
Aos 7 anos, brincar na rua não faz parte da rotina da filha mais velha de Junia Lacerda, moradora do Distrito Federal. Nem mesmo o condomínio onde vivem é percebido como um espaço seguro o suficiente para que a criança circule sozinha. A liberdade que marcou a infância da mãe, feita de calçadas ocupadas, jogos improvisados e vizinhos atentos, hoje foi substituída por vigilância constante e decisões atravessadas pelo medo.
“Era uma aventura e tanta. A gente brincava de esconde-esconde, rouba-bandeira, queimada, ficava na rua até escurecer. As mães ficavam nas calçadas, conversando. Hoje não existe mais isso”, lembra Junia. Ao olhar para as duas filhas, Antonella, de 7 anos e Luísa, com 10 meses, ela reconhece a ruptura com uma mistura de consciência e impotência. “Sinto que elas estão vivendo como passarinho na gaiola”, afirma.
O relato sintetiza uma transformação silenciosa que atravessa cidades brasileiras de diferentes perfis sociais: a infância deixou de ocupar o espaço público como parte da vida cotidiana. Mais do que uma mudança de hábitos ou de geração, especialistas apontam que se trata de uma alteração estrutural na forma como as cidades são organizadas, com impactos diretos sobre direitos fundamentais e sobre o próprio desenvolvimento das crianças.
Há décadas, o pedagogo italiano Francesco Tonucci sustenta que a qualidade de uma cidade pode ser medida pela forma como ela trata suas crianças. Não como promessa de futuro, mas como cidadãs no presente. Em sua leitura, uma cidade que não permite que crianças circulem com autonomia, brinquem livremente e participem da vida urbana não é apenas pouco acolhedora, é uma cidade que falhou em sua função social.
O direito ao brincar não é apenas uma recomendação, é uma obrigação legal. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante o lazer e o brincar como direitos fundamentais. Já o Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016) determina que União, estados e municípios devem garantir ambientes seguros, adequados, acessíveis e espaços de convivência que favoreçam o desenvolvimento infantil.
Para Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, garantir o direito de brincar é garantir condições concretas para que ele aconteça na cidade.
Na prática, isso inclui o planejamento urbano, a criação de espaços públicos de qualidade e a garantia de mobilidade segura para crianças e cuidadores. Ainda assim, o cotidiano urbano revela um cenário em que esse direito é cada vez menos exercido. “Eu queria que elas tivessem a infância que eu tive, mas a cidade não permite”, afirma Junia.
Marieta Colucci, consultora da iniciativa Urban95 e do Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP), afirma que, ao longo das últimas décadas, as cidades foram sendo organizadas a partir de uma lógica produtiva e adultocentrada. “Fomos desenhando cidades voltadas para homens produtivos que usam o carro como principal meio de transporte. Nesse processo, crianças, idosos e mulheres foram ficando de lado”, explica. “Hoje vemos as crianças cada vez mais nas telas, brincando menos nas ruas. E isso não é uma escolha das famílias. É uma consequência do desenho urbano”, emenda.
A falta de crianças nas ruas, praças e calçadas não é apenas um dado curioso, é um sintoma urbano relevante. Para Mariana Luz, a presença da infância no espaço público funciona como um indicador da qualidade das relações sociais e da própria cidade.
“Quando não há crianças ocupando esses espaços, isso revela que a cidade não está garantindo condições básicas de convivência, segurança e pertencimento”, afirma Mariana. Mais do que usuários, as crianças são agentes que ativam o território. “Crianças tornam a cidade mais viva, promovem interações e fortalecem vínculos comunitários”, cita a especialista.
“Quando a cidade não garante espaço para brincar, ela compromete não só o desenvolvimento das crianças, mas também a qualidade das relações sociais como um todo”, continua a CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.
A lógica é inversa àquela que frequentemente orienta o planejamento urbano contemporâneo: não é a ausência de crianças que torna a cidade mais segura, é a vitalidade do espaço público que cria condições de segurança.
Brincar é necessidade biológica
Se, do ponto de vista legal, brincar é um direito, do ponto de vista científico é uma necessidade. O cérebro infantil depende de experiências concretas, corporais e sociais para se desenvolver plenamente. E o brincar livre reúne essas dimensões de forma integrada.
