisão desse modelo, com base em um projeto já existente, do deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), chamada proposta de emenda à Constituição (PEC) do Equilíbrio Fiscal. Ao Correio, o parlamentar diz que a proposta é mais radical do que o teto, por atuar "antes" na estrutura do gasto.

"A PEC do Equilíbrio Fiscal mexe diretamente nas despesas obrigatórias, com desindexação, desvinculação, revisão de benefícios tributários e outras medidas de ajuste", explica Kataguiri, que afirma ainda que nova regra fiscal será desenhada a partir dos princípios estabelecidos no Livro Amarelo — o plano de governo de Renan. "A diferença principal é essa. Nós não queremos criar uma regra para administrar a trajetória atual das despesas. Queremos primeiro alterar essa trajetória e, a partir daí, estabelecer uma regra fiscal que seja sustentável no longo prazo", acrescenta.

O candidato pelo Missão também não esconde a inspiração no governo de Javier Milei, da Argentina, e diz que o Brasil também precisa de um "remédio amargo" para combater a inflação e o orçamento mais apertado. "Existe uma inspiração no Milei, principalmente na disposição de fazer as reformas no começo do governo e de dizer durante a campanha que haverá medidas difíceis", diz o deputado, que pondera, no entanto, que o desenho será adaptado aos problemas brasileiros.

Sobre um possível programa de desestatização defendido por Renan, Kim Kataguiri afirma que o critério é avaliar se existe uma função estratégica que justifique o Estado permanecer naquela atividade. Ele defende, por exemplo, a privatização dos Correios. "Não vemos necessidade de o governo federal operar uma empresa de serviços postais quando essa atividade pode ser prestada pela iniciativa privada", diz o deputado, que, por outro lado, nega desestatizar Petrobras e Embrapa.

Privatização total

Já Romeu Zema (Novo), que também adota uma linha favorável às privatizações, tem uma linha ainda mais liberal em relação ao uso das empresas públicas. O programa do ex-governador de Minas Gerais cita privatizar "todas as empresas estatais" para, segundo o plano dele, que o governo se concentre "naquilo que de fato lhe cabe", e cita segurança pública e educação como temas prioritários. A política inclui o aumento das parcerias público-privadas em todos os setores, inclusive em saúde e educação.

No campo fiscal, o programa de Zema cita garantir a queda da curva de juros por meio de um choque fiscal para estabilizar a relação dívida/PIB, e promover reformas, com a manutenção dos superavits primários que permitam o pagamento da dívida. Também menciona a redução gradual dos programas de crédito direcionado, que inclui linhas subsidiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (BNDES), para setores escolhidos "politicamente", com objetivo de ampliar a concorrência entre os bancos e baratear o custo do crédito.

O candidato também defende a implementação de uma nova reforma da Previdência, que envolveria estados e municípios, além da previdência rural e militar, criando um mecanismo de reajuste automático da idade mínima para a aposentadoria com base na expectativa de vida da população.

Diferenças

O economista especialista em mercado financeiro e professor da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo identifica diferenças na forma como os candidatos tratam o investimento público e a participação do Estado na economia. "A proposta do Lula atribui ao Estado um papel mais relevante na indução de investimentos com infraestrutura, indústria e fortalecimento das estatais. Já Flávio Bolsonaro, Zema, inclusive, colocam mais ênfase na redução da estrutura estatal, inclusive aumentando as concessões e a privatização também para que possa haver atração de capital privado. Já Caiado fica com uma posição própria, combina ajuste fiscal com a política ativa para visão da reindustrialização, o que ele fez, mais ou menos, lá em Goiás", afirma.

Ao fazer uma síntese das propostas, Bergo afirma que todos os candidatos analisados colocam o equilíbrio das contas públicas entre os principais pontos de suas agendas econômicas, embora apresentem caminhos diferentes.

Para o economista, o desafio central está em detalhar como essas promessas seriam executadas. "Basicamente, cada um tem um pensamento, mas todos eles colocam como importante o equilíbrio das contas públicas. Realmente, hoje, a grande dificuldade é entender um pouco esse emaranhado das contas públicas. O endividamento do Estado vem aumentando, está em 82,4% do PIB. Isso preocupa", afirma. Para o setor produtivo, o professor aponta que cada candidato também elencou indústria, tecnologia, minerais críticos e comércio como áreas prioritárias.

Na política comercial, Bergo destaca diferenças na relação pretendida com outros mercados. "A questão mais delicada, talvez, é a do relacionamento com os Estados Unidos. Lula propõe diversificar mercados, ampliar acordos comerciais. Já Flávio propõe uma aproximação maior dos EUA. Ele tem colocado isso muito no discurso dele. E, agora, o Caiado apresenta uma proposta interessante nesse aspecto quando ele enfatiza a maior integração das cadeias globais. Sobretudo, focando a Ásia, Oriente Médio e a África", afirma.

O Correio procurou as equipes de campanha dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

  • POL-Propostas dos candidatos
    POL-Propostas dos candidatos Foto: Valdo Virgo
  • Neste ano, a população irá votar para deputado federal, deputado estadual ou distrital (no caso do DF), dois senadores, governador e presidente
    Neste ano, a população irá votar para deputado federal, deputado estadual ou distrital (no caso do DF), dois senadores, governador e presidente Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
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postado em 03/10/2026 21:21
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