Uma tempestade geopolítica irrompeu ontem nos Alpes italianos: o Comitê Olímpico Internacional (COI) desclassificou o atleta de skeleton Vladislav Heraskevych dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina por querer usar um capacete com imagens de atletas mortos durante o conflito com a Rússia. Ontem à tarde, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) confirmou em comunicado que recebeu um recurso de Heraskevich e que analisará o caso hoje para liberá-lo ou não à disputa por medalhas.
Em meio ao impasse, Kiev reagiu com indignação. "O movimento olímpico deveria contribuir para o fim das guerras, não fazer o jogo dos agressores. Infelizmente, a decisão do Comitê Olímpico Internacional de desclassificar o atleta ucraniano de skeleton Vladislav Heraskevych demonstra o contrário", escreveu o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, nas redes sociais.
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O ministro ucraniano das Relações Exteriores, Andriy Sibiga, afirmou que o COI estava manchando "a própria reputação" e que "as futuras gerações olharão para isso como um momento vergonhoso".
A notícia foi um choque para Milão-Cortina. Em comunicado, o COI afirmou que Heraskevych "não poderá participar" dos Jogos Olímpicos de Inverno "após se recusar a cumprir as diretrizes sobre a liberdade de expressão dos atletas".
Na terça-feira, foi sugerido ao ucraniano que ele utilizasse uma braçadeira preta e não o capacete com as imagens, como medida excepcional, mas o atleta rejeitou a proposta. "Nesta manhã, em sua chegada às instalações da competição, Heraskevych se reuniu com a presidente do COI, Kirsty Coventry, que explicou pela última vez a posição do COI. Como nas reuniões anteriores, ele se recusou a mudar sua postura", afirmou a entidade olímpica no comunicado.
"Eu não falei com ele como presidente. Falei com ele como atleta. Eu queria vê-lo antes de ele competir", contou Coventry, ex-nadadora olímpica, com a voz embargada pela emoção, após a conversa com Heraskevich.
Defesa
Em uma mensagem na rede social X, Heraskevych defendeu o ponto de vista. "Este é o preço da nossa dignidade", afirmou.
Mais tarde, na zona mista, ele continuou defendendo o capacete: "Eu não queria causar um escândalo, e esse escândalo surgiu porque algumas pessoas dentro do COI têm uma interpretação muito estranha de suas próprias regras, o que pode ser considerado uma forma de discriminação", criticou o atleta.
"Vladislav não largou na corrida, mas não está sozinho. Ele tem toda a Ucrânia com ele, e sempre terá. Quando um atleta defende a verdade, a honra e a memória, isso já é uma vitória. Uma vitória para Vladislav. Uma vitória para todo o país", disse o Comitê Olímpico Ucraniano em um comunicado.
O porta-bandeira da Ucrânia na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos participou na segunda-feira e na quarta-feira nos treinos com um "capacete memorial", segundo o termo utilizado por sua equipe, de cor cinza e com imagens serigrafadas de vários compatriotas falecidos na guerra.
Nas ruas de Kiev, a indignação era geral entre os habitantes da cidade. "Isso é injusto", disse Dmytro Yassenovsky, um homem de 41 anos. Ele ressaltou que, neste caso, não há nada além de fotos de pessoas que morreram. "Não há motivo para desclassificá-lo!", reclamou Oleksandr Severin, um engenheiro de telecomunicações de 30 anos. "Do que ele é culpado?", perguntou. "Estou orgulhoso do nosso atleta", declarou Illia Zakhar, um técnico de 39 anos que não escondeu a revolta contra o COI: "Que todos eles vão para o inferno!".
Neutralidade
Em coletiva de imprensa diária ontem, o porta-voz do COI insistiu que a organização queria que Heraskevych participasse. "Isso teria enviado uma mensagem muito forte. Para nós, não se trata da mensagem... trata-se do local. Não podemos aceitar que atletas sejam submetidos à pressão de seus líderes políticos", afirmou.
O COI tem uma norma de não permitir referências políticas durante competições e cerimônias de entrega de medalhas, de acordo com a Carta Olímpica.
