Copa do Mundo

O ciclo da Seleção: a busca por estabilidade nas laterais, o setor em transição

Carlo Ancelotti procura por unanimidades na posição após ciclo marcado por improvisações, trocas constantes e poucos nomes consolidados na caminhada até o Mundial. Italiano fala em tempo de carência na posição

Carlo Ancelotti convoca a Seleção Brasileira nesta segunda-feira (18/5), às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro -  (crédito: Valdo Virgo/CB/D.A. Press)
Carlo Ancelotti convoca a Seleção Brasileira nesta segunda-feira (18/5), às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro - (crédito: Valdo Virgo/CB/D.A. Press)

O futebol brasileiro construiu parte da própria identidade mundial pelas laterais do campo. Durante décadas, o país transformou a posição em símbolo de talento, criatividade, liderança e protagonismo. De Nilton Santos a Roberto Carlos, passando por Cafu, Carlos Alberto Torres, Leandro, Júnior e Jorginho, o Brasil acostumou o planeta a enxergar os defensores das pontas como peças determinantes nas conquistas das cinco estrelas. Porém, às vésperas da convocação final para a Copa do Mundo de 2026, marcada para a próxima segunda-feira, às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, a Seleção vive justamente o oposto: um raro período de instabilidade e indefinição no setor.

A caminhada até o Mundial dos Estados Unidos, do Canadá e do México expôs uma das maiores lacunas técnicas do elenco brasileiro no ciclo iniciado após a Copa do Catar. Desde 2023, Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti utilizaram 19 laterais diferentes em convocações da Seleção principal. Na direita, foram testados Arthur, Danilo, Emerson Royal, Paulo Henrique, Vanderson, Vitinho, Wesley e Yan Couto. Pela esquerda, surgiram Abner Vinícius, Alex Sandro, Alex Telles, Ayrton Lucas, Caio Henrique, Carlos Augusto, Douglas Santos, Guilherme Arana, Kaiki Bruno, Renan Lodi e Wendell.

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A quantidade elevada de nomes escancara justamente a ausência de uma hierarquia consolidada. Ao contrário de ciclos anteriores, nos quais o Brasil chegava às Copas com titulares absolutos e reservas experientes praticamente definidos com antecedência, Carlo Ancelotti ainda percorre o caminho de encontrar jogadores capazes de transmitir segurança e estabilidade ao sistema defensivo.

O cenário ganha contornos ainda mais curiosos ao observar os nomes mais experientes da lista. Dos laterais utilizados durante o ciclo, apenas Danilo, Alex Sandro e Alex Telles disputaram Copas do Mundo. Todos os demais, caso convocados, estreariam em mundiais com a camisa canarinha. Historicamente, as laterais brasileiras sempre carregaram atletas acostumados ao peso da camisa da Seleção. Carlos Alberto Torres, o Capita, e Cafu, por exemplo, viveram a honraria de levantar as taças do tri, em 1970, e do penta, em 2002. Em 2026, o Brasil pode viver uma configuração raríssima: disputar uma Copa com praticamente toda a posição formada por estreantes.

Reposicionamento

O caso de Danilo ajuda a dimensionar a transformação vivida pelo setor. Lateral com mais jogos e minutos acumulados no ciclo da Copa do Mundo, o jogador do Flamengo chega ao Mundial respaldado pela confiança absoluta de Carlo Ancelotti. O nome dele foi o primeiro garantido entre os 26 convocados para a competição. No entanto, o veterano de 34 anos vive atualmente um reposicionamento dentro de campo e atua prioritariamente como zagueiro. Assim, o principal nome da lateral-direita brasileira no ciclo sequer deve exercer originalmente a função durante a Copa.

Outro fator relevante pesa contra a estabilidade do setor defensivo: as lesões. Possível solução improvisada para a lateral, Éder Militão está fora da disputa pela convocação final. O defensor do Real Madrid, frequentemente utilizado aberto pela direita em cenários específicos ao longo da carreira, inclusive sob a tutela de Ancelotti, não se recuperará a tempo da ruptura ligamentar sofrida na temporada europeia.

Alas carentes

A ausência reforça uma tendência observada nas ideias de Carlo Ancelotti desde a chegada ao comando da Seleção. Sem encontrar laterais plenamente confiáveis dentro das características históricas do futebol brasileiro, o treinador italiano passou a admitir publicamente soluções mais conservadoras para a posição. "Nunca faltaram laterais no futebol brasileiro, tivemos jogadores fantásticos, mas agora temos um pouco de carência nesse setor. Mas temos jogadores espertos nessa posição. O jovem Wesley está muito bem na Roma. Para a nossa equipe, estou contente", avaliou o técnico, em entrevista ao programa Galvão F.C., do SBT.

Na sequência, o treinador deixou claro o caminho tático desenhado para equilibrar a equipe na Copa. "Não tenho problema em colocar um zagueiro na lateral. O mais importante da equipe é o equilíbrio. Se há um ponta que apoia muito, não é necessário um lateral que apoie tanto. Podemos encontrar perfis que ajudem a equipe a ter bom equilíbrio em campo", afirmou.

A declaração ajuda a explicar parte das tendências observadas ao longo do ciclo. Enquanto o futebol brasileiro historicamente buscava laterais ofensivos, profundos e protagonistas, o atual momento aponta preferência por atletas mais equilibrados defensivamente ou até adaptados à função. O contexto também valoriza nomes fisicamente fortes e disciplinados taticamente, mesmo sem brilho ofensivo semelhante ao de gerações anteriores.

Dentro deste cenário, Wesley desponta como principal novidade positiva do ciclo. Em alta no futebol italiano, o ex-jogador do Flamengo ganhou força na reta final da preparação para o Mundial justamente pela capacidade física, intensidade defensiva e adaptação ao modelo desejado por Ancelotti. Vanderson e Carlos Augusto também aparecem entre os nomes com maior regularidade recente.

Ainda assim, a sensação predominante na Seleção Brasileira é de reconstrução nas consagradas camisas dois e seis. Terra das laterais mais emblemáticas da história das Copas do Mundo, o Brasil chega a 2026 tentando encontrar novas referências para um setor acostumado, durante décadas, a representar uma das maiores fortalezas da camisa amarela. A depender do legado, há indícios de sucesso na busca pelos próximos protagonistas. Mas a chegada à busca ao hexacampeonato, no entanto, ainda destaca as lacunas no setor.

Entraram em campo no ciclo

Laterais direitos: Arthur, Danilo, Emerson Royal, Paulo Henrique, Vanderson, Vitinho, Wesley e Yan Couto

Laterais esquerdos: Abner Vinícius, Alex Sandro, Alex Telles, Ayrton Lucas, Caio Henrique, Carlos Augusto, Douglas Santos, Guilherme Arana, Kaiki Bruno, Renan Lodi e Wendell

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DQ
postado em 17/05/2026 14:01
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