Eleições 2026

Analistas criticam falta de propostas econômicas de Lula e Flávio para o longo prazo

Falta de debate mais amplo para discutir os grandes desafios da economia brasileira é lamentada por especialistas, que alertam sobre os vários riscos e entraves para o crescimento sustentável

Promessas dos dois candidatos ampliam os gastos e exigirão ajustes no orçamento para conter o avanço da dívida pública bruta -  (crédito: Ricardo Stuckert/PR-Minervino Júnior/CB-Montagem: Gemini)
Promessas dos dois candidatos ampliam os gastos e exigirão ajustes no orçamento para conter o avanço da dívida pública bruta - (crédito: Ricardo Stuckert/PR-Minervino Júnior/CB-Montagem: Gemini)

O segundo turno das eleições presidenciais, neste domingo (25/10), apresenta uma disputa bastante acirrada entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Analistas reconhecem que as propostas dos dois candidatos não são a solução para os reais problemas do país e, por conta disso, lamentam a falta de debates mais construtivos na economia, com a sugestão de planos construtivos e de longo prazo para tirar o país da eterna armadilha da renda média baixa.  

Ao mesmo tempo, especialistas avaliam que as promessas de aumento de gastos, diante da carga tributária recorde de 32,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e do comprometimento de 92% das despesas primárias com gastos obrigatórios, limitam o espaço para novas despesas sem cortes no orçamento. Nesse cenário, um ajuste fiscal em 2027 será inevitável para qualquer um dos candidatos, que aparecem tecnicamente empatados nas pesquisas eleitorais.

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As propostas econômicas de Lula e Flávio partem de visões distintas, mas se aproximam na reta final da corrida eleitoral, com promessas que implicam aumento de gastos. O programa petista tem perfil mais desenvolvimentista e defende a atuação do Estado para estimular a economia, enquanto o do filho mais velho do ex- presidente Jair Bolsonaro (PL) busca retomar o discurso liberal-conservador, com a promessa de reduzir pelo menos dez ministérios, dar um "tesouraço" nos impostos e cortar de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões em despesas, sem detalhar como. 

No entanto, as promessas dos dois candidatos ampliam os gastos e exigirão ajustes no orçamento para conter o avanço da dívida pública bruta, atualmente em 82,9% do PIB. No caso de Lula, o reajuste de 15% do Bolsa Família, os subsídios e o relançamento do Desenrola 3.0, para renegociação de dívidas, integram a conta que, segundo estimativas dos economistas Marcos Lisboa e Marcos Mendes em artigo recente, "já está perto de R$ 300 bilhões".

Flávio, por sua vez, propõe retomar o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) e a desoneração da folha de pagamentos, além de criar o Vira Pix, congelar dívidas e ampliar programas de apoio setorial. Segundo estimativas preliminares da economista Monica de Bolle, pesquisadora senior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), as medidas podem custar de R$ 460 bilhões a R$ 545 bilhões apenas em 2027.

"Isso representa de 3,5% a 4% do PIB e tem potencial de elevar a dívida pública bruta projetada pela Instituição Fiscal Independente (IFI) para o fim deste ano, de 86,4% do PIB, para 90% do PIB", alertou.

propostas lula bolsonaro
propostas lula bolsonaro (foto: pacifico)

Ao comparar os dois programas, o economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, fez alerta em relação a esse fato que ele considera "inevitável". "O presidente Lula optou por medidas expansionistas e isso precisará ser equacionado no Orçamento de 2027. O senador Bolsonaro, por sua vez, tem prometido a volta do Perse, um programa custoso e datado, além de outros terrenos na Lua, como o perdão generalizado de dívidas, sem maiores explicações."

"Sendo assim, o que restará, no após eleições, é, independentemente de quem se eleja, voltar as atenções à concepção de um programa de ajuste fiscal gradual, resolvendo o Orçamento do ano que vem e sinalizando para a recuperação do superavit primário. É a realidade. E ela se impõe", disse Salto.

Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e pesquisador no Policy Center for the New South, em Washington, por sua vez, disse que está entre os economistas céticos quanto à suficiência e probabilidade de sucesso das propostas dos dois candidatos.  "Ambos os programas reconhecem que algo terá de ser feito para alterar a trajetória fiscal, hoje, de endividamento público já alto e crescente.  Mas os dois candidatos apresentam caminhos distintos", ponderou. 

Lula promete manter o atual arcabouço fiscal, com mudanças no ritmo, mas deixou para depois das eleições os detalhes de um pacote que envolve gastos obrigatórios, benefícios sociais, isenções fiscais e modernização do Estado, destacou Canuto.

