
Rio de Janeiro — Tijolo por tijolo, Ketleyn Quadros construiu uma carreira inspiradora. Medalhista olímpica, a judoca brasiliense decidiu, aos 38 anos, recalcular a rota e se despedir dos tatames. Depois de três décadas dedicadas ao judô, a ex-atleta encara o novo desafio com orgulho do legado construído na modalidade e no esporte. Agora, contou ao Correio, é hora de dedicar mais tempo à família e aos bastidores de uma nova jornada.
Aos 20 anos, a brasiliense conquistou a primeira medalha olímpica da carreira: o bronze em Pequim-2008, na categoria até 57kg. O pódio a tornou a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha olímpica em uma prova individual. Dezesseis anos mais tarde, nos Jogos de Paris-2024, veio outro bronze e mais um marco: o primeiro pódio por equipes do judô brasileiro em uma Olimpíada. Ao longo da trajetória, Ketleyn também realizou outros sonhos, como o de ser a primeira mulher negra a carregar a bandeira do Brasil em uma cerimônia olímpica, em Tóquio-2020.
Foram muitas conquistas dentro do esporte. Natural de Ceilândia, Ketleyn não hesitou na hora de bater o martelo e decidir pela aposentadoria. Depois de uma vida dedicada a treinos, viagens, alimentação regrada e muito esforço, sentiu que era hora de diminuir o ritmo. Recém-casada com o judoca Alex Pombo, atleta olímpico nos Jogos do Rio-2016, percebeu que havia chegado o momento de dedicar mais tempo à família e continuar fazendo o que ama. Desta vez, por outra perspectiva.
"Quando eu disse ser mãe, foi mais um assunto de família, eu ter um tempo a mais de qualidade com a minha família, por exemplo. Não sei a última vez que eu passei o aniversário da minha mãe com ela e com as minhas irmãs. Então, assim, consciência tranquila, em paz, leve. Estou feliz com esse novo ciclo", assumiu.
A carreira da brasiliense poderia ter continuado. Mesmo depois de 30 anos no judô, Ketleyn deixou os tatames sem precisar lidar com uma cirurgia ou uma lesão que a impedisse de seguir competindo. Los Angeles-2028 ainda poderia fazer parte dos planos. A escolha, porém, foi outra.
Do outro lado dos tatames, ela continua ligada ao esporte, agora com mais tempo para si e para construir a própria família. Em 2024, ainda na ativa, recebeu de Marcelo Theotonio, diretor-técnico da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), a sugestão de integrar a comissão de atletas do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Para fazer parte, precisava de uma carta de recomendação da CBJ e, depois, da votação dos próprios atletas. Ketleyn aceitou, mas com um "pezinho atrás".
"Não tenho tempo de pedir para as pessoas votarem em mim. O que eu poderia apresentar dentro da comissão de atletas? Só que a gente se inscreveu e, assim, fui a terceira mais votada", relembrou.
Dentro da CBJ, a brasiliense já fazia parte da comissão de atletas da entidade e passou a adquirir novas experiências na gestão esportiva. "Estou superapaixonada. Recentemente, fiz um curso de gestão avançada, que ampliou, 10 vezes mais, e aí eu vi o tanto que a gente pode, sim, contribuir", contou.
Na correria da vida de uma atleta, são as pequenas coisas que acabam fazendo falta. Para Ketleyn, a rotina do alto rendimento cobra do esportista escolhas diárias e, muitas vezes, o afastamento do convívio familiar e da própria comunidade. Agora, ela aproveita a transição para se capacitar, descobrir novos caminhos e retribuir ao esporte que lhe deu tanto. E também descobriu o prazer de simplesmente estar em casa.
"Estou gostando de ficar em casa e decorá-la como um lar mesmo, porque, na vida de atleta, passamos quase o tempo todo no clube. Era a minha única realidade. Hoje, estou tendo esse tempo maior para viver mesmo, ter uma vida social", brincou.
Ketleyn Quadros encerra a carreira competitiva sem tratar a aposentadoria como um ponto-final. O tatame deu lugar à família, à gestão esportiva e a uma rotina que, por muito tempo, ficou em segundo plano. A atleta, que aprendeu a conviver com pressão, viagens e renúncias, agora encara outro desafio: descobrir o que existe depois de três décadas vivendo para o judô.
"Sempre curti 100% do meu processo. Se Deus me livre acontecer uma coisa, uma lesão que não dê para você voltar, estou super bem realizada. Eu sempre estive muito bem realizada e eu acho que, por me sentir assim, foi dando mais leveza para o processo", declarou.
*A repórter viajou a convite do Comitê Olímpico do Brasil (COB)
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