Sala ampla, quadra recém-reformada, laboratórios modernos e uma apresentação pedagógica bem ensaiada podem impressionar à primeira visita. Mas, antes de escolher a escola onde uma criança passará boa parte dos próximos anos, é preciso olhar para lugares menos óbvios: o banheiro que ela usará todos os dias, as janelas da sala de aula, o recreio, os corredores e até a maneira como um funcionário responde a um aluno que pede ajuda.
É nesses detalhes que parte do funcionamento real de uma instituição aparece. Para a administradora de empresas Letícia Carvalho, mãe de Lara, 5 anos, e Luca, 3, observar as relações foi tão importante quanto conhecer a estrutura. "Procuro observar o ambiente como um todo. Além da estrutura física, gosto de perceber como as crianças circulam pelos espaços, como os professores interagem com elas e qual é o clima da escola. Também observo se as crianças parecem felizes, seguras e respeitadas", conta.
A lógica ajuda a explicar por que escolher uma escola exige mais do que comparar mensalidades, apostilas ou resultados acadêmicos. A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define competência como a mobilização não apenas de conhecimentos, mas também de habilidades cognitivas e socioemocionais, atitudes e valores. Entre as competências gerais previstas para toda a educação básica estão autoconhecimento, empatia, cooperação, responsabilidade e cidadania.
No Distrito Federal, onde a Secretaria de Educação registra mais de 570 instituições privadas credenciadas, a quantidade de opções amplia a necessidade de comparação. A primeira providência, antes mesmo de avaliar metodologia ou estrutura, é verificar se a instituição está regularizada. A lista de escolas credenciadas pode ser consultada pela própria Secretaria de Educação.
"Esse é um cuidado básico, mas fundamental", afirma a presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), Ana Elisa Dumont. Segundo ela, depois dessa checagem, entram na balança "proposta pedagógica, valores da instituição, formação da equipe, estrutura física, segurança, acessibilidade, formas de acompanhamento do aluno, canais de comunicação com as famílias, política de convivência e os custos envolvidos".
Para Dumont, não existe uma escola perfeita para todas as crianças. "Existe aquela que melhor atende às necessidades da criança ou do adolescente e que está alinhada às expectativas e aos valores daquela família. Por isso, mais importante do que escolher pela fama ou pela indicação de terceiros é conhecer a escola, conversar com a equipe e comparar as opções com critérios objetivos."
O poder da observação
É justamente a visita presencial que permite confrontar o discurso com o cotidiano. Talvez, uma das informações mais difíceis de colocar em uma planilha comparativa seja o clima escolar. Ainda assim, ele pode ser determinante para a experiência da criança. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022, coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostrou que 76% dos estudantes brasileiros de 15 anos disseram sentir que pertenciam à escola. Ao mesmo tempo, 27% afirmaram sentir solidão no ambiente escolar e 19% se percebiam como alguém de fora ou excluído.
Na hora da matrícula, portanto, os responsáveis podem perguntar quais são os procedimentos adotados em situações de bullying, agressão, discriminação, racismo, capacitismo ou violência digital; quem acolhe a criança; como os responsáveis são informados e de que forma a escola acompanha o caso depois da primeira intervenção.
"Em vez de perguntar simplesmente se existem conflitos, é mais útil entender como a escola atua quando eles acontecem", orienta Ana Elisa Dumont. "Os responsáveis devem perguntar quais são as ações de prevenção, os canais de acolhimento e os procedimentos adotados diante de casos de bullying, violência ou discriminação."
Conversar com outros responsáveis pode revelar aspectos que dificilmente aparecem na apresentação institucional: demora para responder a um problema, rotatividade de professores, comunicação em situações de conflito, excesso de tarefas ou diferenças entre o projeto apresentado e a rotina. Também vale saber como a equipe trabalha em conjunto.
Comunicação
A qualidade da comunicação costuma aparecer entre as preocupações depois que o estudante já está matriculado. Ela pode — e deve — ser investigada antes. "Uma boa relação começa com comunicação clara e respeito aos papéis de cada um", afirma Dumont. "A família deve saber quais canais de contato estão disponíveis, como recebe informações sobre o desenvolvimento do estudante e a quem recorrer quando surge alguma questão."
Antes da matrícula, vale descobrir se os pais conseguem falar diretamente com professores, se tudo precisa passar pela coordenação e como acidentes e conflitos são comunicados.
Educação básica
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