Flávio, por sua vez, promete economizar R$ 200 bilhões com a extinção de ministérios e a monetização de imóveis federais, sem cortar gastos sociais. No entanto, seus assessores pretendem reverter aumentos de impostos da gestão Haddad e reduzir a alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), medidas que podem diminuir a arrecadação e ampliar o deficit público.

Desafios

Durante a campanha, Flávio mudou o discurso e passou a apoiar pautas que antes combatia, como o fim da escala 6x1 e a tarifa zero no transporte público, proposta pelo atual governo. Lula, por sua vez, foi questionado nos debates sobre a situação fiscal e o aumento da dívida pública.

Especialistas ouvidos pelo Correio apontaram desafios para o vencedor das eleições, entre eles retomar o crescimento sustentável da economia, que vem desacelerando, e reduzir a relação dívida-PIB, que deve encerrar o ano em cerca de 86%, patamar próximo ao da pandemia de covid-19.

O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero lamentou a falta de debate sobre como elevar a taxa de investimento, hoje abaixo de 17% do PIB, ante cerca de 25% na média da América Latina e mais de 30% nos países asiáticos. "Infelizmente, a campanha eleitoral não foi capaz de gerar um debate entre os candidatos sobre a maneira de enfrentar o desafio. Apesar disso, o governo Lula tem melhores condições de enfrentar tais questões a partir de 2027", acrescentou. 

O economista Paulo Tafner, diretor-presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), criticou mais o programa de Lula do que o de Flávio, mas avaliou que as promessas de ambos serão difíceis de cumprir e que, portanto, "o estelionato eleitoral será inevitável".

Defensor de uma ampla reforma tributária para evitar o colapso do sistema, que, segundo ele, estava previsto para ocorrer a partir de 2024, Tafner também criticou o arcabouço fiscal do governo, que chamou de "calabouço fiscal". "Há um monte de despesa fora desse limite, que é uma vergonha e tudo deveria estar dentro da conta", afirmou.

Para Luccas Saqueto, mestre em economia política pela PUC-SP, a principal diferença entre os candidatos está no papel do Estado e no ritmo do ajuste fiscal. "Lula defende a continuidade do arcabouço fiscal, dos programas sociais e dos investimentos públicos, enquanto Flávio Bolsonaro propõe um ajuste mais intenso das despesas, com redução da estrutura administrativa, revisão de gastos e mudanças nas regras fiscais", destacou.

Segundo o economista, Lula precisará demonstrar que o modelo atual estabiliza a dívida, controla despesas e amplia os investimentos. Flávio terá de detalhar o "tesouraço", estimando a economia sem comprometer serviços essenciais. Ambos precisarão compatibilizar eventuais cortes de impostos com as metas fiscais. "A questão central será conciliar sustentabilidade fiscal com condições para a expansão da atividade econômica", acrescentou.

O professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo, diz que a eleição é "muito peculiar", pela ausência de debates sobre metas de longo prazo. "Não tivemos a oportunidade de ver nenhuma exposição dos programas de governo dos candidatos, porque isso foi abafado", afirmou. Aos 83 anos, ele compara o cenário aos governos de Juscelino Kubitschek, que elaborou o Plano de Metas, e de Ernesto Geisel, que lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND). "Agora, isso tudo acabou."

Desenvolvimentista, Belluzzo criticou os defensores do ajuste fiscal, que, segundo ele, buscam limitar a atuação do Estado. "A ideia de equilíbrio é uma coisa terrível, porque a economia tem movimento. Ela não tem equilíbrio. Tem subidas e descidas", afirmou. Ele também alertou que cortes nos gastos na dimensão prometida por Flávio podem provocar uma recessão profunda, como a de 2015 e 2016, após os cortes promovidos pelo então ministro da Fazenda Joaquim Levy, no governo Dilma Rousseff.

Inflação x Selic 

Analistas apontam que o novo governo terá de conter as pressões inflacionárias, agravadas pelos conflitos no Oriente Médio e na Europa. A projeção do mercado para a inflação deste ano supera 5%, acima do teto da meta, de 4,5%, o que mantém os juros em patamar restritivo e limita a atividade econômica.

Não à toa, a taxa básica de juros (Selic), de 13,75% ao ano, é uma das mais altas do mundo. O economista-chefe da Ecoagro, Antônio da Luz, destacou que os juros estão acima de dois dígitos há 56 meses, sem que o tema tenha sido debatido na campanha.

Para Luz, a solução não passa por um "tesouraço" na máquina pública, como propõe principalmente Flávio, mas por estabilizar as contas, fazendo as despesas crescerem menos que as receitas. A medida reduziria relação dívida-PIB, reforçaria a confiança e aliviaria os custos dos juros para o governo e os consumidores.

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postado em 25/10/2026 04:00
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