racismo

Como a Argentina construiu o mito da "nação branca" e o que a ciência diz hoje

Episódios recentes de racismo no futebol trazem à tona o debate sobre as políticas de apagamento de negros e indígenas nos séculos XIX e XX. Pesquisas genéticas mostram que o ideal de uma população puramente europeia não se sustenta no próprio DNA do país

 Argentina's forward #22 Lautaro Martinez celebrates scoring his team's second goal during the 2026 World Cup football tournament semi-final match between England and Argentina at the Atlanta Stadium in Atlanta on July 15, 2026.  (Photo by ROBERTO SCHMIDT / AFP)
       -  (crédito:  AFP)
Argentina's forward #22 Lautaro Martinez celebrates scoring his team's second goal during the 2026 World Cup football tournament semi-final match between England and Argentina at the Atlanta Stadium in Atlanta on July 15, 2026. (Photo by ROBERTO SCHMIDT / AFP) - (crédito: AFP)

No dia 3 de julho, no estádio de Miami, o influenciador americano Darren Watkins Jr., conhecido como IShowSpeed e dono de mais de 50 milhões de inscritos no YouTube, entrou com a camisa de Cabo Verde para assistir Argentina contra a seleção africana. Quando apontou a câmera para uma torcedora argentina que gesticulava em sua direção, ouviu, em espanhol, um conselho: que fosse chorar no zoológico. Quatro dias depois, em Atlanta, no jogo contra o Egito, foi a vez de outro torcedor inflar as bochechas, arregalar os olhos e imitar um macaco enquanto o americano, negro, deixava o estádio. A Fifa, que mantém contrato com Speed para transmitir os jogos ao vivo, abriu investigação e afirmou em nota que quem age assim "não é bem-vindo" no futebol. Até o fechamento desta reportagem, a apuração seguia em curso, sem punição anunciada.

Para historiadores e cientistas sociais, episódios como esse não ocorrem fora de um contexto histórico e cultural. Eles dialogam com uma construção histórica iniciada no século 19, quando elites intelectuais e governos argentinos promoveram um projeto explícito de nação: incentivar a imigração europeia e invisibilizar, em leis, censos e narrativas oficiais, as populações negras e originárias.

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Dois séculos depois, no entanto, dados genéticos e revisões históricas mostram que a ideia de um país demograficamente homogêneo e puramente europeu nunca correspondeu totalmente à realidade, nem mesmo no sangue da própria população. 

Além da arquibancada

O racismo que apareceu contra Speed não vem só das arquibancadas. Vem de dentro do vestiário. Em 15 de julho de 2024, no ônibus da seleção campeã da Copa América disputada nos Estados Unidos, o meio-campista Enzo Fernández transmitiu ao vivo no Instagram os companheiros entoando um canto contra os jogadores franceses de ascendência africana: "juegan en Francia pero son todos de Angola, su vieja es nigeriana, su viejo camerunés, pero en el documento nacionalidad francés". A Federação Francesa de Futebol denunciou a Associação do Futebol Argentino (AFA) e a Fifa. O zagueiro Jules Koundé, do Barcelona, reagiu com uma palavra: "Lamentável". Wesley Fofana, companheiro de Fernández no Chelsea, classificou o vídeo como "racismo desinibido". Ele, Axel Disasi e Malo Gusto deixaram de seguir o argentino nas redes.

A reação mais reveladora, porém, veio do próprio Estado argentino. Quando o então vice-ministro dos Esportes, Julio Garro, sugeriu que Messi e a AFA se desculpassem, foi demitido em poucas horas pelo governo de Javier Milei. A Presidência publicou que nenhum governo tem o direito de dizer a uma seleção o que fazer. 

O padrão tampouco é só argentino. Nesta mesma Copa, a senadora paraguaia Celeste Amarilla, após a França eliminar o Paraguai, chamou Mbappé de "camaronês colonizado" e disse que ele, quando criança, "chupava cocos, e as criaturas mais educadas que escutou foram chimpanzés". O francês respondeu chamando-a de "mulher desprezível, indigna do cargo". O racismo antinegro no futebol sul-americano é regional. Mas a Argentina tem com ele uma relação particular, e mais antiga.

Para o sociólogo Murilo Mangabeira, mestre pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da rede pública do Distrito Federal, a história não explica a hostilidade em si, mas a forma que ela assume. "No futebol, a hostilidade com a torcida adversária não é novidade. Na América do Sul, muito menos. O que me parece ter influência da história é que essa hostilidade apareça na forma de um racismo bem escancarado", afirma. "Não basta dizer que o adversário perdeu. É preciso lembrar que ele é inferior a mim, porque não é branco como eu. A forma como se ofende os egípcios e os cabo-verdianos é uma demonstração disso." O mesmo Enzo Fernández que puxou o canto de 2024 marcou o gol do empate sobre a Inglaterra na semifinal, e foi expulso na final deste domingo.

A fábrica do mito

O intelectual que redigiu a espinha dorsal da Constituição de 1853, Juan Bautista Alberdi, não escondia o projeto. Nas páginas explicativas de Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina, de 1852, o livro que fundamentou a Carta Magna do país, escreveu que povoar podia ser o oposto de civilizar: "Poblar es apestar, corromper, degenerar, envenenar un país, cuando en vez de poblarlo con la flor de la población trabajadora de Europa, se le puebla con la basura de la Europa atrasada." ("Povoar é infestar, corromper, degenerar, envenenar um país quando, em vez de povoá-lo com a flor da população trabalhadora da Europa, povoa-se com o lixo da Europa atrasada", em tradução livre). E foi explícito sobre quem não servia ao projeto, ao perguntar se os Estados Unidos seriam o país livre que eram caso tivessem sido povoados "com chineses ou com índios asiáticos, ou com africanos, ou com otomanos". A resposta implícita era não.

O paralelo com o Brasil é inevitável. "O projeto de branqueamento da Argentina foi bem-sucedido em comparação com o do Brasil", explica Mangabeira. Chegaram ao país cerca de 200 mil africanos escravizados, e no censo de 1778 aproximadamente um terço da população de Buenos Aires era negra. Depois vieram mais de 7 milhões de imigrantes europeus, sobretudo espanhóis e italianos. "Essa política tinha uma intenção clara de apagar as populações não brancas. Hoje, apenas 1% da população se considera negra", diz o sociólogo. "No Brasil também houve projeto de branqueamento e incentivo à imigração europeia, mas o fluxo de africanos escravizados foi muito maior, e a imigração europeia não foi o bastante para apagar nem a população negra nem a indígena."

O outro pilar do pensamento estatal argentino, Domingo Faustino Sarmiento, presidente entre 1868 e 1874, decretou a extinção antes da hora. Em Facundo, de 1845, escreveu que ""a raça negra, já quase extinta, exceto em Buenos Aires" havia deixado apenas "zambos e mulatos" como elo entre o homem civilizado e o bárbaro. A raça negra não estava extinta em 1845. Não estaria em 1887, quando o censo municipal ainda a registrava, nem em 1895, nem em 1914. 

O projeto não ficou nas ideias. O artigo 25 da Constituição de 1853, mantido por todas as reformas até a de 1994, ordena até hoje que o governo federal "fomentará a imigração europeia". A palavra europeia nunca saiu do texto. A Lei de Imigração e Colonização de 1876, apelidada de Lei Avellaneda em referência ao presidente Nicolás Avellaneda, que a sancionou, criou o aparato oficial para atrair e distribuir esses europeus pelo território. Entre 1850 e 1930, cerca de 6 milhões deles entraram no país, mais de 2 milhões italianos. Em 1914, um terço da população argentina era estrangeira.

Ao esforço de substituir a população somou-se a limpeza do território. Entre 1878 e 1885, o ministro da Guerra Julio Argentino Roca comandou a Conquista del Desierto, campanha militar contra os povos mapuche, tehuelche e ranquel, no sul do país. Milhares foram mortos, cerca de 14 mil reduzidos à servidão e milhões de hectares repassados a grandes proprietários de terra. Historiadores do Conicet, o conselho nacional de ciência da Argentina, classificam a campanha como genocídio. Roca se tornou presidente em 1880, com a operação como plataforma.

O documento mais brutal, porém, veio do próprio Estado, em forma de estatística. No relatório do Segundo Censo Nacional, de 10 de maio de 1895, a comissão dirigida por Gabriel Carrasco registrou que a questão das raças, tão importante nos Estados Unidos, não existia na Argentina, onde a população não tardaria a se unificar "formando uma nova e formosa raça branca". Foi o último censo argentino a contar afrodescendentes. A pergunta só voltaria 115 anos depois, em 2010.

O que sumiu dos censos

O historiador americano George Reid Andrews, na obra de referência The Afro-Argentines of Buenos Aires, 1800-1900, de 1980, mostrou que essa gente não desapareceu. Foi apagada. Em 1810, os afro-argentinos eram 9.615 dos 32.558 habitantes de Buenos Aires, cerca de 30% da população. Em 1887, tinham despencado para 1,8%. Vasculhando registros paroquiais, jornais negros e sociedades de ajuda mútua, Andrews provou que a comunidade seguia viva e ativa décadas depois de os intelectuais a declararem extinta. E, cruzando registros militares, derrubou o mito do negro usado como bucha de canhão nas guerras. O que explica o sumiço é a reclassificação nos documentos: o Estado trocou os rótulos "negro", "pardo" e "moreno" pelo termo "trigueño", cor de trigo, e embranqueceu a população no papel.

