ESPORTES

Brasiliense conquista dois ouros no Japão e assume liderança no jiu-jítsu

Treinada por academia em Águas Claras, Maria Clara superou um burnout através do jiu-jitsu e virou número um do mundo

Maria Clara Barreto levou menos de dois meses para descobrir o que significava, na prática, competir como faixa-preta. A estreia na nova graduação ocorreu no Mundial da Sport Jiu-Jitsu International Federation (SJJIF), em Tóquio, onde a brasiliense venceu as três lutas que disputou. Todas terminaram antes do fim por finalização.

Aos 25 anos, ela deixou o Japão com duas medalhas de ouro, o cinturão do Absoluto e a liderança do ranking mundial feminino da entidade, com 469 pontos.

A competição, realizada entre 3 e 6 de setembro, foi a primeira de Maria como faixa-preta. Ela venceu as categorias Feminino Adulto Faixa-Preta Médio-Pesado e Absoluto e abriu vantagem sobre a japonesa Natsuki Takamoto, que soma 350,78 pontos, e a brasileira Gabrieli Pessanha, com 348.

A vitória no Absoluto também garantiu à atleta uma vaga para outra competição nas Ilhas Marianas, que terá premiação de US$ 10 mil para os campeões.

Carol Verri/Material cedido ao Correio - A conquista dos dois ouros no Mundial garantiu à atleta a liderança do ranking feminino da SJJIF, com 469 pontos

O resultado chega quase dez anos depois de Maria ter colocado os pés pela primeira vez em um tatame. Mas, para chegar ao Mundial em condições de disputar títulos, ela precisou enfrentar uma questão que ia além da preparação esportiva: descobrir se seria possível transformar o jiu-jitsu em profissão.

"Eu acho que o mais difícil foi entender que eu poderia viver do jiu-jitsu e acreditar em mim mesma, de que eu seria capaz disso."

Entre o trabalho e o tatame

Durante boa parte da trajetória, Maria precisou conciliar os treinos com um emprego formal. A situação se tornou mais exigente a partir da faixa-roxa, quando passou a investir com maior intensidade nos campeonatos de alto nível e começou a ganhar destaque na categoria.

A rotina incluía jornadas de nove ou dez horas de trabalho, treinos e ainda a produção de conteúdo para a internet. O tempo que sobrava precisava ser dividido entre todas essas atividades.

Para a atleta, o problema não era apenas conseguir treinar. As competições também exigiam recursos para inscrições, viagens e hospedagens, especialmente quando disputadas fora do país. A necessidade de escolher entre tempo e dinheiro acompanhou a carreira durante anos.

"Ou o atleta não tem trabalho, tem tempo para treinar, mas tem muita dificuldade para pagar suas contas e seus investimentos como atleta, ou ele tem trabalho, mas não tem tempo suficiente para treinar", comenta.

Foi nesse cenário que as redes sociais passaram a ser vistas por Maria como uma possibilidade de sustentar a carreira esportiva. No ano passado, ela decidiu deixar o emprego e apostar no jiu-jitsu. A escolha contrariava uma trajetória de independência construída desde cedo: aos 20 anos, havia saído de casa e começado a trabalhar para se sustentar.

"Foi uma decisão muito difícil, porque eu sempre fui uma pessoa muito independente. Com 20 anos eu saí de casa, comecei a trabalhar, a morar sozinha. Nunca tive mesada de pai, de mãe. Minha família não é rica nem nada disso. Então, eu sempre me virei muito sozinha."

A aposta no jiu-jitsu

Os resultados vieram neste ano. Antes dos dois títulos mundiais, Maria havia sido campeã brasileira, tricampeã sul-americana e medalhista de bronze no Campeonato Europeu de 2026, disputado em Portugal. A sequência ajudou a confirmar que a aposta feita no ano anterior poderia se transformar em uma carreira.

No Japão, porém, havia uma novidade que fazia diferença também fora do tatame. Pela primeira vez em uma década de prática do esporte, Maria viajou para uma competição internacional sem precisar pagar pela estrutura necessária para participar dela. A passagem, a inscrição, a hospedagem e a alimentação foram custeadas por meio do Instituto Esporte com Propósito, iniciativa fundada pelo atleta Matheus Oliveira.

O instituto, sediado em Goiânia, articulou o apoio de empresas privadas para levar ao Japão uma delegação formada por atletas e uma federação. Maria foi uma das quatro atletas beneficiadas pelo projeto. Para ela, a iniciativa representa uma mudança importante justamente porque enfrenta uma das principais barreiras para quem tenta construir uma carreira no esporte: o custo de competir.

