
Nova Jersey — Lionel Messi jogou os 120 minutos da final porque há privilégios reservados apenas aos gênios. Qualquer outro teria deixado o campo antes. O camisa 10 hermano mal viu a bola. Refém da posse sufocante da Espanha, assistiu à decisão correr diante dos próprios olhos sem conseguir ditar o ritmo como tantas vezes fez na carreira e neste Mundial. Mérito de uma La Roja que transformou o maior jogador do século 21, dono de oito Bolas de Ouro, em um coadjuvante da decisão nos Estados Unidos.
Os números ajudam a explicar a atuação discreta. A Argentina finalizou apenas uma vez em toda a decisão, justamente com Messi, e sequer acertou o alvo. Antes do intervalo, passou os 45 minutos sem um único chute, algo inédito desde 1966. O camisa 10 também esteve abaixo do próprio padrão. Acertou 77% dos passes, encontrou o alvo em apenas uma de cinco bolas longas e percorreu 141 metros conduzindo a bola. Os três dribles que tentou deram certo, mas foram insuficientes para romper o controle exercido pela Espanha. Restou-lhe provocar quatro faltas e esperar por uma bola que quase nunca chegou.
A Espanha encontrou a forma mais eficiente de anular Lionel Messi: escondeu a bola. Enquanto a Argentina corria atrás dela, os 69% de posse transformaram o camisa 10 em um espectador da própria despedida em Copas. Acostumado a ser o ponto de partida de praticamente todas as ações ofensivas da Albiceleste, recebeu pouco e participou menos do que o habitual.
Não foi apenas Messi quem perdeu protagonismo. A Argentina também. Acostumada a acelerar o jogo a partir dos pés do capitão, viu as linhas se distanciarem enquanto a Espanha monopolizava a posse. Sem conseguir conectar defesa, meio-campo e ataque, a Albiceleste passou longos períodos apenas perseguindo a bola e terminou a decisão reduzida a um papel incomum: sobreviver.
Tudo indica que o capítulo de Lionel Messi nas Copas do Mundo chegou ao fim. Ao lado de Cristiano Ronaldo, tornou-se o único jogador a disputar seis edições do torneio. Despede-se com 34 partidas, 21 gols e 12 assistências.
Se entrou em campo pela última vez em uma Copa, Messi também fechou um ciclo reservado a pouquíssimos. O argentino igualou o brasileiro Cafu como os únicos jogadores de linha a disputar três finais de Mundial, em 2014, 2022 e 2026. Pelé conquistou três Copas, mas uma lesão o impediu de atuar na decisão de 1962, no Chile. O capitão do penta, porém, continua como o único presente em três finais consecutivas: 1994, 1998 e 2002.
A decisão também colocou Lionel Messi diante de outro pedaço da história. Aos 39 anos e 25 dias, tornou-se o jogador de linha mais velho a disputar uma final de Copa do Mundo, superando o sueco Gunnar Gren, vice-campeão com a Suécia em 1958, aos 37 anos e 241 dias. À frente dele, apenas o lendário goleiro italiano Dino Zoff, campeão mundial em 1982, quando tinha 40 anos e 133 dias.
Também perdeu um recorde histórico na reta final do torneio. Até a decisão, Messi dividia a artilharia das Copas com 21 gols, mas foi ultrapassado por Kylian Mbappé. O francês chegou a 22 ao marcar duas vezes na derrota por 6 x 4 para a Inglaterra, na disputa pelo terceiro lugar.
Curiosamente, foi o segundo vice de Lionel Messi no MetLife Stadium. Dez anos depois do revés para o Chile na final da Copa América Centenário, o argentino voltou a deixar o estádio derrotado. Naquele 26 de junho de 2016, desperdiçou uma cobrança de pênalti, chorou e anunciou, ainda no calor da frustração, que não vestiria mais a camisa da seleção. "Acabou. Não é para mim", desabafou.
Nem o título mundial de 2022 blindou Lionel Messi das lágrimas. Depois da cerimônia de premiação, o camisa 10 parou diante da torcida argentina e permaneceu imóvel, apenas observando a festa nas arquibancadas. Chorou. Sem a taça nas mãos, recebeu a maior homenagem da noite: o reconhecimento de quem parecia assistir, pela última vez, a um dos maiores jogadores da história.
Saiba Mais
Seleção dos estagiários do Correio: confira destaques
Rafael Lins*
Em 2026, a maior Copa do Mundo da história teve 48 seleções participantes, três países sedes, 104 jogos, 308 gols e recordes de público e audiência. Agora, mais quatro anos de hiato até o próximo Mundial, em 2030, comemorativo aos 100 anos desde a inauguração do campeonato.
Os estagiários do Correio elencaram a melhor equipe. Destaques para Messi, Haaland e Mbappé, que apareceram em praticamente todas as seleções de etapas anteriores do Mundial. Um misto entre Argentina, Espanha, França e Inglaterra tomou conta da equipe ideal do torneio.