“O brincar livre funciona como um treino de plasticidade cerebral”, explica a neuropediatra Angélica Ávila. Ao correr, explorar, negociar regras e lidar com imprevistos, a criança ativa simultaneamente sistemas motores, emocionais, cognitivos e sociais. “O cérebro se desenvolve com o que recebe. E também deixa marcas pelo que não recebeu”, afirma.
Cerca de 90% das conexões cerebrais são formadas durante a primeira infância, período que vai do nascimento aos seis anos. Nesse estágio, experiências ricas e variadas não são apenas desejáveis, são estruturantes. “A experiência digital não reproduz a densidade biológica de uma experiência real”, pontua a médica. “O corpo em movimento, o contato com o outro, o imprevisível. Tudo isso é insubstituível”.
“Sem essas experiências, o cérebro perde oportunidades importantes de organizar funções como atenção, regulação emocional e interação social”, explica Angélica.
A redução do brincar ao ar livre não representa apenas uma mudança de cenário, mas uma perda concreta de experiências fundamentais. Para Maria Isabel Barros, especialista do Instituto Alana, o fenômeno pode ser descrito como um empobrecimento da infância.
“As crianças perdem liberdade, autonomia e a possibilidade de se reconhecer como parte da cidade”, afirma. Ela chama atenção para um processo mais amplo, que denomina de ‘extinção da experiência’. Estudos indicam que brincar ao ar livre pode reduzir em até 55% o risco de desenvolvimento de transtornos psicológicos na infância.“Hoje, as crianças têm cada vez menos oportunidades de subir em árvores, brincar com água, explorar o ambiente. A infância brasileira está mais limitada”.
No Brasil, o afastamento da infância do espaço público também se reflete no tempo crescente diante das telas. Dados recentes indicam que seis em cada dez crianças passam mais tempo do que o recomendado em frente a dispositivos eletrônicos, superando orientações de entidades médicas.
Nesse contexto, as telas não surgem como causa isolada, mas como consequência de um ambiente que restringe outras possibilidades. “As telas foram o que sobrou para elas”, resume Maria Isabel.
Brincar é aprender
O impacto dessa transformação se estende ao campo da aprendizagem. O brincar livre não é um intervalo no desenvolvimento. É a parte central dele. De acordo com a psicopedagoga Luciana Brites, do Instituto NeuroSaber, brincar não é o oposto de aprender, é o principal caminho de aprendizagem na infância.
Segundo Luciana, ambientes não estruturados, como a rua, oferecem estímulos que dificilmente são replicados em espaços controlados. “A rua é imprevisível. A criança precisa negociar, resolver conflitos, criar regras. Isso desenvolve autonomia, pensamento crítico e habilidades sociais”.
Ao mesmo tempo, a tentativa de eliminar riscos pode produzir o efeito contrário ao desejado. “Risco zero é zero desenvolvimento”, afirma Luciana. Segundo a psicopedagoga, é na interação espontânea que a criança constrói repertório social e emocional.
Medo do desenho urbano
O medo, frequentemente apontado pelas famílias como principal motivo para restringir a circulação das crianças, não pode ser analisado isoladamente. Ele está diretamente relacionado à forma como as cidades são organizadas. “Eu sei que não é o ideal, sei que não é bom ( as crianças ficarem dentro de casa), mas não consigo deixar (elas sairem). O medo fala mais alto”, desabafa Júnia.
“A presença do carro, a falta de manutenção dos espaços e a baixa qualidade urbana contribuem para afastar as crianças”, explica Marieta Colucci. Ruas vazias, com pouca circulação de pessoas, tendem a reforçar a sensação de insegurança, criando um ciclo difícil de romper. “A cidade precisa ser pensada a partir da perspectiva da criança. Quando isso não acontece, ela se torna um espaço de passagem, e não de convivência”, afirma a representante da CECIP.
Nesse cenário, a resposta mais comum tem sido aumentar o controle sobre a infância, e não transformar o espaço urbano. Para especialistas, no entanto, essa lógica é limitada. “A cidade precisa ser pensada para a convivência. Quando há gente na rua, quando há vida, o espaço se torna mais seguro”, afirma Colucci.
Pensar uma cidade para crianças vai muito além da instalação de parquinhos ou áreas de lazer. Envolve calçadas acessíveis, travessias seguras, iluminação adequada, arborização, mobilidade e segurança nos trajetos cotidianos, especialmente no percurso entre casa e escola. É nesse conjunto de elementos que o direito ao brincar se torna possível na prática. Sem essas condições, a infância não apenas deixa de ocupar o espaço público, como perde oportunidades fundamentais de desenvolvimento.
