Análise

Status quo ameaçado

A nova direita elegeu 131 deputados federais (121 do PL e 10 do Novo), e terá 31 senadores (PL, 28, 19 eleitos agora, e Novo, 3). A disputa pela pauta legislativa prenuncia ser acirrada

O realinhamento das bancadas dos partidos do Centrão nesta semana com o fim de manter o comando da Câmara e do Senado, representado por dois parlamentares inexpressivos, é o evento determinante para o cenário político, econômico e social de 2027. Tal arranjo faz da corrida presidencial uma competição para a escolha do coadjuvante na relação de força entre os três poderes constitucionais.


A votação em ritmo acelerado da emenda à Constituição, que impõe o regime de cinco dias de trabalho com dois de folga, além da anistia das dívidas federais dos MEIs, adicionada à doação de R$ 5 mil por CNPJ, e as promessas de extensão da bolsa em dinheiro a todos os universitários e o início da gratuidade das tarifas de transporte urbano, já fizeram parte desse arranjo. Esse conjunto exige explicações sobre custos, financiamento e compatibilidade com a responsabilidade fiscal. Mas quem está se importando?

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Para a imprensa, Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre (União-AP), presidentedo Senado, deram demonstrações de força. Para os observadores pragmáticos, a turma do "orçamento secreto" e do dinheiro extraído da lei orçamentária para divisão no escurinho entre deputados e senadores, vulgo emenda, mostrou a Lula e a Flávio Bolsonaro quem tem a força.


O arranjo inclui a proteção aos figurões das cortes beneficiados pela dinheirama de fraudes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e pelos favores sexuais que ele patrocinava. É uma frente ampla, expressão que outrora designava coligações políticas pelo bem do país, para manter o status quo das sombras a despeito da opinião do eleitor.


Alcolumbre e Motta são figuras menores na política, derrotados, além disso, em seus estados. O pai de Motta não se elegeu senador na Paraíba. No Amapá, Alcolumbre perdeu o governo do estado e as duas vagas no Senado. Por que, então, estão empoderados pelos chefes dos partidos de centro-direita, entre os quais União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e a federação PSDB-Cidadania? Exatamente porque são políticos menores.


Ambos garantem que o esquema suspeito de distribuição de emendas será mantido, independentemente do presidente da República eleito, além, no caso do Senado, de blindar ministros da alcova de Vorcaro que a maioria de direita do PL e do Partido Novo quer impichar.


A nova direita elegeu 131 deputados federais (121 do PL e 10 do Novo), que representam 25,5% da Câmara. E terá 31 senadores (PL, 28, 19 eleitos agora, e Novo, 3), correspondendo a 38% do Senado. A disputa pela pauta legislativa prenuncia ser acirrada.


Qual a jogada do Centrão, antecipando a promessa de controle das Mesas das duas Casas nas mãos de dois políticos inexpressivos, de estados sem expressão eleitoral e econômica? A mesma que os elegeu no início do Lula 3, com votos da esquerda: manter o orçamento da União entre uns poucos caciques e lobbies de grupos dependentes do Estado, cedendo algumas migalhas ao presidente da vez.


Como o PL chega empoderado pelas suas bancadas, as maiores desde a redemocratização, com uma raposa política à frente, Valdemar Costa Neto, a intenção é trazê-lo ao balaio do Centrão, do qual sempre foi sócio executivo, pondo canga nos eleitos mais ideológicos desse campo: Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Marcel van Hattem, Deltan Dallagnol, Nikolas Ferreira, Pavanato etc. Tais arranjos da parte mercantilizada da política, associados aos projetos eleitoreiros aprovados este ano, tornam o ajuste fiscal a prioridade a ser discutida já agora, na tramitação da LOA, a Lei Orçamentária de 2027. Como está proposta, a LOA é peça de ficção.


Se o ajuste para tornar factível a LOA de 2027 for pela despesa, o que parece cada vez menos provável, só se a "nova direita" se acertar com Valdemar, e seus equivalentes nos partidos do centrão se rebelarem contra as chefias do "orçamento secreto".


Se for por aumento de impostos, essa facção provavelmente negará votos. E todos, em uníssono, vão estar contra os juros altos e o Banco Central, enquanto se projeta para o próximo semestre a maior onda de recuperações judiciais (RJ) e extrajudiciais da história.


E o presidente eleito ou reeleito? Sem apoio político, não terá lugar de fala, ainda mais com o STF ameaçado. E a imprensa? Vai reverberar a gritaria da Faria Lima. E a esquerda? Vai continuar perdendo espaço na sociedade, mesmo que Lula se reeleja, segundo brilhante ensaio "Tempos Sombrios. Bolsonarismo e a sobrevivência do PT", do economista Leonardo Burlamaqui, da UERJ e UFRJ.


Tem o empresariado, com o agro e a sua bancada multipartidária na linha de frente. Se as partes tiverem visão, fazendo-se influir na montagem do novo governo e na pauta parlamentar, a expectativa é de moderação e progresso. Essa é uma linha bastante provável tanto com Lula quanto com Bolsonaro filho, já que a complexidade do que se apresenta supera a capacidade intelectual de ambos os grupos.


Antecipo um cenário à luz de contatos com os estrategistas de grandes fundos internacionais enviados ao Brasil nos últimos dias: o capital estrangeiro atraído pelo que importa à nova geoeconomia vai continuar chegando, possivelmente em volume muito maior que o histórico. Só que guiado pelos seus interesses, não os do país.


Nenhuma das grandes potências com olhos postos aqui (China, EUA, Rússia, Alemanha, França) conhece integralmente o país. Mas cada uma integra com eficiência a parcela necessária a seus objetivos. A nossa vulnerabilidade não decorre da onisciência alheia, mas da desarticulação do nosso próprio conhecimento. E voltamos ao início. Em que contribuem para o desenvolvimento os movimentos do centrão visando manter laçado o parlamento? O que os aspirantes a governante mostram de compreensão e capacidade de gerir o jogo sofisticado da geoeconomia? A eleição não respondeu a essas perguntas, ao contrário: tem mostrado desprezo por qualquer concepção de governança inteligente. Mas já é jogo jogado?


Ainda nem começou. A força do centrão no Congresso terá desta vez a oposição da direita cuja representação parlamentar se agigantou, e há também o papel dos governadores dessa mesma linha eleitos sem depender das bases eleitorais dos partidos mercenários. A política está mudando. Partidos sem linha programática, formados para embolsar emendas e trocar apoio ao governante da vez pelo controle da CVM ou da Caixa e Codevasf da vida, tenderão ao ostracismo. Isso vale para todos, inclusive para o próximo governante. Com a velocidade das redes sociais, o prazo para a nova legislatura e o novo governo se mostrarem eficazes será curto, talvez seis meses, se tanto. A paciência está por um fio no mundo todo.



 


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AM
postado em 17/10/2026 23:26 / atualizado em 18/10/2026 03:55
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