
Por Sebastián Roggerro* - Lionel Andrés Messi se retira da seleção argentina e, com ele, termina uma maneira de olhar para o futebol. Algum dia alguém perguntará como era vê-lo jogar ao vivo, como era esperar que recebesse a bola, como podia ser que um homem "tão pequeno" fizesse coisas "tão enormes".
Permanecerão seus gols, seus títulos, seus recordes. Mas não ter sido contemporâneo de Messi será uma marca. Porque o mundo se dividirá entre aqueles que viram Messi jogar e aqueles que não viram. Assim de exagerado. Assim de verdadeiro. Messi não foi apenas um futebolista extraordinário. Foi uma experiência geracional. Uma dessas pessoas capazes de atravessar 20 anos de história sem pedir licença, instalando-se no cotidiano de milhões até se tornar parte da vida cotidiana.
O Messi de 17 anos falava pouco, parecia ainda jovem demais para um cenário daquele tamanho e só queria jogar pela Argentina. Depois, ele cresceu. Depois, as pessoas cresceram com ele. E viram como ele construiu etapas.
De promessa a astro, de astro a capitão, de capitão a campeão do mundo. Viram-no perder finais, receber críticas, chorar, voltar, insistir, vencer. Viram-no carregar uma camisa que durante anos pareceu pesar toneladas para, finalmente, transformá-la em uma das imagens mais felizes da história: a da Copa do Mundo de 2022.
Então, sua aposentadoria não pode ser medida apenas em partidas. Aposenta-se tudo aquilo que Messi significa.
Com esse peso, Messi escreveu uma carta de próprio punho e tirou uma foto para publicá-la no feed de sua conta no Instagram.
Tudo dito. O que se viu com Messi não se vê com frequência: como uma pessoa podia mudar com o tempo sem deixar de ser ela mesma.
E, talvez, esse tenha sido o dom que mais encantou. Messi foi a Argentina. Messi foi a bandeira da Argentina. As argentinas e os argentinos eram queridos por Messi. Isso é aura. Aura de verdade, não a das redes sociais. A aura "tangível". É que Messi não pertence apenas ao futebol argentino. Pertence à lenda argentina.
Está nas camisas guardadas. Nas fotos das Copas do Mundo. Nas comemorações. Nos xingamentos depois de uma final perdida. Como a última, contra a Espanha. Embora a história coloque acima de tudo a lembrança do Catar. Daquele Messi no Lusail beijando a taça. Essa é a foto de todas as fotos. Messi e a taça são Messi e Argentina. Para sempre.
Virão outros jogadores. Virão outros capitães. Virão outras Copas do Mundo. Alguém vestirá a 10. Alguém fará gols. Alguém será escolhido como o novo grande jogador argentino. Mas ninguém poderá repetir algo que Messi já fez.
A Argentina continuará tendo camisa. Continuará tendo hino, bandeira, torneios, eliminatórias e jogadores capazes de emocionar. Continuará existindo tudo aquilo que existia antes de Messi. Mas aquela certeza já não existirá. Porque Messi foi uma dessas coisas que pareciam eternas simplesmente porque duraram tempo demais. Ele será uma dessas fronteiras que permitem explicar uma época: antes de Messi; depois de Messi.
É a "cultura Messi", aquela que modificou a relação com a seleção. Ensinou a esperar. A insistir. A perder sem abandonar. Há jogadores que conquistam títulos e jogadores que se tornam uma medida do tempo. Messi está nesses dois universos. Por isso dói.
Termina a era de Messi. Começa a da Argentina sem ele. Os ídolos não são eternos. O que deixam, sim. Messi se aposenta da seleção. E ao mundo resta aquilo que o tempo não poderá tirar dele: as memórias de Messi.
*Editor adjunto da editoria de Esportes do diário La Voz del interior de Córdoba, Argentina. Cobriu as Copas de 2022 e 2026

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