COPA DO MUNDO

O ciclo da Seleção: italiano Ancelotti insere a arte da defesa no Brasil

Como bom italiano inspirado por Baresi e Maldini, Carlo Ancelotti preza pela segurança e indica ter encontrado estabilidade após a Seleção Brasileira experimentar 12 zagueiros diferentes nas 35 partidas do ciclo para a Copa

Carlo Michelangelo Ancelotti é um bon vivant. As experiências pelos principais clubes de Itália, Inglaterra, França, Espanha e Alemanha contribuíram para moldar preferências sofisticadas. Aprecia boa gastronomia, como a do restaurante Mocellin, no Rio. Escuta Elton John, especialmente Rocket Man. Quando possível,
prende-se à telona para rever clássicos como O Poderoso Chefão e reserva tempo para admirar belas paisagens, entre elas a vista do Cristo Redentor e a da Montanha Grouse, em Vancouver. Claro, há também o apreço pelo futebol de alta classe.

Tantos anos no esporte fizeram o treinador da Seleção Brasileira criar um gosto refinado por zagueiros. Nos tempos de meio-campista, acostumou-se a ter ao lado dois gênios da posição, Franco Baresi e Paolo Maldini. Quando pendurou as chuteiras e se reinventou como treinador, transformou a obsessão em hábito e sempre fez questão de um xerifão de confiança, caso de Alessandro Nesta, John Terry, Sergio Ramos, Fabio Cannavaro e outros. Como bom italiano, entende que ataques encantam, mas taças frequentemente nascem da organização na retaguarda. É justamente esse equilíbrio que indica ter encontrado.

Do início da caminhada para a Copa do Mundo de 2026, em 25 de março de 2023, até a vitória no amistoso contra a Croácia na última Data Fifa, a Seleção utilizou 12 zagueiros — Alexsandro Ribeiro, Bremer, Éder Militão, Fabrício Bruno, Gabriel Magalhães, Léo Ortiz, Léo Pereira, Lucas Beraldo, Marquinhos, Murillo, Nino e Roger Ibañez —, bancados por Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior, antes de Ancelotti. É o segundo setor com mais jogadores experimentados após o fim melancólico em 2022. Eles formaram 12 duplas diferentes nos 35 jogos dos últimos três anos e permitiram 43 gols sofridos.

Ramon Menezes começou com Ibañez e Militão e repetiu duas vezes a dupla formada por Militão e Marquinhos. Diniz encontrou uma convicção que atravessou o ciclo e inspirou Ancelotti. Em todas as seis partidas à frente da Amarelinha, Diniz escalou Marquinhos e Gabriel Magalhães, hoje considerados os favoritos para iniciar a Copa e também a parceria mais utilizada do período, com 15 jogos juntos e 14 gols sofridos.

Ancelotti utilizou sete combinações diferentes em 10 partidas e transformou Marquinhos no eixo da linha de quatro. O capitão apareceu em metade das duplas testadas e consolidou Gabriel Magalhães como parceiro preferencial. Mas o técnico italiano ampliou o leque de alternativas ao experimentar perfis distintos, como a imposição física de Bremer, a qualidade na saída de bola de Léo Pereira, a construção de Beraldo e a agressividade de Alexsandro.

Marquinhos virou o principal rosto da defesa no ciclo. Esteve presente em 25 dos 35 jogos e acompanha uma lenta evolução defensiva da equipe. Em 2023, a meta brasileira foi vazada 14 vezes em nove partidas. No ano seguinte, sofreu 16 gols, mas em 14 jogos. Em 2025, foram 10 bolas na rede em 10 exibições. Nos amistosos de 2026, a Seleção sofreu mais três em duas exibições.

A zaga não tira o sono de Ancelotti. Marquinhos e Gabriel Magalhães estão garantidos. Ibañez agrada pela possibilidade de atuar como lateral. Léo Pereira ganhou pontos. Bremer ainda sonha com espaço. Campeão sob o comando de Ancelotti no PSG e um dos afetos dos tempos de Milan, Thiago Silva segue no radar pela liderança e experiência.

A história das Copas remete a grandes defensores. Desde o uruguaio José Nasazzi, em 1930, xerifões aparecem repetidamente entre os capitães campeões. Entraram para o Olimpo da bola os brasileiros Bellini (1958) e Mauro Ramos (1962), o inglês Bobby Moore (1966), o alemão Beckenbauer (1974), o argentino Passarella (1978) e o italiano Cannavaro (2006).

Cinco perguntas para Ricardo Rocha, zagueiro de duas Copas do Mundo e tetracampeão em 1994

Doze zagueiros utilizados no ciclo é muito?

É como nas laterais. Sabe qual é o maior problema do Brasil? Os jogadores envelheceram. Thiago Silva e vários outros chegaram a uma idade em que a transição precisa acontecer. Mas, independentemente de convocar 12 ou mais jogadores ao longo do ciclo, você precisa pensar nessa transição. O Ancelotti tem uma base formada. Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bremer e Léo Pereira são nomes muito bem cotados para ir à Copa. Talvez exista espaço para uma surpresa, como levar um quinto zagueiro mais experiente, caso do Thiago Silva. Não sei o que passa pela cabeça dele, mas pode acontecer.

O Brasil pecou em não testar um sistema com três zagueiros?

Não acho que seja um problema. Isso precisa ser trabalhado antes. Exige treino e convicção do treinador. Se ele não pretende usar, não faz sentido forçar.

O perfil do zagueiro brasileiro mudou?

Mudou para o zagueiro, para o lateral e, principalmente, para o goleiro. Hoje, exige-se muito mais qualidade para sair jogando. O goleiro participa da construção com os pés, os zagueiros precisam iniciar jogadas. Isso mudou bastante no futebol mundial. Muito dessa transformação passa pelo Guardiola, que revolucionou essa saída de bola desde os tempos de Bayern de Munique.

Qual seria a sua dupla titular para a Seleção Brasileira?

Marquinhos e Gabriel Magalhães. Não significa que os outros não possam jogar, mas acho que ele deve começar com os dois. E Copa do Mundo muda muita coisa. Em 1994, a dupla titular era eu e Ricardo Gomes. O Ricardo se machucou uma semana antes da Copa. Depois, eu me machuquei no primeiro jogo. Entrou o Aldair e foi muito bem. O Brasil tem bons zagueiros.

Você citou o Thiago Silva. Ele estaria na sua lista?

Eu o levaria. Na minha cabeça, eu também levaria o Neymar. E ainda chamaria um jogador que nem está na lista dos 55, que é o goleiro Fábio. Mas, entre os nomes que estão aí, eu levaria Thiago Silva e Neymar pela liderança e experiência.

Quem jogou no ciclo

Zagueiros: Alexsandro Ribeiro, Bremer, Éder Militão, Fabrício Bruno, Gabriel Magalhães, Léo Ortiz, Léo Pereira, Lucas Beraldo, Marquinhos, Murillo, Nino e Roger Ibañez

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