Nova Jersey (EUA) — Existe algo de diferente quando uma Copa começa no México. Poucos países sabem transformar o evento em linguagem própria. Entre mariachis, muralistas e receitas transmitidas de geração em geração, o país recebe novamente o planeta para o ritual que inaugura o maior espetáculo do futebol.
Hoje, às 16h, quando México e África do Sul entrarem no gramado do Estádio Azteca, será difícil não imaginar que a 'Festa no Céu' ganhou uma arquibancada especial. Pelé e Maradona, donos das duas Copas anteriores disputadas em solo mexicano, parecem ocupar camarotes invisíveis na memória coletiva da arena. O Rei fez de 1970 uma obra-prima. O Príncipe transformou 1986 em lenda. Agora, o México abre as portas para a busca de um novo personagem.
As experiências anteriores recomendam paciência. Em 1970, os anfitriões empataram sem gols com a União Soviética na estreia. Dezesseis anos depois, Itália e Bulgária ficaram no 1 x 1. Nenhum daqueles capítulos antecipava o que viria a seguir: Pelé e Maradona em atuações que entraram para a eternidade do torneio.
As Copas mexicanas lembram um mole preparado em fogo baixo. O prato mais emblemático da culinária local exige tempo para revelar toda a riqueza. Também se parecem com as novelas do país: o capítulo de estreia apresenta personagens: o protagonista aparece depois.
Talvez por isso o reencontro entre México e África do Sul carregue simbolismo. Em 2010, dividiram a abertura no Soccer City, em Joanesburgo. O chute de Siphiwe Tshabalala entrou para o almanaque dos Mundiais. Agora, voltam a inaugurar uma edição, desta vez sob o peso e o brilho do Azteca lotado.
O México carrega o privilégio de abrir uma Copa pela terceira vez. A esperança está em Santiago Giménez, na liderança de Edson Álvarez e no impulso de uma torcida que sonha ir além das quartas de final pela primeira vez.
A África do Sul chega com menos expectativa, mas longe de ser figurante. Organizada e competitiva, vê a estreia como chance de ocupar o centro do palco.
Como em todo grande enredo, ainda não se sabe quem será o protagonista. Pode estar em campo ou em algum centro de treinamento, sem sequer imaginar a iminência de entrar para a história.
Enquanto isso, o Azteca aguarda. O estádio que viu Pelé erguer a Jules Rimet e Maradona levantar a Copa se prepara para mais um capítulo da própria lenda. Quando a bola rolar, não será apenas México x África do Sul. É mais um episódio do templo onde Pelé e Maradona encontraram a eternidade.
Lá do alto, dois velhos campeões parecem observar em silêncio.
Aqui embaixo, o mundo prende a respiração. A Copa do Mundo está de volta ao lugar onde as lendas gostam de nascer.
