Aprendizado na infância

Entre aprender e brincar: o papel das brincadeiras e do ludicismo no aprendizado

Da contação de histórias aos jogos com letras e sons, atividades da infância também podem preparar o caminho para a leitura e a escrita

Giovanna Rodrigues
postado em 27/09/2026 06:00
Theo com a avó Dalila e o pai, Luís Felipe Gentil: escolha ultrapassou gerações -  (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
Theo com a avó Dalila e o pai, Luís Felipe Gentil: escolha ultrapassou gerações - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Na infância, aprender a ler e escrever nem sempre se inicia diante de um papel com letras; pode começar também com histórias contadas antes de dormir, canções, blocos de montar, texturas e cores. Antes de reconhecer todas as letras ou escrever as primeiras palavras, os pequenos constroem conhecimentos com as vivências do dia a dia e, até mesmo, com as brincadeiras.

Para a professora Eusiléa Pimenta Roquete Severiano, coordenadora do curso de pedagogia do Uniceplac, no "aprender brincando" a criança assimila enquanto explora, imagina, conversa, interage e socializa. Nesse contexto, segundo ela, a brincadeira não deve ser entendida apenas como um intervalo entre as atividades consideradas "sérias". "No faz de conta, a criança pode trabalhar linguagem, contagem, negociação de regras e resolução de problemas", exemplifica. 

A pesquisadora explica que diversas habilidades podem ser desenvolvidas nesse entremeio. Histórias, rimas e brincadeiras de faz de conta ajudam no desenvolvimento da linguagem e do vocabulário. Jogos de memória e atividades que envolvem sequências podem estimular atenção e memória. Desenhos, modelagem, blocos e atividades de coordenação contribuem para o desenvolvimento motor. Dentro da escola, cabe ao professor preparar um ambiente rico, observar as crianças e intervir quando necessário, sem transformar cada momento em uma atividade rígida. 

Nesse contexto, a professora Paula Cobucci, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), explica que é importante diferenciar alfabetização e letramento. Enquanto a alfabetização envolve a apropriação do sistema de escrita alfabética, o letramento está relacionado à participação em situações sociais que envolvem leitura e escrita.  "As duas coisas precisam caminhar juntas. A criança pode aprender de forma explícita como funciona o sistema de escrita, ao mesmo tempo, em que entende para que a leitura e a escrita servem no cotidiano." 

Para esse processo funcionar, o primeiro passo é entender que, para a criança nessa fase, brincar é uma das principais formas de aprender. "É claro que ela também precisa aprender gradualmente que existem diferentes momentos: brincar livremente, ouvir uma história, participar de uma atividade coletiva, realizar uma tarefa que exige atenção, guardar materiais, esperar sua vez. Isso faz parte da construção da autonomia e da vida em grupo", explica Paula. "À medida que cresce, também é importante descobrir que nem toda aprendizagem será imediatamente divertida. Há momentos de esforço, treino e persistência."

É justamente nesse ponto que aparece uma diferença importante para os pais: uma escola pode ser lúdica sem abrir mão do ensino. Na educação infantil, o contato com letras, sons, livros e histórias pode acontecer de maneira significativa, sem que a criança seja submetida à mesma rotina de exercícios de um aluno do ensino fundamental. 

Paula explica que apresentar letras não significa, por si só, alfabetizar precocemente. Reconhecer a inicial do próprio nome, procurar palavras que começam com determinado som ou montar nomes com letras móveis são experiências possíveis para crianças pequenas. O problema aparece quando esse contato se transforma em treinamento mecânico, cobrança de desempenho ou antecipação de um currículo mais avançado.

O dia a dia

A orientadora da educação infantil da Escola Montessori, Mara Rúbia, explica que, no método pedagógico que leva o nome da instituição, o processo de alfabetização é trabalhado de maneira gradual. Antes de chegar à escrita convencional, as crianças passam por atividades voltadas para coordenação motora fina, percepção auditiva, ampliação do vocabulário, concentração e autonomia. Materiais sensoriais, como as letras de lixa, ajudam a associar o símbolo gráfico ao som por meio da visão e do tato.

