
Como esperado, um dia após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com vantagem de 4,4 milhões de votos no segundo turno das eleições gerais sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), o mercado financeiro operou, ontem, no modo pânico. A Bolsa chegou a desabar mais de 17%, e, por volta das 10h, foi preciso acionar o botão do circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia da covid-19. O dólar voltou a subir e registrou a terceira maior alta diária desde o início do Plano Real, em 1994, e os juros futuros dispararam para 15% ao ano, obrigando o Tesouro Nacional a intervir no mercado de títulos públicos.
Após a retomada do pregão da Bolsa, por volta das 10h35, o Índice Bovespa (IBovespa), principal indicador do B3, reduziu as perdas e oscilou menos, encerrado o dia aos 176.068 pontos, com queda de 13,88% - o quinto maior tombo desde o Plano Real, em 1994. As empresas listadas na B3 chegaram a perder R$ 734 bilhões em valor de mercado em um uníco dia.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Esse resultado reflete a frustração dos especuladores da Bolsa, que focam no day trade e buscam ganhos de curto prazo, pois torciam para a vitória do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por acreditar que o senador faria um ajuste fiscal maior do que o do petista. Com isso, após o resultado do primeiro turno, quando Flávio ficou à frente de Lula por 2,2 milhões de votos, a B3 bateu recorde histórico em 5 de outubro, em 5 de outubro, ao ultrapassar os 209,6 mil pontos no primeiro dia após o resultado das urnas.
Nome de peso
O principal argumento para esse tombo é a falta de um ajuste fiscal da atual nova equipe econômica que Lula está começando a montar. Como a vitória do presidente não dependendo apenas do partido, mas de um grande número de eleitores que não são petistas e esperam uma agenda progressista com responsabilidade fiscal, uma vez que, sem isso, não haverá espaço no Orçamento para o pacote de "bondades" que Lula anunciou, como reajuste no Bolsa Família, Pé de Meia para universitários, novas edições do programa renegociação de dívidas, o Desenrola, podem gerar um rombo de R$ 300 bilhões se não houver receitas correspondentes.
Para a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington, esse tombo da B3 reflete apostas equivocadas dos operadores do mercado, que agora amargam prejuízos, que estão agindo com imaturidade, sem dar um tempo para o presidente Lula anunciar algum nome de peso, mas com perfil técnico e que possa ser respeitado pelo mercado e pelo chefe do Executivo para realizar medidas que serão necessárias para evitar um colapso nas contas públicas e comprometer as promessas de campanha no lado social. E, como o presidente avisou a equipe que só escolheria os nomes depois da vitória, a escolha para os cargos-chave ainda deve demorar alguns dias.
"O presidente Lula precisa ter uma novidade para injetar confiança junto não apenas ao mercado mas aos investidores. Ele precisa sinalizar que vai buscar o centro e o consenso entre os aliados que o apoiaram para a vitória do terceiro mandato e a reeleição. E, nesse sentido, o mercado precisa amadurecer. Tem muita garotada fazendo firula", afirmou ela, acrescentando que o país não está quebrado. "É preciso dar um espaço para o governo fazer o trabalho agora e, para isso, é preciso respirar", afirmou.
André Perfeito, economista-chefe da Garantia Capital, também não vê motivos para o mercado acreditar que o país está quebrando para a queda de ontem nas B3, mas também reconhece que o nome para chefiar os ministérios da Fazenda e do Planejamento e Orçamento precisam ser respeitados pelo mercado. "O mundo não vai acabar. Tem muito ruído porque os especuladores apostaram contra o governo e agora haverá a correção e a Bolsa deve voltar ao que estava antes do início do movimento", disse. Ele reconheceu, contudo, que há muitos gastos que Lula anunciou durante o segundo turno que não cabem no Orçamento de 2027.