Goleiro: Unai Simon (Espanha)
Goleiro menos vazado do torneio, com apenas um gol sofrido em toda a competição. Foi um dos pilares da forte defesa espanhola na Copa, campeã pela segunda vez história. Levou a Luva de Ouro da Fifa e dos Estagiários do CB.
Lateral-esquerdo: Cucurella (Espanha)
Jogador que aparece em momentos grandes. O lateral espanhol foi o destaque absoluto da posição. Participação ofensiva e defensiva equilibrada e perfeita. Foi peça-chave da Espanha para chegar ao título da Copa do Mundo.
Zagueiro: Lisandro Martínez (Argentina)
Foi o grande destaque da posição no torneio. Exímio não apenas na participação defensiva, mas importante também na criação de jogadas, comportando-se como um líbero. Fez gol e deu assistência na competição. Peça fundamental para a albiceleste.
Zagueiro: Pau Cubarsí (Espanha)
Melhor zagueiro da melhor defesa da Copa. A Espanha tomou apenas um gol em todo o torneio. O jovem defensor se destacou pela saída de bola, pelo alto aproveitamento nas divididas e por saber utilizar a linha de impedimento com perfeição. Contra a França, nas semifinais, anulou Mbappé por 90 minutos e levou a Fúria para a final.
Lateral-direito: Pedro Porro (Espanha)
Teve desempenho perfeito tanto na defesa quanto no ataque. Não era dado como dono da posição antes do torneio, mas comandou a lateral direita espanhola. Destacou-se pela ótima saída de bola e pelo apoio ofensivo, tendo dois gols na competição.
Volante: Rodri (Espanha)
Mostrou mais uma vez para o mundo o porquê de ter uma bola de ouro no currículo. Pilar principal do meio campo espanhol, tem grande destaque defensivo na marcação, mas trata a bola com excelência. Passe refinado, dita o ritmo do jogo e papel de liderança fundamental na equipe espanhola.
Meia: Bellingham (Inglaterra)
Desbancou Harry Kane e foi o destaque da seleção inglesa no torneio. Mesmo com a eliminação frustrante contra a Argentina, fez uma grande Copa do Mundo, artilheiro do English Team, com sete gols uma assistência. Atuou com perfeição em todos os setores do meio campo. Atleta físico, mas também muito técnico.
Meia: Messi (Argentina)
Aos 39 anos, Messi, mais uma vez, foi o destaque da albiceleste. Participou pela terceira vez da final e fica na história com um troféu. Nesta edição, firmou-se como segundo goleador da história do torneio, com 21 bolas na rede. Com oito gols, foi vice-artilheiro em 2026 e ainda distribuiu quatro assistências.
Ponta esquerda: Mbappé (França)
Aos 27 anos, jogou a terceira Copa na carreira. Acumula um título e um vice. Tem 22 gols na história do torneio — maior goleador. Nesta edição, liderou a França até as semis, mas parou na quarta colocação. Colocou 10 bolas na rede, foi o artilheiro do Mundial 2026.
Ponta direita: Oyarzabal (Espanha)
Maior destaque da campeã Espanha no torneio. Em uma equipe que joga em prol do coletivo, Oyarzabal se transforma com La Roja. Jogador da Real Sociedad, tem papel de goleador na Fúria. São 30 gols em 60 partidas com o manto espanhol. Neste Mundial, anotou cinco bolas na rede.
Atacante: Haaland (Noruega)
Considerado o maior norueguês da história, aos 25 anos, Haaland colocou a Noruega em uma quarta de final de Copa do Mundo pela primeira vez. Algoz brasileiro neste Mundial, o atacante do Manchester City fez sete gols na primeira participação no torneio e figurou entre os artilheiros da competição.
Técnico: Luís de la Fuente (Espanha)
Comandou a Fúria com excelência até o título. Criou uma identidade com a equipe e com o plantel. Adotou a estratégia de manter a posse de bola sempre e jogar com o coletivo e não depender de um jogador específico. Tem a melhor defesa do torneio e sabe mexer o time nas partidas. Técnico espanhol desde as divisões de base, faz um papel excelente à beira do campo.
*Estagiário sob supervisão de Fernando Brito
Espanha prova tese de Ancelotti
Nova Jersey — Antes do início do Mundial, o técnico Carlo Ancelotti afirmou: “Defesas ganham Copas”. Era um indicativo de que o Brasil apostaria em uma retaguarda sólida na tentativa de ganhar o hexa na base da retranca. A Seleção deixou o torneio nas oitavas de final com quatro gols sofridos. Dois contra a Noruega, na derrota por 2 x 1, na qual o time verde-amarelo teve 34% de posse da bola.
Parte da tese de Carlo Ancelotti está comprovada pela Espanha. La Roja conquista a Copa do Mundo pela segunda vez em 16 anos estabelecendo recorde. É a primeira vez que uma seleção ergue o caneco tendo sofrido apenas um gol durante toda a campanha.
