Basquete

Troca de Doncic pode causar efeito dominó no mercado de negócios da NBA

Dallas Mavericks recebeu apenas uma escolha de draft ao mandar o astro esloveno para o Los Angeles Lakers, enquanto nos últimos anos o preço de uma estrela custava múltiplas seleções

Em 2017, o Paris Saint-Germain, impulsionado pelos rios de dinheiro dos sheiks do petróleo, "quebrou" o mercado do futebol ao desembolsar 222 milhões de euros (R$ 812 na cotação da época) para tirar Neymar do Barcelona. Desde então, o mundo da bola viu cifras cada vez maiores nas transferências de jogadores. No universo do basquete, algo semelhante aconteceu neste fim de semana, mas no sentido contrário. O Dallas Mavericks abriu mão do astro Luka Doncic para o Los Angeles Lakers em troca de Anthony Davis e apenas uma escolha de primeira rodada de draft, na contramão do que se tornou o normal na liga nos últimos anos.

Para entender o que aconteceu, é preciso, primeiro, voltar para 2022. Na ocasião, o Minnesota Timberwolves deu cinco seleções de draft, um jovem com potencial (Walker Kessler) e outros quatro atletas consolidados, tudo para tirar Rudy Gobert do Utah Jazz. Como na NBA as transferências não envolvem dinheiro, diferente do futebol, bons jogadores e capital de draft são fundamentais para as operações entre franquias, mas tudo tinha o devido valor, até essa mudança, quando apenas uma única peça custou tantos ativos. Ou seja, depois desta negociação, ficou muito mais caro conseguir uma estrela, e as picks se tornaram parte essencial para qualquer negócio.

Antes dessa movimentação, os pacotes costumavam ser formados por uma ou duas escolhas de draft, algum jovem talento e talvez nomes mais rodados, geralmente para equivaler os salários. Os exemplos são vários ao longo da última década.

 
 
 
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Um que vale a menção foi quando o Sacramento Kings mandou DeMarcus Cousins, um dos melhores pivôs da NBA, para o New Orleans Pelicans em 2017 por Buddy Hield, então com 25 anos, e uma seleção de primeira rodada. Outros nomes fizeram parte do acordo por ambos os lados, mas com pouca relevância. Um ano depois, Kawhi Leonard deixou o San Antonio Spurs ao lado de Danny Green para se juntar ao Toronto Raptors, que despachou DeMar DeRozan, Jakob Poeltl e uma pick de draft.

No entanto, o cenário recente é totalmente diferente. Virou comum ver times abdicarem anos de futuro por um craque. O Phoenix Suns deu cinco escolhas de primeira rodada, Mikal Bridges e Cam Johnson para ter Kevin Durant. O Cleveland Cavaliers cedeu o mesmo número, mais Lauri Markkanen e Collin Sexton, em troca de Donovan Mitchell. O Milwaukee Bucks mandou três e o excelente Jrue Holiday por Damian Lillard. Quando Paul George foi para o Los Angeles Clippers, o preço foi nada menos que sete escolhas e o jovem Shai Gilgeous-Alexander, hoje candidato a MVP.

Vendo esse recorte, parece loucura trocar Luka Doncic, reconhecido como um talento geracional e prestes a completar 26 anos, envolvendo apenas uma seleção de primeira rodada e nenhum talento jovem. É importante considerar o valor de Anthony Davis, um dos grandes nomes da NBA na última década, mas que faz 32 anos em março e é constantemente acompanhado de muitas lesões. Quando cada peça do acordo é analisada, fica mais fácil compreender o porquê da surpresa dos fãs de basquete com a negociação.

Com a aproximação da data limite para trocas, que só podem ser feitas até quinta-feira, resta saber qual será o efeito da negociação entre Lakers e Mavericks, se o custo por um craque seguirá inflacionado ou pode voltar ao que era antes. Talvez o primeiro reflexo disso tenha sido a ida de De'Aaron Fox para o Spurs. No domingo, horas depois do acordo por Doncic, o armador deixou o Kings por três escolhas de primeira rodada, três de segunda e Zach Lavine.

A troca

A manhã de domingo foi de surpresa para o fã do basquete, que acordou com a notícia da troca de Doncic para o Lakers. A franquia de Los Angeles recebeu a estrela, Maxi Kleber e Markieff Morris, enquanto Dallas ficou com Anthony Davis, Max Christie e uma escolha de draft. O Utah Jazz também participou e levou para casa Jalen Hood-Schifino e duas seleções de segunda rodada.

De acordo com o diretor dos Mavs, Nico Harrison, principal responsável pela troca, o negócio foi feito considerando o impacto de Davis como marcador. "Eu acredito que a defesa vence campeonatos. Eu acredito que ter um pivô do All-Defensive Team e um jogador All-NBA com uma mentalidade defensiva nos dará chances melhores. Estamos construindo um time para vencer agora e no futuro", explicou à ESPN.

Outro tópico que influenciou o movimento foi a aproximação da renovação contratual de Doncic. O esloveno estava apto para assinar o salário máximo da NBA, um vínculo de cinco anos de duração pela bagatela de US$ 345 milhões (R$ 2 bilhões, na cotação atual), cifras que assustavam a diretoria do Dallas, preocupada com os problemas físicos do jogador. Com a troca, o craque de 25 anos não é mais elegível ao contrato e pode fechar um acordo de no máximo US$ 229 milhões (R$ 1,3 bilhão). Além disso, ele ainda terá um impacto extra no bolso, pois os impostos na Califórnia são de 14,4%, enquanto no estado texano não há taxação.

Luka segue em recuperação de lesão na panturrilha, mas o Lakers projeta um retorno antes da semana do Jogo das Estrelas, marcado para 16 de fevereiro, em São Francisco.

A operação

Los Angeles recebe:

Luka Doncic (via DAL)
Maxi Kleber (via DAL)
Markieff Morris (via DAL)

Dallas recebe:

Anthony Davis (via LA)
Max Christie (via LA)
Escolha de 2029 (via LA)

Utah recebe:

Jalen Hood-Schufino (via LA)
Duas escolhas de segunda rodada de 2025 (via DAL e via LA)

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