Copa do Mundo

Final é para quem acredita: as superstições de ingleses e argentinos

Está permitido recorrer a toda crendice. Vale supor que Inglaterra x Argentina em Copas é assunto para camisas 10 ou que a rota para a taça passa pelo rival em anos terminados em seis

Atlanta — Argentinos e ingleses discordam em muitas coisas. Não se entendem em outras tantas. Nesta quarta-feira (15/7), às 16h, porém, dividirão a mesma fé. Não a religiosa, mas aquela que move o futebol e transforma coincidências em superstição. O único título mundial conquistado pelos inventores do futebol como o conhecemos nasceu depois de um duelo contra a Argentina. Nas quartas de final da Copa de 1966, em Wembley, Geoff Hurst, dono da camisa 10, marcou o gol da vitória por 1 x 0 e abriu caminho para a geração liderada por Gordon Banks, Bobby Moore, Bobby Charlton e Roger Hunt levantar a taça Jules Rimet diante da Rainha Elizabeth II.

Vinte anos depois, os deuses do futebol inverteram os papéis. Coube à Argentina eliminar a Inglaterra nas quartas de final antes de conquistar o bicampeonato no México. Sim, no mesmo país que havia brindado Pelé com tri em 1970. Diego Maradona assinou dois dos capítulos mais famosos da história das Copas: La Mano de Dios e o Gol do Século. Ainda houve tempo para Gary Lineker, também camisa 10, diminuir o placar na derrota inglesa por 2 x 1.

A rivalidade, claro, não se resume a esses dois capítulos. Em 1962, José Sanfilippo marcou o gol argentino na derrota por 3 x 1 para a Inglaterra de Bobby Charlton. Trinta e seis anos depois, Batistuta, Javier Zanetti, Alan Shearer e Michael Owen assinaram o empate por 2 x 2 antes da classificação argentina nos pênaltis. Em 2002, David Beckham decidiu o último duelo em Copas. Vestia a camisa 7, mas exercia o protagonismo normalmente reservado aos camisas 10.

As coincidências, porém, insistem em olhar para 1966 e 1986. Os dois confrontos abriram caminho para um título mundial. Os dois aconteceram em anos terminados em seis. Os dois tiveram camisas 10 como protagonistas. Agora, a rivalidade entrega mais um capítulo à própria superstição. Lionel Messi veste a 10 da Argentina. Jude Bellingham, a da Inglaterra. Resta saber se a história insistirá em rimar.

Não são camisas 10 meramente ilustrativos, como foi Neymar com a Seleção Brasileira. Messi, eleito oito vezes o melhor jogador do mundo, participou diretamente de 10 dos 17 gols da Argentina nesta Copa. Esteve presente em todas as comemorações da equipe nas seis partidas disputadas. Com as eliminações de Kylian Mbappé e Erling Haaland, desponta como principal candidato à Chuteira de Ouro do Mundial.

Hey, Jude! Os Beatles inspiram. Jude Bellingham executa. Quando todas as atenções recaem sobre Harry Kane e a marcação fecha os espaços para o centroavante, o meia do Real Madrid aparece. São quatro gols em três partidas. Todos decisivos. Marcou os dois da vitória sobre a Noruega na prorrogação e havia sido o salvador diante do México, com outros dois na dramática classificação inglesa, mesmo com um jogador a menos no Estádio Azteca.

Há uma diferença que ajuda a explicar o confronto entre Inglaterra e Argentina: o ritmo. Os sul-americanos jogam no compasso do maestro Messi. O camisa 10 economiza movimentos, dita a cadência da partida e faz da Argentina a seleção que menos percorre distância entre as semifinalistas, com média de 79,5km por jogo.

A Inglaterra está no extremo oposto. Lidera o grupo dos quatro semifinalistas com 104,8km percorridos por partida e aposta na velocidade de pontas como Rashford, Saka, Gordon e Eze. Enquanto os ingleses aceleram, a Argentina prefere trocar passes, controlar a posse e fazer da bola o caminho obrigatório até Messi.

 


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