Ao contrário do Brasil — e da própria Argentina na final de ontem —, a Espanha tem um diferencial. Não é covarde. Tem a obsessão pela bola como diferencial. Amou tê-la do início ao fim da Copa do Mundo nos Estados Unidos, no Canadá e no México. Encerrou a partida contra a Argentina com 69% contra 31% dos ex-detendores do troféu.
Há quem não goste do estilo da Espanha. Eu aprovo. Ao reter a bola, o time de Luis de la Fuente isolou Lionel Messi do jogo. O jogador eleito oito vezes melhor do mundo não viu a cor dela usando a linguagem dos boleiros. O camisa 10 finalizou apenas uma vez em mais de 120 minutos de jogo. Errou a mira. Chutou para fora quando a partida estava 1 x 0.
Controlar a bola também minou a França. Mbappé, Olise, Barcola, Doue, Dembélé e companhia estiveram longe da área na semifinal disputada em Dallas. A Espanha eliminou o melhor ataque da Copa. A França fez 20 gols ao lado da Inglaterra. A Argentina marcou 19. No estilo o melhor ataque é a defesa, a Espanha balançou a rede 14 vezes em uma campanha parecida com a do primeiro título na África do Sul, em 2010.
A Espanha faz valer a tese de Carlo Ancelotti. Sim, a melhor defesa, formada por Unai Simón, Pedro Porro, Cubarsí, Laporte e Cucurella ganhou a Copa, mas deixa um recado ao italiano recém-chegado ao futebol de seleções. É preciso ter a bola. Gostar dela. Assim o Brasil ganhou cinco títulos. Sem ela, acumulou a sexta edição sem título e desembarcará na edição centenária de 2030 amargando 28 anos de jejum. Que a Espanha, onde Carlo Ancelotti trabalhou tanto tempo colecionando títulos no Real Madrid, sirva de norte.
Explosão de alegria em Madri
Logo após a meia-noite local, os torcedores espanhóis extravasaram toda a tensão acumulada e deram início a uma longa noite de comemorações após a vitória na prorrogação da final da Copa do Mundo de 2026 contra a Argentina (1 x 0), com multidões celebrando nos centros das cidades, especialmente em Madri.
Por todo o país, cenas semelhantes se repetiam diante de telões e em grandes aglomerações, formando um mar de camisas vermelhas, e também brancas, graças ao uniforme reserva que virou febre durante o torneio.
"Estou eufórico, não consigo acreditar. Esta é a nossa segunda estrela", disse Diego González, de 25 anos, enquanto comemorava na Plaza de Colón, em Madri. Ele também planeja participar das festividades hoje, após o retorno da seleção ao país.
"Vou dormir só um pouquinho essa noite. Amanhã (segunda-feira), eles vêm para cá com o troféu, e temos que comemorar também. Eles vêm para a Cibeles com a taça", disse o torcedor, empolgado, referindo-se à famosa praça da capital onde a Espanha, assim como o Real Madrid, tradicionalmente celebra conquistas.
Ao redor, os gritos da torcida obrigavam as pessoas a elevar a voz, enquanto buzinas de carros ecoavam por toda a cidade. Diego González tinha apenas nove anos quando a Espanha conquistou o primeiro título na África do Sul, em 2010, mas ele vê um paralelo claro: "Vencemos a Eurocopa naquela época e, depois, ganhamos aquela Copa do Mundo. Dois anos atrás, vencemos a Eurocopa e... ganhamos a Copa do Mundo de novo!"
Na praça, alguns cantavam em voz alta o clássico We are the champions, do Queen, e outros adotavam um tom mais provocativo em relação à Argentina, a seleção derrotada na final: "Cadê o Leo Messi? Cadê o Leo Messi?". Houve até quem comemorasse com um toque gastronômico: "A tortilla espanhola é muito melhor que o choripán!".
Segunda-feira é de trabalho na Espanha, e a noite de comemorações fez com que muitos se preocupassem com o difícil dia que os aguarda. "Não sei como vamos comemorar, já que temos trabalho amanhã", admitiu Alejandra Silva, 26, que estava no local com a amiga Ángela Lambea, 30. "Nós merecemos. Jogamos muito bem e mantivemos a posse de bola o tempo todo. A Argentina mal tocou na bola", disse Ángela.
Em uma noite de verão escaldante, o som de fogos de artifício e bombinhas ecoava repetidamente, acompanhado por gritos tradicionais como "campeones, campeones!" e "Qué viva España!"
Essa segunda estrela brilhou intensamente em um país apaixonado por futebol, e onde a geração mais jovem não tivera a chance de celebrar o título da Copa do Mundo de 2010. Hoje, La Roja desembarca no Aeroporto de Barajas com o troféu. De lá, a equipe participará de duas recepções oficiais, uma oferecida pelo rei e pela rainha da Espanha e outra pelo primeiro-ministro, antes de percorrer a cidade em um desfile de ônibus aberto rumo à Plaza de Cibeles, retornando ao mesmo local onde, há dois anos, celebraram o título da Eurocopa 2024.

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