Quando a cidade muda, a infância volta
Experiências no Brasil mostram que esse cenário não é irreversível. Em Jundiaí (SP), o programa “Ruas de Brincar” transforma temporariamente vias em espaços de convivência, permitindo que crianças voltem a ocupar o espaço público. Ao Correio, a prefeitura do município afirmou que a iniciativa tem impactos que vão além do lazer. “Há fortalecimento dos vínculos entre vizinhos e valorização das brincadeiras tradicionais”, informa.
A experiência também evidencia que a transformação do espaço urbano não depende apenas de intervenções físicas, mas de engajamento social e articulação entre diferentes áreas do poder público. Segundo a prefeitura, o sucesso das iniciativas está diretamente ligado à participação ativa dos moradores e à corresponsabilidade pelo uso dos espaços.
O modelo, de acordo com a gestão, pode ser replicado com baixo custo, a partir da mobilização local, uso de sinalização simples e organização de horários para compartilhamento das vias. A administração afirma ainda que a primeira infância passou a integrar o planejamento urbano de forma estruturada, com diretrizes específicas voltadas à ampliação de espaços lúdicos, garantia de direitos e incentivo à ocupação segura da cidade por crianças e cuidadores.
O programa “Ruas de Brincar” integra um conjunto mais amplo de ações voltadas à promoção do direito ao brincar e à valorização da infância no município. A Prefeitura de Jundiaí afirma manter o compromisso com a pauta e diz avaliar continuamente estratégias para dar continuidade e aprimorar iniciativas que incentivem o uso qualificado dos espaços públicos por crianças e suas famílias. Entre elas está o Comitê das Crianças, espaço de escuta ativa que contribui para a construção de políticas públicas a partir das percepções e sugestões das próprias crianças.
Em Sobral (CE), a aposta tem sido na criação de parques naturalizados, com elementos como terra, água e vegetação, que estimulam a criatividade e o contato com a natureza.
Onde a infância pode — e onde não pode brincar
Apesar de ser um direito garantido por lei, a discussão sobre espaços urbanos para brincar reflete ainda um quadro de desigualdade. Enquanto em áreas de maior renda as crianças têm acesso a condomínios, parques estruturados e espaços privados de lazer, em regiões periféricas o cenário é outro. A falta de infraestrutura urbana, a precariedade das calçadas, a ausência de áreas verdes e a maior exposição à violência tornam o brincar ao ar livre ainda mais limitado.
Além disso, o medo que restringe famílias de classe média não é o mesmo vivido em áreas mais vulneráveis. Enquanto em alguns contextos o risco é percebido, em outros ele é concreto e cotidiano, envolvendo violência, operações policiais e a ausência de serviços básicos.
Essa diferença revela que o direito ao brincar não é apenas uma questão geracional, mas também social. Ainda, expõe uma desigualdade profunda no acesso à própria infância. Em determinados territórios, brincar na rua não é uma escolha limitada: é uma possibilidade que nunca foi plenamente garantida.
Diante desse cenário, especialistas defendem que o direito de brincar precisa ser tratado como prioridade nas políticas públicas. Para Marieta Colucci, isso passa por mudanças concretas no planejamento urbano, na mobilidade e na forma como os espaços públicos são concebidos. “Pequenas intervenções podem fazer grande diferença. A cidade precisa considerar as crianças como usuárias reais do espaço urbano”, afirma.
Enquanto isso, para famílias como a de Junia, a infância segue mediada por limites invisíveis, definidos menos pela vontade e mais pelas condições da cidade. No fim, a discussão não é sobre nostalgia, nem sobre preferências individuais de estilo de vida. É sobre direito. É sobre as condições concretas para exercê-lo.
Quando uma criança não pode brincar na rua, não se trata apenas de uma adaptação à vida contemporânea. Trata-se da perda de uma experiência essencial ao desenvolvimento humano e de um direito assegurado por lei.
Na lógica proposta por Tonucci, essa ausência não deve ser naturalizada. Ao contrário, deve ser interpretada como um sinal de alerta. Segundo o especialista, quando a infância não cabe na cidade, não é a infância que precisa se adaptar. É a cidade que precisa mudar.
Saiba Mais

Brasil
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil