W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA

Zero km ou renovado? W3 segue referência no setor automotivo

Antes endereço de centenas de oficinas, a avenida passou por reformulação na destinação dos imóveis, mas segue como um dos pontos da cidade com serviços diversos para quem tem carro

A W3 é um lugar onde se encontra de tudo: bares, mercados, salões de beleza e lojas de variedades. Essa característica, rara para uma cidade setorizada como Brasília, é um dos fatores que torna a via tão especial. Apesar dessa variedade, a W3 Norte é popularmente conhecida por um tipo de estabelecimento: as oficinas. 

Mas como essa aglomeração de martelinhos de ouro, consertos em geral, lojas de auto-peças e outros negócios do ramo automotivo se espalharam pela via? E como essa singularidade ajuda a contar a história do DF?

Construída na década de 1970, a parte Norte da W3 surgiu depois e de uma forma menos glamourosa que a Sul. O historiador e servidor da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) José Alberto Barros conta que a construção da parte Sul do Plano Piloto antes da Norte foi uma decisão estratégica.

“Tem muita gente que se pergunta por que a W3 Sul veio primeiro. Para isso, precisamos entender um pouco de geografia também: a estrada que vinha de Anápolis e que ia para Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, passava ali”, conta. “E onde tinha água abundante era do lado Sul do quadrilátero, por isso, a Novacap se estabeleceu na Candangolândia, que foi a primeira sede da empresa”, recorda-se.

Com o aumento do fluxo de trabalhadores vindos das regiões Norte e Nordeste, a W3 Norte se tornou estratégica. À época, simbolizava a única saída para as rodovias que levavam aos estados mais ao Norte do país. 

Devido à característica viária, acabou por abrigar um comércio mais voltado para os serviços, diferentemente da vizinha ao Sul, ponto de encontro dos brasilienses e de turistas que visitavam a nova capital do Brasil. Essa utilização já era algo previsto no Plano Piloto de Lucio Costa, que pensava a W3 como uma avenida voltada para o transporte de mercadorias. 

Vizinhos incômodos

O mapeamento do Correio contabilizou  cerca de 60 empresas do ramo automotivo em toda a W3 Norte, entre lojas de acessórios, oficinas e concessionárias. Mas o número já foi bem maior. 

A história da vizinhança com as empresas do ramo automotivo foi permeada por embates, o que exigiu uma reconfiguração dos setores do DF. As primeiras a saírem foram as oficinas. Embora as quadras 700 tenham forte presença de empresas de conserto de automóveis, não há estabelecimentos do ramo de frente para a via, por exemplo.

Matérias do acervo do Correio mostram relatos de frustração desde a década de 1980. Em 1989, um dos textos publicados destaca que o governo tentou mitigar o problema com a criação do Setor de Oficinas Sul, mas, quatro anos após a inauguração, mais de 200 oficinas clandestinas já haviam se instalado na Asa Norte.

Essa saga persistiu até meados da década de 1990. Entre as queixas, estavam o barulho, a poluição e o cheiro de tinta e de óleo que se espalhava pelas ruas. A solução foi a criação do Setor de Oficinas Norte (SOF) Norte, com 200 lotes e incentivos do Governo do DF. 

Nos anos 2000, foi a vez das concessionárias. Segundo levantamento publicado em edição do jornal em 2002, havia 120 revendedoras de automóveis, com uma frota de cerca de 10 mil veículos. As empresas eram alvo de reclamações dos moradores, que se queixavam da lotação dos estacionamentos das quadras por essas empresas. 

Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -

As que resistiram

O empresário Frederico dos Reis, um dos donos da Duauto, viveu essas transformações de perto. Ele trabalha na via desde a década de 1980, quando tinha 16 anos. 

“No fim dos anos 1970, início dos anos 1980, vieram para cá muitas pessoas dessa região do Norte de Minas, Paracatu, Unaí, Arinos, que eram mecânicos, e, como eles chegaram pelo lado Norte, era uma tendência parar por aqui”, conta. “A Asa Norte estava começando a crescer, próximo dos servidores públicos. Já existia muitos morando aqui nesses blocos.” 

Com a fama da via no ramo automotivo, Frederico procurou oportunidades pela Asa Norte e foi contratado pela Duauto, à época sob o comando de outro dono. Ele chegou a trabalhar ainda em outra loja de autopeças quando recebeu a proposta para ser dono do próprio empreendimento. 

