
No sufoco, com história de redenção e herói improvável. O roteiro de ontem reservou momentos de decepção, fúria e apreensão para a Seleção Brasileira. No fim, explosão de alegria e, sobretudo, alívio. O Brasil saiu atrás, mas virou nos acréscimos do segundo tempo e bateu o Japão, por 2 x 1, no NRG Stadium, em Houston, nos Estados Unidos, pela fase de 16 avos de final da Copa do Mundo.
Gabriel Martinelli saiu do banco de reservas, no segundo tempo, para se tornar o grande nome da classificação. Aos 50 minutos, o jogador do Arsenal — não tão conhecido do povo brasileiro quanto outras estrelas — fez o gol da classificação. ‘Vilão’ na etapa inicial, o volante Casemiro deu a volta por cima e, de cabeça, marcou o primeiro brasileiro, também na metade final.
A virada no segundo tempo foi a sobrevida para uma Seleção Brasileira dona de maior posse de bola, mas dominada estrategicamente nos 45 minutos iniciais. Os japoneses abriram o placar com uma finalização do meio-campista Kaishu Sano, aos 29 minutos, após erro na saída de bola de Danilo e falha na marcação justamente de Casemiro.
O desenho do primeiro tempo pareceu exatamente aquilo que o técnico Hajime Moriyasu havia planejado. Na entrevista coletiva na véspera da partida, o comandante japonês avisou: sabia que o Brasil era o favorito, mas não abdicaria da identidade que tem construído desde 2018, quando assumiu o cargo. E assim foi.
A Seleção Brasileira teve a bola por mais tempo (59%, contra 35% dos japoneses e 6% em disputa) e finalizou mais (oito a quatro), mas estrategicamente foi dominada. Letal em contragolpes e na marcação pressão, foi controlado pelo adversário nesses aspectos e não criou grandes chances.
O cenário ficou ainda mais nebuloso por conta de más atuações individuais, sobretudo de Casemiro. O experiente volante de 34 anos, homem de confiança do técnico Carlo Ancelotti, recebeu cartão amarelo logo aos 12 minutos. Pendurado, não combateu devidamente o meio-campista Kaishu Sano, que, de fora da área, abriu o placar aos 29, após erro de passe do lateral-direito Danilo.
Em desvantagem, o Brasil ficou claramente nervoso em campo. Rodava a bola de um lado para o outro, mas não conseguia furar o forte bloqueio japonês – o que deixou evidente, mais uma vez, a grande dificuldade criativa do time de Ancelotti diante de defesas recuadas.
No intervalo, Endrick saiu do banco no lugar de Paquetá para mudar a disposição tática do Brasil e tentar destravar a linha de cinco marcadores japoneses – fixamente posicionada atrás de outra com quatro atletas e do atacante Avase Ueda, mais à frente. Com mais gente no ataque, a Seleção passou a levantar na área e criou grandes chances, com Bruno Guimarães e Matheus Cunha, mas a bola inacreditavelmente não entrou.
Na terceira, ela foi às redes! A máquina de vilões que é o futebol deu tempo a um deles rapidamente se converter em herói. Pior em campo na primeira etapa, Casemiro foi mantido em campo e, de cabeça, empatou para a Seleção Brasileira. Na comemoração, alegria e com um misto de desabafo, aos 11 minutos. Pouco depois, Vini Jr., que estava sumido na partida, fez uma jogadaça e quase virou, mas a bola bateu na trave após grande intervenção do goleiro Zion Suzuki.
No finalzinho, quando o empate parecia que persistiria até o fim, brilhou a estrela de Gabriel Martinelli. O atacante saiu do banco para, aos 50 minutos do segundo tempo, receber de Bruno Guimarães e bater no canto esquerdo de Suzuki – que tocou na bola, mas não conseguiu evitar: 2 x 1. Vitória na raça para garantir a classificação e manter o sonho do hexa vivo.
“Não tenho nem palavras para descrever a alegria que está no meu coração, poder alegrar o povo brasileiro com essa vitória, minha família, meus amigos... A ficha só vai cair daqui a um tempo”, disse o jogador, emocionado.
Martinelli, inclusive, já imaginava ser decisivo. “Eu vinha falando, outro dia parei na trave e sabia que ia ter outra oportunidade. E, agora, fiz o gol da classificação. Estou feliz pela equipe, ela se doou ao máximo”, completou, ainda perplexo com o feito.
Criticado por parte da torcida durante o jogo, o técnico Carlo Ancelotti comemorou não só o resultado, mas também a atuação da equipe. “Até agora foi o nosso jogo mais completo. Tivemos problemas na primeira parte, pois o Japão se fechou bem na defesa. Mas os solucionamos na segunda parte”, iniciou o italiano.
“Tentamos ter superioridade no meio-campo no primeiro tempo, buscando explorar as entre-linhas, mas não conseguimos vencer a marcação. Mudamos no intervalo e deu certo.”
Segundo ele, há muito a melhorar, mas a confiança segue inabalável. “Não duvidamos em nenhum momento de que poderíamos empatar. Acreditamos sempre que o time tinha condições de buscar o resultado”, declarou Carletto, quando questionado sobre o impacto psicológico do gol japonês no time brasileiro.
Alemanha eliminada
A zebra está solta na Copa do Mundo de 2026. E com “tempero” sul-americano. O Paraguai lutou bravamente, ontem, resistiu o quanto pode no confronto com a Alemanha, pela fase de 16 avos de final, e arrancou uma enorme classificação nos pênaltis no Gillette Stadium, em Foxborough, graças ao brilho do goleiro Orlando Gill, autor de seis defesas no tempo normal e duas da marca da cal.
No tempo normal, empate por 1 x 1, com gols de Julio Enciso e Kai Havertz. Depois de uma prorrogação sem gols, a seleção paraguaia surpreendeu o mundo do futebol com o triunfo por 4 x 3, na decisão por pênaltis. Com isso, a tetracampeã mundial protagonizou o terceiro vexame em sequência desde o título de 2014, já que caiu na fase de grupos em 2018 e 2022.
Holanda eliminada
Além da virada do Brasil e da classificação do Paraguai sobre a Alemanha nos pênaltis, Marrocos também garantiu vaga nas oitavas de final ao eliminar a Holanda em uma decisão emocionante. Após empate de 1 x 1 no tempo normal e sem gols na prorrogação, a seleção marroquina venceu por 3 x 2 nas penalidades e agora enfrenta o Canadá na próxima fase.
*Colaboraram Pedro Bueno e Nathallie Lopes

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