W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA

Bancas de jornal resistem na W3 e quiosques se reinventam

Mudanças nos hábitos de consumo e no movimento da avenida fizeram com que as tradicionais bancas abandonassem o formato antigo

Quem passa pela W3 há mais tempo percebe que algo mudou nos espaços entre um bloco de lojas e outro. Ora vazios, ora ocupados por lanchonetes e comércios que compõem a paisagem urbana, eles pouco se parecem com o que um dia foram. Antes, a regra era abrigarem bancas de jornal e revista. Na Asa Sul, ainda há duas que mantêm o formato original. 

Criada no ano de inauguração da cidade, em 1960, a Banca Fortaleza, da 511 Sul, é um dos estabelecimentos mais antigos da avenida. “Sempre tivemos esse modelo de sebo. Jornal, livros, revistas, discos e gibis”, elenca Carlos Araújo, que assumiu a banca após a morte do pai, Antônio Ferreira de Araújo, em 2013.

A banca, que já foi personagem de outras reportagens do Correio, é decorada com pilhas e mais pilhas de revistas e livros antigos. Nas paredes e no teto, cartazes de filmes e capas de discos de vinil. O negócio, segundo Carlos, sempre foi a coluna de sustentação da família. “Aqui era um grande formigueiro e os filhos ajudavam meu pai”, lembra, ao lado de um retrato de Juscelino Kubitschek. “Meu pai gostava dele.” 

O comércio lembra a era de ouro da W3 Sul, aquela citada por inúmeros entrevistados, onde, em vez de shoppings centers, o comércio pulsava na principal avenida de Brasília. 

Na quadra seguinte, 512 Sul, a Banca Papil ou Sebo do Romeu é administrada por um sorridente ex-funcionário da Banca Fortaleza. Romeu Soares é o dono do estabelecimento desde 2006, ano em que decidiu ter a própria banca de revistas. “Ainda vou colocar a placa com o nome: Sebo do Romeu”, explica sobre o letreiro antigo na fachada.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -

Mineiro que chegou ainda criança à capital federal, Romeu afirma que os livros de filosofia e romances são os mais vendidos na banca. “A clientela gosta do livro físico”, garante. O Sebo do Romeu também conta com um grande acervo de revistas e livros.

Nas duas únicas bancas de revista da avenida, o termo “resistir” aparece na fala de ambos os lojistas. “Aqui deu muito dinheiro, por isso até hoje estamos aí. Agora, é na resistência, né?”, destaca Carlos. Romeu também confirma que o caso é de amor antigo pelo negócio e pela avenida. “Fui ficando aqui, gosto de estar com o público. A gente foi resistindo e estou aqui na luta”, comenta, com bom humor. 

Em um cenário onde nem livrarias famosas resistiram às mudanças de hábito dos leitores, as bancas de revista da W3 também sentiram o impacto, somado ao baixo movimento de pessoas fora dos horários de pico. 

O Correio chegou a mapear 11 estabelecimentos deste tipo fechados nas Asas Sul e Norte. Além da Fortaleza e do Sebo do Romeu na W3 Sul, há mais três bancas de revistas na W3 Norte, trabalhando com revistas de variedades, quadrinhos e palavras cruzadas. Ambas também funcionam como lanchonetes. 

Em alguns desses espaços, sobretudo na Asa Sul, as bancas dão lugar a pichações e a obras abandonadas, sem incentivos ou condições claras do que é necessário para ocupar esses estabelecimentos. 

Páginas de lembranças

No meio dos incontáveis itens do sebo, Carlos Araújo lembra com carinho da infância nos primeiros anos da Banca Fortaleza. “Eu dormia embaixo do balcão”, conta. “Meu pai me trazia cedo e eu mesmo saía vendendo os jornais. ‘Olha aí, o Correio Braziliense de hoje’”, imita o grito dos jornaleiros que passavam nas quadras. 

O livreiro também lembra de momentos históricos da W3 Sul. “O carnaval de rua passava aqui, a São Silvestre, também. Tinha altos campeonatos de skate nos estacionamentos da W3”, diz. “Você tinha que tomar cuidado para não esbarrar em outra pessoa, era uma multidão de gente. O pessoal maravilhado, chegando de outros estados. ‘Essa é a W3?’”

Para Romeu, o intenso movimento da avenida também ficou marcado na memória. “Todas as quadras tinham duas bancas de revista, cada. E todas as duas funcionavam”, lembra. “Nesta quadra tinha um bar famosíssimo chamado Paisano, que ficava aberto 24 horas. Era bom demais, com muitos restaurantes bons também.”

Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
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Permanência

Mesmo com o movimento consideravelmente inferior aos tempos áureos da avenida, nem Carlos nem Romeu planejam fechar as portas. “Acostumei, aqui é bom. Tem esse papo gostoso com o cliente, a gente aprende muito, sabe?”, declara Romeu, apontando que a banca também faz papel de posto de informação para cidadãos perdidos.

A Banca Fortaleza, a depender de Carlos, também continuará ocupando o mesmo lugar da inauguração de Brasília. “Eu só vivo dessa banca. É o meu ganha pão. Se ela faltasse…” “Ainda bem que tem pessoas que gostam de ler fora do celular e do computador. A gente vai vivendo um dia de cada vez, dá pra ir em frente”, garante.

Perguntado se o estabelecimento já recebeu algum cliente ilustre nestes 66 anos de história, Carlos tenta puxar de memória. “Meu pai disse que uma vez o vice do Juscelino, João Goulart, já veio aqui com a esposa, procurando um dentista. Ele era sorridente, segundo meu pai — mas ele gostava mesmo era do Juscelino.”

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