Esse apagamento tem um rosto e um nome. María Remedios del Valle, mulher negra nascida em Buenos Aires por volta de 1766, lutou nas guerras da Independência ao lado do general Manuel Belgrano, que a nomeou capitã. Perdeu marido e filhos em combate, foi ferida a bala e a sabre, capturada pelos espanhóis e açoitada em praça pública durante nove dias. Terminou a vida pedindo esmola nos átrios das igrejas de Buenos Aires, enquanto o Estado se recusava a pagar sua pensão. Morreu na miséria em 8 de novembro de 1847. Em 2013, 166 anos depois, sua data de morte virou o Dia Nacional dos Afro-argentinos. Em maio de 2024, o rosto que o país passou dois séculos apagando foi estampado na cédula de 10 mil pesos, a de maior valor da Argentina.

O DNA desmente o Estado

O que a Argentina construiu por dois séculos, a genética derrubou em poucos anos. Desde 2005, o geneticista Daniel Corach, da Universidade de Buenos Aires, demonstra que 56% dos argentinos analisados carregam ao menos um ancestral indígena, proporção que chega a 90% nas províncias do norte. Um estudo posterior do CONICET cruzou milhares de amostras e encontrou a composição média do argentino de hoje: cerca de 80% de ancestralidade europeia, 16% indígena e 4% africana, esta última vinda sobretudo de povos bantos de Moçambique, Angola e Loango. Os mesmos angolanos que o canto da seleção invocou para ofender os franceses.

O golpe definitivo veio em novembro de 2025, quando a Nature, revista científica britânica e uma das mais prestigiadas do mundo, publicou um estudo do Conicet em parceria com a Universidade Harvard. A pesquisa analisou o DNA de 238 indivíduos antigos, de 133 sítios arqueológicos, e concluiu que existe uma linhagem indígena própria do centro da Argentina, com pelo menos 8.500 anos, ainda presente no DNA da população atual. A conclusão dos cientistas foi direta: não houve substituição populacional. Os indígenas que o Estado deu por extintos nunca saíram do lugar.

A ciência, porém, não resolve o problema sozinha, adverte Mangabeira, e o sociólogo faz questão de marcar essa distinção. "O racismo que discutimos hoje não é uma questão de DNA. É fruto de uma construção social de como identificamos, imaginamos e tratamos diferentes grupos, com diferentes origens e aparências", diz. "A evidência de que o DNA indígena ainda é presente na Argentina serve para desmantelar o mito da nação branca, mas por si só não acaba com o mito nem com o racismo. É preciso muita luta e muito debate sobre o que é a sociedade argentina, assim como precisamos fazer esse debate na sociedade brasileira."

O próprio governo já admite o que negou por 130 anos. O censo de 2022 do Indec, o instituto de estatística da Argentina, foi o primeiro a perguntar sobre afrodescendência em todos os domicílios do país. Registrou 302.936 afrodescendentes e 1.306.730 indígenas. O órgão que hoje os conta tem sede na Avenida Presidente Julio Argentino Roca, 609, em Buenos Aires. O endereço leva o nome do general que comandou o extermínio dos povos originários.

Para o sociólogo, o que está em jogo vai além de convencer indivíduos. "Racismo é um fenômeno social que estrutura a sociedade. Muita gente ainda acha que é um problema individual, ligado a inteligência ou caráter, mas ele molda a sociedade e afeta a socialização das pessoas", afirma Mangabeira. "Tanto a Argentina quanto o Brasil precisam se rever enquanto sociedade. Mudar a cabeça de algumas pessoas que se declaram racistas nunca será o bastante. Os dois países precisam mudar por inteiro, aprender a funcionar de outra forma."

Volta ao MetLife

Neste domingo, 19 de julho, mais de 80 mil pessoas lotaram o MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, para ver a Argentina perder a final da Copa do Mundo para a Espanha por 1 a 0, gol do espanhol Ferran Torres na prorrogação. Em campo, a seleção que carregou a Copa inteira o mito da própria superioridade não deu um único chute a gol nos 90 minutos regulamentares, algo inédito para um finalista, e terminou a partida com um a menos, após a expulsão de Enzo Fernández, o mesmo do canto racista de 2024. Nas arquibancadas, estatisticamente, mais da metade daqueles argentinos carregava ancestralidade indígena no DNA, e mais de 4%, ancestralidade africana.

O placar não muda o essencial. Vice na Copa, a Argentina volta para casa com o mesmo peso que carrega há dois séculos. Os povos que o Estado deu por extintos seguem ali, na mesma terra de sempre. O torcedor que mandou IShowSpeed chorar no zoológico provavelmente divide com ele mais ancestrais do que gostaria de admitir. A casa para onde o Estado argentino mandou os negros e os índios voltarem nunca ficou do outro lado do mar. Ficou dentro do próprio sangue argentino, esperando que a ciência a encontrasse.

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JP
postado em 20/07/2026 16:37 / atualizado em 20/07/2026 16:38
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