“O proprietário estava muito doente, com a esposa em São Paulo, e a loja abandonada. Aí ele me ligou um dia perguntando se eu tinha interesse em comprar”, relata. “Eu comecei a rir no telefone: ‘Como é que eu vou comprar uma loja se eu não tenho dinheiro?’. Só que a loja estava muito abandonada, praticamente já não tinha mais peças. Ele falou: ‘Para você eu vendo fiado que eu sei que você paga’. Falei: ‘Aí eu compro, né’?”, diverte-se ao Frederico ao lembrar. Junto ao sócio, Márcio, ele assumiu a loja em 1995. “Éramos muito conhecidos como vendedores, então, quando viemos para cá, os clientes vieram junto”, relembra. 

Mas a história da loja contou com altos e baixos. Assim como outros comerciantes, os dois sofreram com as mudanças das permissões da W3 e o deslocamento das empresas para outros setores. Em 2002, as concessionárias e lojas de veículos que ocupavam as quadras 700 Norte foram obrigadas a se retirar da via com a inauguração da Cidade do Automóvel. O local, próximo ao Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), na Estrutural, se tornou o novo polo de concentração dessas empresas, o que mexeu com a economia da W3. 

“Perdemos quase tudo aquilo que construímos até 2010. Só restou a loja, e com muita dificuldade. Tivemos que recomeçar”, conta Frederico. “Primeiro, foi a saída das agências, e nós tínhamos muitos clientes aqui. Muitas dessas agências quebraram e foram embora devendo a gente.”

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - 16/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Caderno Aniversário de Brasília. W3 Norte poluição visual mas fachadas.

Planos para o futuro

Mesmo após as mudanças com o SOF e a Cidade do Automóvel, a W3 continuou consolidada como um polo para os donos de veículos, agora voltada a autopeças, lojas de acessórios e serviços de estética automotiva. Já as oficinas ficam viradas para a parte de trás, ou nas ruas entre as vias W3 e W4. 

Foi a localização que atraiu a empresária Rejane Lessa, proprietária da Lessa Martelinho de Ouro, há mais de 20 anos. “Eu tenho muitos clientes aqui na Asa Norte, pessoas que me acompanham há mais de 20 anos”, comenta. “E eu acho que aqui na avenida tem um fácil acesso, tanto para clientes que trabalham na Esplanada dos Ministérios, quanto nos hospitais. É bem localizado”, resume. A loja conta hoje com duas unidades na Asa Norte, na 703 e na 708. A última é mais recente, com três anos de inauguração. 

Junio Silva - Rejane Lessa, proprietária da Lessa Martelinho de Ouro, an 702 Norte

Os chamados martelinhos de ouro, comuns na W3, são oficinas voltadas somente para serviços de estética automotiva, como a funilaria artesanal — técnica que desamassar latarias de carros que usa um martelo (o que deu origem ao apelido). A empresa faz ainda serviços de lanternagem, pintura, hidratação de bancos de couro e aplicação de película nos vidros. 

“Eu sempre gostei muito de carro, gosto de ver o carro arrumadinho, sem nenhum detalhe, tanto interno quanto externo ‘É isso que eu quero para minha vida, é isso que eu vou fazer’, pensei”, conta Rejane. O amor pelo ramo automotivo passou para o filho da empresária, que cuida da unidade na 708. Mas não vai parar por aí. Para os próximos anos, o plano de Rejane é ampliar a marca pela Asa Norte junto ao filho e à nora. Sobre como manter um negócio por duas décadas em meio a tantas mudanças, ela é direta: “Comprometimento com o cliente e a qualidade do serviço”. 

Regulamentação

Problemas como infraestrutura e segurança, citados amplamente entre os moradores, são uma das preocupações. A empreendedora, no entanto, cita um ponto comum no ramo automotivo: a regulamentação dos “puxadinhos”. Na W3 Norte, as empresas de estética automotiva se instalam geralmente nos lotes que ficam nas pontas dos blocos comerciais e colocam uma espécie de telhado ou toldo na lateral do prédio, já que a calçada é o local onde os carros são deixados para o serviço. “Hoje, usamos um toldo de 10x10, porque não podemos fazer um telhado”, conta. 

A ocupação das áreas públicas adjacentes às lojas é regulamentada pelo Decreto 45.862/2024, que estabelece normas para a implantação de coberturas. De acordo com a medida, são permitidos “toldos horizontais retráteis ou cobertura leve removível nos limites de ocupação estabelecidos”.

Mais Lidas