"Ele conseguiu conectar várias e várias marcas para que apoiassem. Então, empresas privadas apoiaram esse projeto e, além de mim, outros três atletas e uma federação foram para o Japão."

A primeira iniciativa do Instituto Esporte com Propósito terminou com todos os atletas da delegação campeões. Matheus Oliveira também conquistou dois títulos mundiais; o sensei Toshio levou duas medalhas e um cinturão; e Diogo Acioli voltou com uma medalha e um anel de ouro. O projeto pretende, além de viabilizar participações em competições, ampliar a exposição dos atletas, fortalecer a produção de conteúdo e criar oportunidades por meio do esporte.

 

Carol Verri/Material cedido ao Correio - Pelo Instituto Esporte com Propósito, Maria Clara integrou a delegação ao lado do fundador, Matheus Oliveira, do mestre Fernando Toshio e do atleta Diogo Aciolle

Para Maria, a experiência no Japão mostrou na prática o impacto que esse tipo de apoio pode ter na trajetória de um atleta que, até então, vinha financiando a própria carreira.

"Então, pela primeira vez, em 10 anos que eu treino jiu-jitsu, eu tive uma oportunidade como essa. Então, para você ver como as coisas são muito difíceis no jiu-jitsu."

A viagem não significou, entretanto, uma preparação de última hora. Maria mantém uma rotina de três a quatro treinos por dia, que pode incluir jiu-jitsu, musculação, cardio e aulas particulares. Também conta com acompanhamento especializado em nutrição, preparação física e fisioterapia. Como a agenda competitiva permanece ativa durante praticamente todo o ano, ela diz que está sempre se preparando para o próximo desafio.

Para o Mundial, uma das principais mudanças foi concentrar ainda mais atenção no condicionamento físico e na alimentação. Tecnicamente, Maria considerava que já estava preparada. O desafio, então, era chegar ao Japão em condições de executar aquilo que havia treinado, mesmo diante da diferença de 12 horas entre Brasília e o país asiático e das condições climáticas do fim do verão japonês.

Ela começou a se adaptar assim que chegou. Procurou uma academia de jiu-jitsu e manteve os exercícios antes das lutas. No tatame, levou uma estratégia que vinha repetindo nos treinos: um jogo de guarda com lapela, técnica que também serviu de base para um curso lançado recentemente pela atleta.

"Eu vim fazendo em todos os meus treinos somente esse jogo, somente essa raspagem, e eu cheguei lá e eu consegui fazer isso."

O jogo para o Mundial

A estratégia apareceu nas três lutas. Maria conseguiu executar a raspagem com o jogo de lapela e, depois, buscou finalizações que já fazem parte de seu repertório desde a faixa-branca, como o triângulo e o armlock. O resultado foi a sequência de três vitórias que terminou com os dois ouros.

Mais importante do que repetir movimentos já conhecidos, porém, era a possibilidade de testar uma parte diferente do próprio jogo. Maria queria sair do padrão ao qual estava acostumada e verificar se conseguiria competir da maneira que havia planejado.

"Às vezes, mesmo quando a gente é campeão, a gente não se sente bem porque sente que não explorou o nosso jogo e as nossas habilidades o suficiente. Então, às vezes, isso é frustrante. A gente não quer só a vitória, a gente quer se sentir bem durante a luta ali."

Mais do que uma vitória

A relação com o jiu-jitsu, para Maria, nunca esteve restrita aos títulos. Ela começou a praticar aos 16 anos porque buscava uma atividade com a qual realmente se identificasse. A modalidade acabou se tornando parte de sua vida e também a aproximou de uma comunidade esportiva que considera fundamental para sua formação.

É aí que Brasília aparece como uma peça importante da trajetória de Maria. A capital tem uma tradição consolidada no jiu-jitsu, segundo ela, que cita atletas e professores que ajudaram a construir esse ambiente ao longo de décadas. Entre suas referências estão Andressa Guiral, Ana Laura e o professor Jucão, além de Juliano Leiro, responsável pela Gracie Barra Águas Claras e Gracie Barra Norte e seu professor.

João Barreto/Material cedido ao Correio - Com menos de dois meses de faixa-preta, a brasiliense garantiu dois ouros em Tóquio

Foi Leiro quem a incentivou a voltar aos treinos depois de um período de três anos afastada durante a pandemia. O retorno acabou marcando o início de uma nova fase competitiva. Desde então, Maria passou a contar também com o apoio dos colegas de academia, que acompanham suas lutas, ajudam nos treinos e participam da preparação.

