Copa do Mundo

Interferência de Donald Trump coloca credibilidade da Copa em xeque

Donald Trump admite publicamente pressão sobre a Fifa pela anulação do cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus em Balogun na fase de 16 avos. Expulsão é cancelada, federações da Bélgica e do Brasil reagem e o atacante é escalado nas oitavas

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Marcos Paulo Lima — Enviado especial
07/07/2026 05:00
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Donald Trump agiu nos bastidores para viabilizar a participação da Balogun na partida responsável por eliminar os norte-americanos do torneio -  (crédito: Mandel Ngan/AFP)
Donald Trump agiu nos bastidores para viabilizar a participação da Balogun na partida responsável por eliminar os norte-americanos do torneio - (crédito: Mandel Ngan/AFP)

Nova Jersey — Nunca antes na história quase centenária da Copa do Mundo o presidente da Fifa ficou tantas vezes exposto na relação com o Chefe de Estado de um país sede. Depois de premiar o presidente dos EUA, Donald Trump, com o Prêmio da Paz criado no ano passado pela entidade máxima do futebol, entregue durante o sorteio dos grupos do torneio, em Washington; e do desgaste diplomático causado pela guerra contra o Irã e as restrições à delegação do país nos jogos realizados em solo estadunidense, Gianni Infantino viu o político se intrometer na seara esportiva, especialmente no Comitê Disciplinar.

Trump admitiu publicamente ter influenciado na anulação do cartão vermelho mostrado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus a Folerin Balogun depois de uma disputa de bola na qual o jogador deu um pisão no calcanhar do zagueiro bósnio Tarik Muharemovic. Claus foi ao VAR e aplicou a expulsão. Inconformado, Donald Trump entrou em contato com Infantino e solicitou a anulação da punição na tentativa de liberá-lo para a partida contra a Bélgica.

A Fifa revisou o castigo e a resposta da entidade foi comemorada por Trump nas redes sociais. “Obrigado à Fifa por fazer o que é certo e reverter uma grande injustiça”, publicou. A entidade informou ter usado o Artigo 27 do Regulamento da Copa para fazer a revisão. O texto diz prevê que o “órgão judicial pode suspender total ou parcialmente a aplicação de uma medida disciplinar”. O Artigo 10.5 estabelecia sanção automática de uma partida.

Depois, em um evento, Trump deu mais detalhes sobre a ação nos bastidores em nome da seleção do país dele, comandada pelo argentino Mauricio Pochettino. “Sim, eu pedi uma revisão à Fifa. Falei com um homem que é muito respeitado e, por acaso, seu nível de respeito aumentou 10 vezes. Fui eu quem os fez fazer isso (mudar decisão). Não foi o Biden. O Biden estava dormindo”, ironizou o presidente dos EUA. Gianni Infantino reagiu por meio de uma nota oficial (leia o documento na íntegra).

A influência nos bastidores virou uma bola de neve com ataques ao juiz brasileiro. O árbitro (Raphael Claus) é um pouco suspeito, se você verificar seu passado... Eu não quero dizer isso porque eu não gosto de criar controvérsia, mas ele é muito suspeito. Se você quiser, eu vou te mostrar o passado dele. Ele tomou uma decisão que ninguém acreditou, sabe? Mesmo os adversários. Eles disseram: 'oh, nós tivemos sorte, uau!’”, disparou.

Alheio às regras do torneio disputado no país dele, Trump desconhecia a relevância de um cartão vermelho no futebol. Incentivado a comprar a briga, o presidente iniciou as articulações. Ele (Balogun) não fez nada de errado, é nosso melhor jogador. Eu não sabia o que isso significava (cartão vermelho), não achei que significasse muito. Comecei a ouvir que isso significa que você não pode jogar no próximo jogo. Eu disse: 'cara, isso é pesado'”.

Duas federações se manifestaram em meio ao imbróglio. A Confederação Brasileira de Futebol publicou nota oficial em defesa de Raphael Claus. “A CBF refuta qualquer insinuação que coloque em dúvida a integridade de Raphael Claus. Trata-se de um profissional exemplar, cuja carreira é amplamente respaldada por avaliações técnicas, desempenho consistente e confiança das principais competições nacionais e internacionais, manifestou-se a entidade. O Correio entrou em contato com Claus, mas o juiz não havia respondido até o fechamento desta edição.

Essa não é a primeira polêmica do governo de Donald Trump com a arbitragem na Copa. Antes do início do torneio, o juiz somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor de 2025, teve o visto negado e foi deportado pelas autoridades de imigração dos Estados Unidos.

