Rebeca Andrade descobriu que existe, sim, vida fora dos ginásios. E ela coube em muitos papéis. Capa de revista, tenista por um dia no Miami Open, garota-propaganda de grandes marcas, turista sem cronograma, romântica assumida e, por fim, novamente ginasta. Depois de se tornar a maior medalhista olímpica da história do Brasil — com dois ouros, três pratas e um bronze —, a paulista apertou o botão de pausa por quase 21 meses para experimentar um cotidiano que o alto rendimento nunca lhe permitiu viver. Agora, Brasília estende o tapete vermelho para o segundo capítulo do retorno às competições, no Campeonato Brasileiro de Ginástica Artística.
O intervalo esteve longe de representar um vazio. Pela primeira vez desde a infância, Rebeca acordou sem a obrigação de pensar em séries, aparelhos ou competições. Aproveitou férias sem contar os dias para voltar aos treinos, fortaleceu a própria imagem fora das quadras e experimentou experiências improváveis para quem passou praticamente toda a vida dentro dos ginásios.
Uma das aventuras foi nos Estados Unidos. Convidada para o Miami Open, a campeã olímpica trocou as paralelas pela raquete e viveu um dia de tenista. Bateu bola, conheceu os bastidores do torneio e mostrou que a curiosidade pelo esporte ultrapassa a ginástica. Também tietou Bia Haddad e a número um do mundo, Aryna Sabalenka. A experiência simbolizou o período sabático: mais do que descansar, Rebeca decidiu experimentar uma vida que nunca teve tempo de viver.
Ela também ocupou espaços normalmente reservados às celebridades do entretenimento. Virou capa da revista Vogue e revelou ter cogitado encerrar a carreira depois dos Jogos de Paris. Mas escolheu a pausa. O descanso se transformou em combustível para prolongar a trajetória até Los Angeles-2028.
Em abril de 2025, Rebeca se tornou a primeira brasileira a conquistar um Prêmio Laureus, considerado o "Oscar do Esporte", ao ser eleita a atleta que protagonizou o retorno do ano. A homenagem coroou não apenas as três cirurgias no joelho superadas anteriormente, mas também a trajetória que a transformou em um dos maiores nomes da história do esporte olímpico nacional.
A pausa nunca foi encarada como um afastamento definitivo, mas como uma necessidade. "A Rebeca de 2024 era uma Rebeca muito grata. Eu tive um ano incrível e não tenho do que reclamar. Foi maravilhoso, mas também pensava nesse descanso, que era importante ter. Acho que foi a melhor decisão que já tomei na minha vida em relação ao esporte", resumiu.
O período sabático também consolidou Rebeca como um dos nomes mais valiosos do marketing esportivo brasileiro. Depois de Paris, a ginasta ampliou a carteira de patrocinadores, além de protagonizar novas campanhas nacionais de parceiros. A atleta, que dividia o tempo entre treinos, competições e fisioterapia, passou a ocupar espaços antes restritos às grandes estrelas do entretenimento.
O sucesso também migrou para as telas dos celulares. Rebeca chegou ao retorno com 9,5 milhões de seguidores no Instagram. Entre os clubes da Série A, apenas Flamengo e Corinthians reúnem mais fãs na plataforma. A maior medalhista olímpica do Brasil deixou de ser apenas uma referência da ginástica para se transformar em um dos rostos mais influentes do esporte nacional.
Rebeca viveu férias como nunca havia experimentado. Sem a obrigação de interromper o descanso, percorreu destinos na Ásia, na Europa e no Brasil. Mergulhou com tartarugas em Bali, explorou trilhas e cachoeiras no Sul do país, passeou de barco ao lado da amiga e capitã da Seleção Brasileira de vôlei, Gabi Guimarães, na costa espanhola, e até passou por um susto ao quase ter o celular levado por um macaco durante uma visita à Tailândia.
Durante a pausa, Rebeca assumiu publicamente o relacionamento com a empresária Gisele, trocando declarações nas redes sociais e abrindo uma parte da intimidade que sempre preservou ao longo da carreira.
A nova fase também mudou a forma como Rebeca encara a carreira. A despedida do solo é o maior símbolo da transformação. Em vez de insistir no aparelho mais desgastante, optou por preservar os joelhos para chegar em condições ideais aos Jogos de Los Angeles-2028. A cautela também orienta o planejamento da comissão técnica. Segundo o treinador Francisco Porath, o Chico, o retorno foi desenhado para priorizar inicialmente o salto, como no Pan-Americano de junho, no Rio. Os demais aparelhos serão retomados gradualmente, sem comprometer a evolução física.
O Campeonato Brasileiro no DF
O Campeonato Brasileiro de Ginástica Artística será disputado de 7 a 9 de setembro, no Ginásio Nilson Nelson, e reunirá 93 atletas de 14 clubes. Os ingressos estão à venda na plataforma Ingresse, com preços de R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40 (inteira). Segundo a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), mais de 15 mil entradas já foram comercializadas. A competição faz parte da preparação para o Campeonato Mundial de outubro, em Roterdã, na Holanda. Além de Rebeca Andrade, o público poderá acompanhar Flávia Saraiva, Lorrane Oliveira, Arthur Nory, Caio Souza e Diogo Soares.
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