"Foi ele que me trouxe de volta e fez surgir essa campeã."

A preparação para o Mundial teve ainda a participação do professor Diogo Diniz, responsável por aulas particulares que ajudaram a lapidar o jogo apresentado por Maria no Japão. Para a atleta, a medalha não pode ser atribuída apenas a quem sobe com ela no tatame no momento da luta. Há uma rede de pessoas envolvida em cada conquista.

"A gente não entra sozinho. Apesar de a gente entrar sozinha ali na hora da luta, ninguém treina sozinho."

Essa perspectiva também aparece na maneira como Maria encara a liderança do ranking mundial. Embora o resultado tenha aumentado sua visibilidade, ela não pretende transformar os títulos em uma obrigação de vencer todas as próximas competições. Em outro momento da carreira, a pressão por resultados chegou a afetar a relação que tinha com o esporte.

"Eu já caí muitas vezes na cilada de que eu deveria ter uma responsabilidade, eu deveria ter a obrigação de ganhar. E, quando eu passei a pensar dessa forma, isso me adoeceu e fez o jiu-jitsu não ser tão bom quanto era antes."

Agora, o objetivo é continuar competindo sem perder o prazer que a levou ao esporte. Maria já tem o Sul-Americano no calendário e pretende começar a construir um ranking na International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF), entidade pela qual acumula títulos brasileiros e sul-americanos, além de medalhas europeias e mundiais. A intenção é somar pontos para disputar, no próximo ano, as principais competições do circuito.

Mais mulheres no BJJ

A visibilidade conquistada nos tatames também é usada por Maria para ampliar a presença feminina no esporte. Durante os primeiros anos, era comum que ela fosse a única mulher ou estivesse acompanhada de apenas uma colega em treinos com dezenas de pessoas. O cenário mudou depois da criação de uma turma exclusivamente feminina na academia onde treina. A classe, da qual Maria é uma das professoras, existe há dois anos e passou a atrair novas praticantes.

Nas redes sociais, ela procura mostrar que a identidade de uma mulher não precisa ser separada da condição de atleta. Maria fala sobre o esporte, mas também mostra aspectos de sua rotina e de sua personalidade que fogem da imagem tradicionalmente associada às lutadoras.

"Eu tento mostrar muito um lado feminino, que eu gosto de me maquiar, que eu gosto de ser vaidosa comigo mesma, mas que, ao mesmo tempo, eu posso ser uma campeã de jiu-jitsu, eu posso ser faixa-preta de jiu-jitsu."

A atleta também chama atenção para a importância de escolher com cuidado o local onde começar a treinar. A presença de outras mulheres e a maneira como elas são tratadas, segundo Maria, podem ajudar a identificar se o ambiente é acolhedor. Ela considera que comportamentos aparentemente pequenos, como piadas que diminuem as mulheres, podem contribuir para tornar o espaço hostil.

"Se tem poucas mulheres, se não tem muitas mulheres graduadas ali, pode ser um ambiente que de fato talvez não seja interessante para ela."

Maria defende que o jiu-jitsu pode oferecer às mulheres benefícios que vão muito além da capacidade de defesa. Para ela, o esporte também pode ser um espaço de convivência, atividade física e desenvolvimento da confiança. A própria experiência é usada como exemplo: depois de um período difícil, foi nos tatames que encontrou uma maneira de reconstruir a rotina.

"Eu tive um burnout e uma depressão e foi o jiu-jitsu que me salvou disso há quatro anos atrás."

É também por essa experiência que Maria prefere não apresentar o jiu-jitsu apenas como uma ferramenta de defesa pessoal. Ela acredita que a modalidade pode modificar a forma como uma pessoa se posiciona diante de diferentes situações e fortalecer a confiança para estabelecer limites.

"Hoje, como faixa-preta, o jiu-jitsu me ensinou a saber onde eu me cabe e onde não me cabe, a ter uma postura em que eu não aceito qualquer coisa das pessoas."

Aos 25 anos, Maria começa a nova fase da carreira carregando dois títulos mundiais recém-conquistados, a liderança de um ranking internacional e uma agenda que já aponta para as próximas competições.

O resultado em Tóquio representa, ao mesmo tempo, a confirmação de uma escolha profissional, o reconhecimento do trabalho construído em Brasília e a oportunidade de ampliar uma trajetória que ela pretende dividir com outras mulheres.

"Então, para outras meninas que quiserem aprofundar mais, entender melhor, se quiserem me mandar uma mensagem ou olhar lá os meus conteúdos, eu falo muito sobre isso também."

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