Mônica de Bolle também criticou os especuladores que estão frustrados com o resultado das urnas. "O povo resolveu apostar num cavalo manco que era o Flávio Bolsonaro até a última sexta-feira apostando que o candidato iria ganhar. Agora, há um movimento de correção, de toda maneira, porque o senador era um balão de ensaio", afirmou. Para ela, a equipe econômica de Flávio vinha perdendo credibilidade porque prometia medidas de ajuste duro de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões de corte. E, ao mesmo tempo, o candidato fazia promessas parecidas com as de Lula e que poderiam gerar um rombo fiscal superior a R$ 500 bilhões, considerando estimativas conservadoras da economista. "O mercado é assim. Uns ganham e outros perdem", afirmou ela, referindo-se aos especuladores, que apostam no cassino do pregão diário.
O mercado financeiro, principalmente os investidores de longo prazo e que apostam no país, aguardam nomes de peso para a equipe econômica. O vice-presidente Geraldo Alckmin é um dos nomes cotados para substituir o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que evitou dar declarações, ontem, depois de uma entrevista ao jornal o Globo, não surtir efeito após o Tesouro Nacional ser obrigado a intervir no mercado recomprando cerca de R$ 7 bilhões de títulos públicos.
Durigan assumiu a pasta após a saída do ministro Fernando Haddad para concorrer ao governo estadual de São Paulo, sem sucesso. Na entrevista, disse que a equipe deve promover mudanças até mesmo na Constituição para buscar o centro da meta fiscal ainda neste ano — algo que não ocorre desde o início do atual governo, que só cumpre o arcabouço fiscal de forma contábil fazendo descontos de despesas, o que não impede a disparada na dívida pública bruta, que alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), em agosto.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, lembrou que essa incerteza na indefinição da nova equipe econômica ainda pode se estender e, por isso, o mercado pode continuar tenso enquanto o governo não sinalizar medidas estruturantes e que melhorem as perspectivas do mercado para a economia. "Ninguém sabe dizer e justamente esse é o ponto. Quando o mercado financeiro sente dificuldade em desenhar projeções, os preços perdem referência e pioram muito. E agora, vale mencionar que as falas do ministro Dario Durigan não tiveram efeitos no mercado, o que também é um sinal ruim", afirmou.
Por meio de nota, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) pediu urgência nas reformas estruturais para que a indústria nacional volte a crescer, trazendo desenvolvimento para toda a sociedade. "A federação defende a continuidade na queda da taxa de juros, mas para que essa trajetória seja sustentável, no entanto, é imprescindível avançar com firmeza no equilíbrio das contas públicas. Apenas a consolidação fiscal será capaz de reduzir os prêmios de risco de longo prazo, destravar os investimentos privados e fortalecer a produtividade e a competitividade da indústria brasileira, viabilizando um crescimento duradouro, com inflação sob controle e juros baixos", destacou a nota defendendo medidas que permitam que a indústria possa voltem a investir no país.
Menos uma Petrobras
Conforme levantamento feito por Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta, a perda em valor de mercado das ações da B3 responde a quase uma Petrobras, que é de R$ 746 bilhões. "Isso significa que a Bolsa brasileira perdeu, em um único dia, o equivalente a 98,4% do valor de mercado da Petrobras", afirmou.
As maiores quedas da B3 foram de empresas de vários setores, como varejo e infraestrutura, cujas ações chegaram a encerrar o pregão de ontem com quedas superiores a 60%, com as da Lojas Quero-Quero SA (-65,93%), da Simpar SA (-64,86%) e da EcoRodovias SA (-60,53%). Na contramão, empresas exportadoras e incorporadoras encerram o dia no azul, como Suzano SA, alta acima de 10%, Tecnisa SA (8,97%), Embraer( 8,89%), Vale ( 4,01%) e WEG ( 4,21%).
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular?
De acordo com Rivero, entre 1994 e 2020 as maiores quedas do mercado brasilerio de ações tiveram a influência de acontecimentos externos sobre o mercado acionário brasileiro. A maior perda da amostra foi registrada em 10 de setembro de 1998, quando o principal índice da Bolsa brasileira recuou 15,83%, em meio à crise financeira russa e à fuga de capitais dos mercados emergentes. A segunda maior queda ocorreu em 27 de outubro de 1997, com desvalorização de 14,98%, durante a crise asiática. A pandemia de covid-19 concentra quatro das 10 maiores quedas nesse período.
Saiba Mais
Economia
Economia
Economia
Economia
Economia