Federação Belga

Adversário dos EUA nas oitavas de final na segunda-feira (6/7), a Bélgica apresentou recurso contra a reviravolta na expulsão de Balogun, mas teve o pedido indeferido pelo Comitê Disciplinar. “A Real Associação Belga de Futebol (RBFA) recebeu a decisão do Comitê de Apelação da Fifa, assinada por seu membro, Sr. Salman Al-Ansari, que declara o caso da RBFA inadmissível e confirma a decisão anterior que permitiu a participação do jogador dos Estados Unidos, Folarin Balogun. Até o momento, a RBFA ainda não recebeu nenhuma justificativa para essa decisão, nem as informações que vem solicitando desde o início do processo, ou seja, uma cópia da decisão e da justificativa que declara o jogador elegível, bem como o relatório do árbitro. Isso constitui uma violação dos regulamentos da Fifa”, diz.

Antes do jogo de ontem, a Federação Belga comunicou que tomaria as medidas cabíveis se Balogun fosse escalado para enfrentar os EUA. Blindado por Trump, Mauricio Pochettino escalou o atacante. “A RBFA informou à Federação de Futebol dos Estados Unidos que contesta a elegibilidade do jogador, caso ele conste na lista de convocados do árbitro. Isso deixa todas as medidas cabíveis em aberto”, avisou a entidade.

O que disse Gianni Infantino, presidente da Fifa

Vi os comentários sobre a decisão do Comitê Disciplinar independente da FIFA relacionada à suspensão de Folarin Balogun, e gostaria de reiterar um princípio fundamental da governança da FIFA.

Os órgãos judiciais da FIFA são independentes. Eles operam de forma autônoma, aplicam o Código Disciplinar da FIFA e decidem os casos com base nas regulamentações aplicáveis e nos fatos específicos diante deles. Sua independência é essencial para a credibilidade e a integridade do futebol, e isso deve sempre ser respeitado.

Sim, eu discuto regularmente assuntos relacionados à Copa do Mundo da FIFA com o Presidente dos Estados Unidos, e nesse caso, recebi uma ligação do Presidente Donald Trump, assim como recebo ligações de chefes de Estado, funcionários governamentais, partes interessadas no futebol e executivos empresariais de todo o mundo sobre muitos temas diferentes. Durante nossa conversa, expliquei que havia um processo legal em andamento envolvendo os órgãos judiciais independentes da FIFA e que o caso seria decidido no devido tempo pelos órgãos competentes. É assim que o sistema da FIFA funciona, e é um princípio que eu sempre defenderei.

Eu leio as decisões do Comitê Disciplinar da FIFA quando elas são emitidas. Às vezes, fico surpreso com elas. Às vezes, concordo com elas, e às vezes, discordo.

O que eu sempre faço, no entanto, é respeitar essas decisões e a autonomia dos órgãos que as tomam. Se gostamos pessoalmente de uma decisão ou não é irrelevante. O respeito pelas instituições independentes e pelo Estado de Direito é o que protege a integridade de nossas competições e a credibilidade da FIFA em todos os momentos.

Nota da Fifa

A FIFA reconhece Raphael Claus como um dos principais árbitros profissionais do mundo e um membro valioso da "Equipe Um" na Copa do Mundo da FIFA. Ao longo de sua carreira, ele demonstrou consistentemente os mais altos padrões de profissionalismo e integridade.

Pierluigi Collina, Diretor de Arbitragem da FIFA e presidente da Comissão de Arbitragem, afirmou: "Raphael Claus está arbitrando em sua segunda Copa do Mundo da FIFA, tendo participado conosco no Catar em 2022. Ele é um árbitro experiente e altamente respeitado, e mantemos total confiança nele como um oficial de arbitragem de absoluta credibilidade."

MEMÓRIA — O vermelho anulado de Garrincha

Expulso pelo árbitro peruano Arturo Yamazaki na vitória do Brasil por 4 x 2 contra o Chile nas semifinais da Copa do Mundo de 1962, o ponta-direita da Seleção foi liberado para jogar a decisão depois de uma controversa reviravolta. No mesmo jogo, o chileno Honorito Landa havia recebido cartão vermelho, foi suspenso pelo Tribunal da Fifa e não enfrentou a Iugoslávia na decisão do terceiro lugar.

Na mesma sessão, foi analisado o caso de Garrincha. O relatório do juiz era curto e grosso: ele não tinha visto o pontapé de Garrincha em Rojas. Alertado pelos jogadores do Chile, consultara o bandeirinha uruguaio Esteban Marino, e ele confirmou o fato. Convidado a depor, ele desapareceu.

Ele havia deixado Santiago com destino incerto. Por falta de provas, Garrincha foi apenas advertido e liberado para enfrentar a Tchecoslováquia na decisão do título. Tempos depois, surgiram comentários de que a súbita viagem havia sido patrocinada pela CBD. Um mês depois da Copa ele foi contratado pela Federação Paulista de Futebol — cujo presidente, João Mendonça Falcão, estava no Chile como convidado de honra da CBD.