Na W3 Sul, onde o movimento já foi tão intenso a ponto de ser difícil caminhar nas calçadas, um restaurante se mantém como quem guarda a própria memória da cidade. O Restaurante Roma completa 66 anos junto com Brasília, e, mais do que coincidência, a trajetória do negócio acompanha as transformações da capital desde os primeiros dias.
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Fundado em 1960 pelo italiano Luigi Brand, o restaurante mudou de mãos quatro anos depois, quando foi adquirido por Simon Pitel, um belga que chegou ao país atraído pela construção da nova capital. Antes de assumir o Roma, ele começou como camelô, vendendo relógios nas ruas, e aos poucos construiu seu caminho como empreendedor. “Ele veio junto com a construção de Brasília e foi crescendo com a cidade”, conta a filha, Angela Pitel.
Naquele período, a W3 não era apenas uma avenida: era o centro da vida urbana. “Era conhecida como um shopping a céu aberto”, lembra Angela. Em uma cidade ainda em formação, era ali que se encontrava tudo — de material de construção a roupas, de mercados a concessionárias. Mais do que isso, era o principal ponto de encontro dos moradores. “As pessoas saíam de casa para vir para a W3. Era o que tinha para fazer na cidade.”
No meio desse fluxo, o Roma encontrou seu lugar. Funcionando sem horário fixo, o restaurante acompanhava o ritmo da cidade. “A gente ficava aberto enquanto tivesse cliente. Às vezes até 4, 5 da manhã”, diz. Depois das festas, era um dos poucos lugares abertos, reunindo quem buscava encerrar a noite com uma refeição. Em dias de grande movimento, a cena beirava o improviso: durante um carnaval nos anos 1970, clientes se acomodaram até nas escadas, enquanto garçons serviam pratos de mão em mão.
Lugar cativo nos salões do Roma
A lembrança do garçom Manoel Leite da Silva, de 73 anos, reforça esse retrato. Ele começou a trabalhar no local em 1972 e viu de perto o auge da avenida. “A W3 era como se fosse um shopping. De tanta gente, era difícil até andar à noite”, conta. Segundo ele, a dinâmica urbana também era outra: “Era muita gente e pouco carro.”
Um dos aspectos que ajudam a entender a importância da W3 nos primeiros anos de Brasília é o papel da avenida como espaço de convivência cultural. Segundo Angela Pitel, foi ali que surgiram alguns dos primeiros movimentos de lazer da cidade. “A W3 começou um movimento de forró em Brasília”, conta.
A presença de trabalhadores vindos principalmente do Norte e Nordeste transformou a avenida em um ponto de encontro que ia além do comércio, reunindo música, dança e sociabilidade em uma capital ainda em formação.
Com o passar dos anos, no entanto, a lógica da cidade mudou, e a W3 perdeu protagonismo. A expansão de novos bairros, a chegada dos shoppings e os problemas de infraestrutura afastaram o público. “Hoje você vai para um lugar específico. Não é mais ‘vou dar uma passada na W3’”, observa Angela. Questões como dificuldade de estacionamento, iluminação precária e calçadas mal conservadas contribuíram para o esvaziamento gradual da via, segundo a empresária.
Ainda assim, o Roma permaneceu. “A gente se manteve na W3 apesar de todos os problemas”, afirma. Ao longo das décadas, o restaurante chegou a ter outras unidades, mas hoje apenas a matriz — a original — segue em funcionamento, como um ponto fixo em uma avenida que mudou ao redor.
A relação entre comerciantes da região também revela um traço que resiste ao tempo: o senso de comunidade. Mesmo diante das dificuldades, ainda há uma dinâmica de apoio entre os estabelecimentos. “Todo mundo se conhece, troca informação, ajuda”, diz Angela. Durante a pandemia, essa rede informal foi essencial para atravessar o período mais crítico. Descontos entre lojistas e a circulação entre negócios vizinhos ajudaram a manter parte da atividade em funcionamento em meio às restrições.
Mais do que resistência comercial, a permanência tem um significado afetivo. O sentimento se traduz nas mesas ocupadas por diferentes gerações. “Às vezes você vê quatro gerações juntas. Pessoas que vieram nos anos 1960, 1970, que conheceram seus parceiros aqui, tiveram filhos, e hoje trazem os netos.”
A continuidade também carrega desafios. Após a morte do pai, Angela assumiu o negócio e precisou equilibrar tradição e mudança. “Meu pai era o maestro. Ele sabia orquestrar tudo”, lembra. Ao mesmo tempo, ela entendeu que seria necessário adaptar o restaurante aos novos tempos, da gestão à tecnologia, do ambiente ao cardápio. “Não dá para não acompanhar. O consumo mudou, as pessoas estão buscando uma alimentação mais leve.”
As mudanças no comportamento do consumidor também passaram a impactar diretamente o funcionamento do restaurante, e ajudam a explicar transformações mais amplas no setor. Nos últimos anos, a busca por hábitos mais saudáveis alterou o perfil dos pedidos. “O consumo de chope caiu, e a água com gás aumentou bastante”, observa Angela.
A mudança, segundo ela, exige adaptação constante do cardápio, sem abrir mão da identidade construída ao longo de décadas. “A comida continua com o mesmo sabor”, garante. Ao mesmo tempo, mudanças discretas no espaço e no funcionamento ajudam a atrair um público que já não frequenta a W3 como antes.
Para Manoel, que atravessou décadas no salão, a ligação com o lugar vai além do trabalho. “Eu tô no lugar certinho que eu queria”, resume. “Eu adoro trabalhar com gente.” Assim como ele, outros funcionários construíram suas vidas ali, alguns, assim como Manoel, com mais tempo de casa do que a própria gestora tem de idade.
As portas como as do Roma continuam abertas, como se segurassem um pedaço do que a avenida já foi. Entre mesas cheias nos fins de semana, histórias que atravessam gerações e a rotina de quem nunca saiu dali, o restaurante segue fazendo o que sempre fez: dando motivo para se escolher passar pela W3.
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