Eu, Estudante

PRIMEIRA INFÂNCIA

Brasil vai bem em linguagem, mas falha em matemática na pré-escola

Estudo mostra que crianças brasileiras têm desempenho acima da média em literacia, mas ficam atrás em numeracia e enfrentam maiores desigualdades

Crianças brasileiras de 5 anos apresentam desempenho acima da média internacional em habilidades de linguagem, mas ficam significativamente atrás em matemática ainda na pré-escola. É o que revela o Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em nove países e divulgado nesta terça-feira (5/5).

Os dados indicam que o Brasil alcançou 502 pontos em literacia, indicador que reúne competências como vocabulário, consciência fonológica e compreensão oral. O resultado é ligeiramente superior à média internacional, de 500 pontos. Em numeracia, no entanto, a média foi de 456 pontos, desempenho substancialmente inferior ao padrão global.

Mais do que a diferença entre as áreas, o estudo evidencia um padrão relevante: enquanto as habilidades de linguagem apresentam distribuição mais homogênea entre crianças de diferentes níveis socioeconômicos, a matemática concentra as maiores desigualdades. Entre crianças de famílias mais ricas, 80% dominam o reconhecimento de números aos cinco anos. Entre as mais pobres, esse índice cai para 68%. A distância também se amplia em tarefas mais complexas, como a resolução de operações simples, o que revela um início desigual que tende a se aprofundar ao longo da trajetória escolar.

Os resultados reforçam que a desigualdade de aprendizagem no Brasil não começa no ensino fundamental, mas já está presente na educação infantil. “Aos cinco anos, já observamos diferenças importantes associadas às condições sociais das crianças. Quando fatores como renda, raça e contexto familiar se combinam, essas desigualdades se ampliam de forma significativa”, afirma o pesquisador Tiago Bartholo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos responsáveis pelo estudo no país.

Habilidades executivas no centro da aprendizagem

Durante a apresentação dos dados, os especialistas chamaram atenção para um fator central por trás do baixo desempenho em matemática: o desenvolvimento das habilidades executivas, consideradas a base do aprendizado na infância.

Entre elas, destacam-se:

  • memória de trabalho, responsável por reter e manipular informações;

  • controle inibitório, ligado à capacidade de autocontrole e regulação de impulsos;

  • flexibilidade cognitiva, que permite adaptar-se a novas regras e situações;

  • planejamento, monitoramento e metacognição, fundamentais para organizar o pensamento e acompanhar o próprio processo de aprendizagem.

Segundo os pesquisadores, essas competências não se limitam à matemática, mas estruturam todo o desenvolvimento cognitivo da criança. O estudo mostra que o Brasil apresenta desempenho abaixo da média internacional nessas funções, com diferenças marcantes entre crianças de contextos socioeconômicos distintos .

Ambiente familiar e rotina moldam o desenvolvimento

O levantamento também evidencia que o ambiente doméstico exerce papel decisivo na aprendizagem, muitas vezes ampliando ou reduzindo desigualdades. No Brasil, práticas essenciais para o desenvolvimento infantil aparecem com menor frequência do que em outros países.

Mais da metade das famílias afirma não ler ou ler raramente para as crianças, e apenas uma pequena parcela mantém esse hábito de forma regular. Atividades ao ar livre, fundamentais para o desenvolvimento físico e cognitivo, também ocorrem com menor frequência. Até mesmo interações básicas, como cantar e conversar sobre sentimentos, aparecem em níveis inferiores aos observados internacionalmente.

Ao mesmo tempo, o uso de telas é elevado: metade das crianças utiliza dispositivos digitais todos os dias, prática que, segundo o estudo, está associada a níveis mais baixos de aprendizagem, especialmente em linguagem e matemática.

Essas diferenças se aprofundam quando se observa o contexto socioeconômico. Em famílias de maior renda, atividades como leitura, canto e interação são mais frequentes, o que contribui para ampliar o desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças desde os primeiros anos de vida. Ainda assim, Tiago defende que, mesmo com recursos, a frequência das atividades ainda é baixa.

Desenvolvimento infantil exige ação integrada

Diante desse cenário, especialistas defendem que políticas públicas voltadas à primeira infância precisam ir além do ambiente escolar e considerar o desenvolvimento integral da criança. A promoção de experiências cotidianas simples, como brincar, ler, cantar e interagir com adultos, é apontada como essencial para fortalecer as habilidades executivas e criar bases mais sólidas para a aprendizagem.

O especialistas também inclui a redução do tempo de exposição a telas e a criação de cidades mais acolhedoras para a infância, com espaços seguros e acessíveis que garantam o direito de brincar. Para os pesquisadores, essas condições não são complementares, mas estruturantes para o desenvolvimento infantil e para a redução das desigualdades educacionais.

Desigualdades começam cedo e se acumulam

O estudo também evidencia que fatores sociais não atuam de forma isolada. Crianças de famílias mais pobres, beneficiárias de programas de transferência de renda, e crianças pretas, pardas e indígenas apresentam, em média, piores resultados em diferentes dimensões do desenvolvimento.

No Brasil, a pesquisa avaliou 2.598 crianças em 210 escolas de São Paulo, Ceará e Pará, tanto da rede pública quanto privada. Os dados integram um levantamento internacional com mais de 25 mil crianças e reforçam um diagnóstico já conhecido por especialistas: as desigualdades de aprendizagem começam muito antes da alfabetização, e exigem respostas urgentes ainda na primeira infância.