
O mercado financeiro brasileiro deve amanhecer eufórico hoje, após o resultado das eleições gerais de ontem, dando uma vantagem maior do que a esperada para Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição para o quarto mandato. A diferença entre os dois ficou em pouco mais de 2,2 milhões de votos, com placar de 47,03% a 45,16% a favor do senador fluminense, contrariando a maioria das pesquisas que davam vantagem ao candidato petista.
Na Avenida Faria Lima, pólo financeiro paulistano, a torcida para Flávio era clara, sob a justificativa de que o senador teria mais condições do que Lula de realizar um ajuste fiscal — que será inevitável em 2027, devido à forte deterioração das contas públicas. Um dos motivos para isso foram as declarações de Lula e de integrantes da campanha minimizando essa agenda.
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Na apuração de ontem, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ficou o tempo todo à frente de Lula, e a vantagem chegou a quase 10 pontos percentuais no início.
"Considerando nossas hipóteses de transferência de votos, seria muito difícil Lula vencer Flávio no segundo turno", disse Felipe Balassiano, chefe de Multimercados do ASA. Ele também destacou a perspectiva de alta na Bolsa, valorização do real e fechamento dos juros nominais e reais, com o mercado antecipando uma vitória do filho mais velho de Bolsonaro. "A reação será guiada pela expectativa de maior disciplina fiscal no próximo governo", emendou.
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a surpresa da vantagem do lado de Flávio e não de Lula, na contramão do que as pesquisas diziam, deixa o mercado mais animado a reagir positivamente, com valorização do real e queda dos juros futuros. "Os outros candidatos se desidrataram mais ainda e os indecisos se direcionaram para o Flávio e não para o Lula. Isso faz com que o mercado tenha uma ideia, de partida, que vai ser difícil para o Lula reverter isso ao longo das próximas semanas", disse. As chances maiores para o senador devem refletir em quedas no dólar e na curva de juros futuros até o segundo turno, em 25 de outubro.
Serão três semanas que, apesar de o resultado ainda não estar consolidado, no momento de partida, aumenta muito a probabilidade de Flávio ganhar a eleição", afirmou.
Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Way Investimentos, também reconheceu que a surpresa de um segundo turno com vantagem para Flávio vai fazer a Faria Lima soltar fogos, ainda mais com um Legislativo com os partidos de centro-direita em grande maioria. "Os institutos de pesquisa precisam rever suas metodologias, há muito erro, enormes diferenças, a exemplo no Rio de Janeiro", ressaltou.
"Vamos ter um mercado projetando com algo que seria acompanhado de inflação menor, juros menores, real mais valorizado e Bolsa mais valorizada", destacou Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, reforçando a expectativa otimista do mercado, hoje. Contudo, ele lembrou que o Brasil não é uma bolha e o cenário externo continua incerto. "Tem os EUA enviando um terceiro porta-aviões para o Oriente Médio e Europa acreditando em uma invasão russa nos países bálticos. O próximo ponto de atenção do mercado são as próximas pesquisas, se Flávio continuará à frente de Lula", disse.
Ajuste difícil
Diante da expectativa de euforia do mercado financeiro a partir de hoje, André Perfeito, economista-chefe da Garantia Capital, fez uma observação de que Flávio pode não conseguir fazer o ajuste fiscal esperado pelo mercado. "Esse raciocínio do mercado é profundamente equivocado e pode contratar uma recessão forte, se Flávio entrar e fazer um ajuste que derrube a demanda agregada, e, consequentemente, derrube a margem de lucro do empresariado", alertou. Além disso, lembrou que, em um cenário de um Congresso Nacional mais de direita, também será difícil para Flávio conseguir fazer o ajuste fiscal, "porque o Centrão não gosta de cortes".
Perfeito destacou que um ajuste fiscal deve ser complicado para os dois candidatos, porque a economia está desacelerando e o custo da mão de obra subiu devido às baixas taxas de desemprego. "Numa situação como essa, a margem de lucro das empresas já está reduzida, e, com os juros elevados, os riscos de um cenário recessivo após um ajuste muito duro é certo", alertou."Mas Lula não vai conseguir expandir muito os gastos, porque a oposição vai ficar reprimindo ou negando toda hora", emendou.
Na contramão do mercado, que costuma seguir mais a linha ortodoxa, o economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Gonzaga Belluzzo, tradicional heterodoxo, defendeu que a economia se movimenta a partir de gastos privados e públicos, mas reconheceu a necessidade de parcimônia no gasto. "O gasto é que cria a renda. Quando você consome algo, isso é a renda da loja. Ao mesmo tempo, a loja vai demandar aos fornecedores de outras pessoas. Essa questão elementar é completamente desconsiderada pelo pensamento conservador. Então, não é para o governo sair gastando adoidado. É para ele planejar o gasto e escolher os projetos mais compatíveis com o crescimento da economia", afirmou. Ele lembrou que Lula entregou superavit primário "em todos os anos do segundo mandato", quando a taxa de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) chegou a 22%.
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