COPA DO MUNDO 2026
Espanha domina Argentina e conquista o bicampeonato da Copa Mundo
Europeus não dão a bola aos sul-americanos, vencem na prorrogação e encerram ciclo invicto contra os campeões mundiais
COPA DO MUNDO 2026
Europeus não dão a bola aos sul-americanos, vencem na prorrogação e encerram ciclo invicto contra os campeões mundiais

Nova Jersey — A bola gosta de quem a trata com carinho, zelo e não a despreza. Em tempos de excesso de jogadas pelas pontas e pouca intimidade para trabalhá-la com passes curtos e dribles em espaços reduzidos, ela ainda sabe reconhecer quem a respeita. A Espanha fez da posse de bola um manifesto, controlou 69% do jogo, venceu a Argentina por 1 x 0 e conquistou o segundo título da Copa do Mundo.
Nem quem trata a bola com tanto carinho escapa dos apuros. Mais uma vez, a Espanha precisou atravessar os 120 minutos entre o tempo regulamentar e a prorrogação. Aquela geração ainda era de garotos quando Andrés Iniesta deixou a condição de armador para vestir a pele de centroavante e marcar, aos 116 minutos, o gol do primeiro título mundial, contra a Holanda, na África do Sul. Agora, era a vez deles escreverem a própria história.
E a história escolheu o camisa 7 espanhol. Ferran Torres marcou, aos 106 minutos, o gol que valeu o bicampeonato. Ele ainda estufou as redes pela segunda vez, mas estava em posição irregular.
O título é um brinde à seleção que conhece a própria identidade e se recusa a abrir mão dela. A filosofia cultivada desde as categorias de base — e compartilhada também pelo futebol feminino — encontrou a consagração definitiva. Com a conquista, a Espanha tornou-se a primeira nação a reunir simultaneamente as Copas do Mundo masculina e feminina. Depois do título inédito das mulheres, em 2023, La Roja passou a reinar nos dois universos do futebol.
A Argentina não era um adversário qualquer. Era a atual campeã mundial, bicampeã da Copa América e tinha Lionel Messi em campo. Nada disso intimidou a Espanha. Ao contrário: reforçou a convicção de manter a bola nos pés do início ao fim. La Roja monopolizou a decisão e transformou a final em um exercício de domínio. Quem esperava repetir o roteiro eletrizante de Argentina x França, em 2022, encontrou uma partida completamente diferente: menos caótica, muito mais controlada.
A Espanha pintou o sete de 2023 para cá. Bordou a segunda estrela com honra ao mérito: atravessou o ciclo invicta contra os outros sete campeões mundiais. Venceu Itália, Alemanha, Uruguai, França, Inglaterra, Argentina e só não derrotou o Brasil, responsável pelo empate por 3 x 3 no Santiago Bernabéu.
O time de Luis de la Fuente ainda colecionou outro feito. Tornou-se o campeão com a defesa mais eficiente dos 96 anos da Copa do Mundo. Sofreu apenas um gol — diante da Bélgica, nas quartas de final — e superou as campanhas da Itália de 2006, da França de 1998 e da própria Espanha de 2010, todas vazadas duas vezes. Antes do torneio, Carlo Ancelotti havia resumido a receita: defesas ganham títulos.
O drama argentino das viradas e das prorrogações atravessou mais uma tarde. Só deu um chute e fora do alvo e se apegou à organização defensiva. A equipe de Lionel Scaloni precisou resistir praticamente com oito jogadores atrás da linha da bola. A expulsão de Enzo Fernández, nos acréscimos do segundo tempo, e a opção de preservar Lionel Messi da recomposição transformaram a reta final em um exercício de sobrevivência.
O goleiro Dibu Martinez precisou fazer 11 defesa. O meia Enzo Fernández foi expulso devido ao segundo cartão amarelo e obrigou o time a jogar com 10 em campo, mas oito na recomposição. Motivo: Lionel Messi anda em campo quando não tem a bola e prejudica a recomposição.
A confiança de Luis de la Fuente na própria ideia ficou evidente até na escalação. Pela primeira vez desde que assumiu a seleção, em março de 2023, repetiu a mesma equipe titular em três partidas consecutivas.
Quem foi ao MetLife Stadium esperando um espetáculo do nível Broadway assistiu, no primeiro tempo, ao show de hipnose da posse de bola espanhola. La Roja monopolizou o roteiro com um toque de bola natural, abriu clarões na defesa argentina e explorou principalmente o lado esquerdo, entre Tagliafico e Nicolás González. Foi justamente por ali que Lamine Yamal apareceu mais vezes, embora tenha desperdiçado boas oportunidades com lançamentos longos demais e domínios mal executados. A principal chance foi quando invadiu a área pela esquerda e ajeitou o corpo para a defesa de Dibu Martínez, depois de desvio em Lisandro Martínez.
A superioridade espanhola também se refletiu nos números. La Roja encerrou o primeiro tempo com 65% de posse de bola contra 35% da Argentina, repetindo um cenário semelhante ao do Brasil diante da Noruega nas oitavas de final. Aceitou correr riscos. O domínio se transformou em oportunidades. Oyarzabal obrigou Dibu Martínez a fazer a segunda defesa da partida após uma construção coletiva, e Cucurella apareceu livre pela esquerda para finalizar cruzado com perigo.
O roteiro quase ganhou um capítulo de controvérsia quando Mac Allister acertou um carrinho em Dani Olmo. O árbitro inverteu a infração e sequer advertiu o argentino. A permissividade com as faltas da Albiceleste se tornou uma das marcas do primeiro tempo. No fim da etapa, Lionel Scaloni ajustou a marcação pelo lado esquerdo, fechou os espaços para Lamine Yamal e conseguiu reduzir o domínio espanhol até o intervalo.
As três finalizações do primeiro tempo resumem a pobreza técnica da etapa inicial. É o menor número registrado em uma final de Copa do Mundo desde 1966, na Inglaterra. Pela primeira vez neste Mundial, a Argentina passou os 45 minutos iniciais sem acertar um chute sequer. A média da equipe de Lionel Scaloni era de quatro finalizações antes do intervalo.
A responsabilidade é dos jogadores, mas também pode ser dividida com o gramado do MetLife Stadium. O piso voltou a ser alvo de críticas, como havia acontecido com Brasil e França ao longo da Copa. Seco demais, provocava quique excessivo da bola e dificultava a troca de passes. Nem a irrigação durante a pausa para hidratação resolveu o problema. Na tentativa de melhorar as condições, um integrante da comissão técnica da Espanha chegou a direcionar um dos irrigadores para uma área específica do campo.
O que realmente não fez bem ao gramado foi o show do intervalo. Pela primeira vez na história da Copa do Mundo, a decisão ganhou um espetáculo inspirado no tradicional halftime do Super Bowl. A apresentação reuniu Madonna, o maestro Gustavo Dudamel, o grupo sul-coreano BTS e o cantor Justin Bieber, além de personagens da série Ted Lasso.
O momento mais simbólico veio nos minutos finais. Imagens de Pelé pronunciando a palavra “love” (amor) tomaram os telões enquanto crianças espalhadas pelo campo cantavam We Dance, música oficial da Copa escrita pelo Coldplay. A Fifa transformou o intervalo da final em um espetáculo de entretenimento à moda americana, reforçando a influência do país-sede sobre o maior torneio do futebol mundial.
Se encantou o público, o evento deixou um efeito colateral. A estrutura montada sobre o gramado e a movimentação durante o intervalo não ajudaram a recuperar um campo que já vinha sendo alvo de críticas desde o primeiro tempo. O combinado saiu caro. A Fifa havia estipulado intervalo de 17 minutos, mas o tempo total de atrações foi de 27. Ou seja, quase seis de atraso.
Lionel Scaloni não titubeou no intervalo. Sacou Nicolás González, até então responsável pelo lado esquerdo do ataque, e colocou o volante Leandro Paredes. A Argentina recuou as linhas e passou a convidar a Espanha para o jogo. La Roja aceitou o convite e retomou o espetáculo de trocas de passes, criando uma sequência de oportunidades.
Na primeira delas, Paredes errou um passe no campo de defesa. Baena recuperou a bola na intermediária, ajeitou o corpo e arriscou de fora da área. Pouco depois, Cubarsí encontrou Dani Olmo infiltrando às costas da defesa. O camisa 10 cruzou rasteiro para Cucurella, que surgia na marca do pênalti, mas Montiel se antecipou no instante decisivo e desviou para escanteio.
A Espanha dava bobeira. Tinha volume, domínio e o controle da partida, mas os talentos programados para um toque de bola refinado pareciam incapazes de concluir as jogadas com a mesma eficiência. Dois dias antes da final, Luis de la Fuente rejeitara a fama de a Argentina praticar um jogo desleal. O que se viu na primeira metade do segundo tempo, porém, foi uma sequência de divididas duras, faltas e imposição física que encontrou pouca resistência da arbitragem.
Luis de la Fuente também mexeu no time. Sacou Mikel Oyarzabal e Fabián Ruiz para as entradas de Pedri e Ferran Torres. A alteração deu resultado imediato. Ferran apareceu bem e teve excelente oportunidade de cabeça após cruzamento de Lamine Yamal. Foi o último lance do “terceiro quarto”, antes da pausa para hidratação.
Do outro lado, Lionel Scaloni demonstrava impaciência. Promoveu mais duas mudanças. Tirou Cuti Romero para a entrada de Medina na zaga e ousou ao abrir mão de Rodrigo De Paul para lançar o atacante Giuliano Simeone. O treinador argentino esgotou as cinco substituições quando o placar das finalizações apontava um contundente 9 x 0 para a Espanha. Dominante, La Roja, porém, não soube aproveitar o fato de a Argentina ter trocado toda a dupla de zaga durante a partida.
A entrada de Nico Williams deu ainda mais velocidade à Espanha. Com dois pontas dribladores abertos, a Roja transformou o domínio em uma blitz. Pedri obrigou Dibu Martínez a fazer outra defesa com um chute forte pelo centro. Logo depois, Cubarsí arriscou de fora da área, o goleiro argentino espalmou para o lado e Merino salvou a bola na linha de fundo, prolongando a pressão sobre a Albiceleste.
Foi de Nico Williams o cruzamento para a cabeçada de Laporte, com endereço certo. Dibu Martínez buscou pela sétima vez. A Espanha seguia dona da bola, mas parecia perder fôlego justamente na hora de decidir. O futebol era bonito até a entrada da área. Depois, faltava o golpe. Ferran Torres desperdiçou uma boa chance após passe por elevação, e Rodri queimou a jogada ao arriscar de longe, quando o roteiro ainda pedia mais um capítulo de paciência.
A única escapada argentina veio nos acréscimos, mas sem finalização. A dois minutos do fim, a decisão ganhou contornos dramáticos. Enzo Fernández acertou uma entrada duríssima em Cubarsí, recebeu o segundo cartão amarelo e acabou expulso. No lance anterior, Nico Williams havia finalizado de fora da área e forçado mais uma intervenção do paredão Dibu Martínez.
Sem poder fazer novas alterações, a Argentina precisou sobreviver com o que tinha. Ainda houve tempo para uma última ameaça espanhola. Em cobrança de falta frontal, Lamine Yamal obrigou Dibu Martínez a fazer a décima defesa na partida. Foi o derradeiro ato do tempo regulamentar.
Com um jogador a mais, a Espanha transformou a prorrogação em ataque contra defesa. O gol parecia questão de tempo, embora as chances continuassem desperdiçadas. No intervalo do tempo extra, Luis de la Fuente reuniu os jogadores para uma rápida conversa. A resposta veio na retomada. Ferran Torres balançou as redes e encaminhou o bicampeonato.
Ainda marcou outra vez, mas o lance foi anulado por impedimento. Nem assim a Argentina se entregou. Nos minutos finais, a Espanha recuou, e Lionel Messi voltou a levar perigo nas cobranças de escanteio, dando à decisão os últimos contornos de drama.
Espanha 1 x 0 Argentina
Final da Copa do Mundo 2026 (jogo único)
Local: MetLife Stadium, Nova Jersey (EUA)
Arbitragem: Slavko Vincic (Eslovênia)
Público: 80.663 presentes
Escalações
Espanha — Unai Simón; Pedro Porro, Pau Cubarsí, Aymeric Laporte (Eric García) e Marc Cucurella; Rodri (Zubimendi) e Fabián Ruiz (Pedri); Lamine Yamal, Dani Olmo (Mikel Merino) e Alex Baena (Nico Williams); Mikel Oyarzabal (Ferran Torres). Técnico: Luis de la Fuente
Gol: Ferran Torres, aos 106 minutos (prorrogação)
Argentina — Emiliano Martínez; Gonzalo Montiel (Nahuel Molina), Cristian Romero (Facundo Medina), Lisandro Martínez (Nicolás Otamendi) e Nicolás Tagliafico; Rodrigo De Paul (Giuliano Simeone), Alexis Mac Allister, Enzo Fernández e Nicolás González (Leandro Paredes); Lionel Messi e Julián Álvarez (Senesi). Técnico: Lionel Scaloni
Cartões amarelos: Cristian Romero, Alexis Mac Allister, Lisandro Martínez, Leandro Paredes, Enzo Fernández (dois) e Lionel Scaloni (técnico)
Cartão vermelho: Enzo Fernández