Na rotina da escola, as crianças têm momentos de trabalho individual, nos quais podem escolher entre diferentes áreas, como linguagem, matemática, educação cósmica, educação sensorial e vida prática, com materiais já prontos, pensados para desenvolver certas habilidades. 

Também há uma distinção entre o brincar livre e o trabalho realizado com os materiais pedagógicos, e a escola mantém momentos de descanso e recreio, principalmente em espaços externos, enquanto dentro da sala os materiais concretos e lúdicos fazem parte das atividades de aprendizagem. 

Em sala de aula, o professor circula, observa e apresenta materiais individualmente ou em pequenos grupos. A observação, segundo Mara, é fundamental para entender o que está por trás de uma determinada ação da criança. "Às vezes, a criança está manipulando um material e descobrindo uma coisa que a gente nem tinha pensado", conta.

Na família de Theo, 9 anos, a relação com a escola começou em outra geração. O pai, Luis Felipe Gentil, estudou ali durante a infância e guardou uma experiência positiva do período. A avó Dalila Gentil, por sua vez, conta que escolheu a escola para os filhos depois de ouvir sobre o método de ensino e se interessou pela proposta de estimular a independência das crianças. 

Ao visitar a escola pela primeira vez, encantou-se pela forma lúdica de apresentar conhecimentos básicos como matemática, português e ciências. "Além de dar uma certa liberdade para as crianças escolherem o que trabalhar, existe um respeito ao ritmo de aprendizado", diz. 

Theo entrou na escola por volta dos 2 anos, e, ao longo do tempo, Luís vem acompanhando de perto o dia a dia escolar do filho. Para ele, uma das diferenças percebidas na metodologia está na maneira como o conteúdo é apresentado. "Eu vejo que é uma coisa mais interativa. Não é aquela coisa de decorar, ler e fazer prova", afirma. 

O respeito à infância

Para as professoras, na escolha da escola ideal, a visita é uma oportunidade de observar mais do que salas bonitas, brinquedos ou materiais coloridos; o principal é prestar atenção no que as crianças fazem e em como os professores participam dessas atividades. 

Paula recomenda observar menos a decoração e mais o que as crianças efetivamente fazem. Há livros acessíveis? As crianças conversam, fazem perguntas, contam histórias e produzem? Existe tempo diário para brincar? Os professores leem para elas? Há materiais para desenhar, escrever, construir e imaginar? E, principalmente, a escola consegue acompanhar crianças que aprendem em ritmos diferentes?

Paula diz também que vale perguntar qual o objetivo das atividades, para entender por que estão sendo feitas, em que momento e com que frequência; e o mesmo vale para as brincadeiras, os pais devem procurar saber se uma atividade lúdica com intenção pedagógica não é simplesmente uma recreação, se o professor estabelece um objetivo, escolhe materiais e desafios, observa as respostas das crianças, faz perguntas e intervém quando necessário.

Eusiléa recomenda que os pais observem se existe tempo diário para brincar, se as crianças têm oportunidades de escolher, imaginar e interagir e qual é o papel do adulto durante essas experiências. “Uma proposta realmente lúdica aparece na rotina, não apenas em fotos ou em eventos”, afirma.

Outro ponto importante é entender como a escola acompanha a aprendizagem. Os pais podem perguntar como são ensinadas a leitura e a escrita, como os professores identificam dificuldades e o que fazem quando uma criança apresenta um ritmo diferente do restante da turma.

No fim, o equilíbrio não está em escolher entre brincar e ensinar. Está em entender que cada etapa tem necessidades diferentes. Uma criança pequena precisa de espaço para imaginar, experimentar, conversar e brincar, mas também pode ter contato com livros, letras e sons. Conforme cresce, passa a precisar de mais sistematização, sem perder a curiosidade e o prazer de descobrir.

A escola que merece a atenção dos pais, portanto, não é necessariamente aquela que promete alfabetizar mais cedo nem aquela que apresenta mais brinquedos. É aquela capaz de explicar o que a criança está aprendendo, por que determinada atividade faz parte da rotina e como o ensino acompanha o desenvolvimento de cada aluno.

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