Policiais militares obrigaram alunos do Centro Educacional 01 do Itapoã (CED 01) a fazer flexões como forma de punição no pátio da escola nesta quarta-feira (25/2). O vídeo recebido pelo Correio tem 25 segundos de duração e, durante todo esse tempo, os estudantes permanecem executando a atividade.
Em fileiras longas e alinhadas, dezenas de estudantes descem e sobem o corpo repetidamente. Mochilas ainda presas às costas pesam sobre os ombros dos alunos, e alguns demonstram esforço para cumprir a tarefa imposta. Os rostos denunciam cansaço e desconforto. À frente, um policial militar executa o movimento com precisão, demonstrando a forma correta do exercício. Atrás dele, meninos e meninas tentam acompanhar.
Veja o vídeo:
O registro foi censurado para preservar a identidade dos estudantes, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Não há confirmação oficial do número de alunos envolvidos, mas as imagens indicam cerca de 45 crianças e adolescentes participando da atividade.
Denúncia
O Correio teve acesso a uma denúncia anônima encaminhada à Comissão de Educação e Cultura da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Segundo o relato, os estudantes teriam sido obrigados a fazer flexões e a permanecer ajoelhados como punição por utilizarem blusas de frio consideradas inadequadas pela escola.
“Esse tipo de punição é constrangedora, desproporcional e não tem caráter pedagógico. A disciplina escolar não pode ultrapassar os limites do respeito e da dignidade dos estudantes”, afirma o documento.
A denúncia também cita o artigo 18 do ECA, que garante proteção contra tratamento vexatório ou constrangedor, além do princípio da dignidade da pessoa humana previsto na Constituição Federal.
Para o Correio, a Polícia Militar (PMDF) informou que tomou conhecimento da situação e que a direção da escola reconheceu “equívoco na condução do episódio”.
Segundo a corporação, foi determinada a substituição e o afastamento dos policiais que atuavam na unidade.
“A corporação ressalta que não compactua com qualquer prática que possa ser interpretada como constrangedora ou inadequada ao ambiente escolar. O caso será devidamente apurado para o completo esclarecimento dos fatos e eventual adoção das medidas administrativas cabíveis.”
A PMDF também declarou que permanece acompanhando a situação e reforçou compromisso com os princípios do ECA e da Constituição, que asseguram a proteção integral de crianças e adolescentes.
Procurada, a direção do CED 01 do Itapoã afirmou que o caso foi esclarecido e que todas as providências necessárias foram tomadas internamente.
“Toda essa situação já foi esclarecida e todas as medidas tomadas. Já conversamos com os pais — temos uma ligação muito grande com eles — e estamos tranquilos em relação a isso. Preferimos manter esse contato direto com as famílias.”
Em nota, o Sindicato dos Professores (SINPRO-DF) afirmou que o episódio expõe contradições na política educacional e criticou a punição aplicada aos estudantes. “Hoje, enquanto o governo nega uniformes, a escola cívico-militar pune estudantes com flexões no pátio — não pelo aprendizado, mas pela cor da roupa que vestem. A humilhação tem cor: a da falta de respeito e da ausência do Estado”, declarou o sindicato, que classificou a situação como constrangedora e incompatível com o ambiente escolar.
O Correio também teve acesso a documentos relacionados ao episódio. Até o momento, não há confirmação oficial sobre quantos estudantes foram submetidos à punição nem se houve outras medidas disciplinares aplicadas no mesmo dia.
O caso segue sob apuração.
