No dia 13 de maio, data que marca a abolição da escravidão no Brasil, a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) concedeu o título de Doutor Honoris Causa a Frei David Santos, religioso e ativista reconhecido nacionalmente pela luta em defesa da população negra e pelo acesso de jovens periféricos à universidade. A honraria destaca a trajetória de um dos principais nomes do combate ao racismo estrutural no país.
Aos 68 anos, o fundador da Educafro Brasil se tornou uma das vozes mais importantes na defesa das ações afirmativas e da democratização do ensino superior. A organização criada por ele já ajudou mais de 60 mil pessoas negras e de baixa renda a ingressarem na universidade, transformando sonhos antes considerados impossíveis em realidade concreta.
Início de tudo
Nascido e criado em Vila Velha, no Espírito Santo, Frei David encontrou ainda jovem as marcas da desigualdade racial no Brasil. Incomodado com a Ditadura Militar e com a exclusão social, decidiu ingressar no seminário. Foi justamente dentro desse ambiente que compreendeu mais profundamente o racismo que enfrentava, e transformou essa dor em militância. “Ali nasceu uma determinação: eu só aceito continuar a ser frade franciscano se for para dedicar minha vida a serviço da libertação do nosso povo negro no Brasil”, afirmou o religioso em um relato sobre sua trajetória.
Frei David conta que passou a entender o impacto da chamada “ideologia do embranquecimento” ao perceber que escondia sua própria identidade negra. Em um dos episódios mais marcantes de sua vida, pensou em abandonar o seminário após sofrer discriminação racial. “Você sofre de uma doença que se chama ideologia do embranquecimento. Você tem vergonha do seu cabelo, da sua cor, tudo o que é ligado ao seu povo negro”, ouviu de um formador religioso na época.
A partir dali, assumiu publicamente sua negritude e decidiu transformar sua vocação religiosa em instrumento de luta coletiva. “Me considero uma pessoa inquieta, descobri, a partir do próprio sofrimento, que devemos investir na consciência do povo negro, em criar oportunidades”, declarou.
Foi desse inconformismo que nasceu um dos movimentos educacionais mais importantes do país. Após perceber que quase nenhum jovem negro cogitava entrar na universidade, Frei David criou o primeiro cursinho pré-vestibular comunitário voltado para negros e pessoas pobres no Brasil. Em pouco tempo, o projeto se espalhou pelo país. “Fizemos nascer o pré-vestibular para negros carentes. Então esse movimento nasceu e contagiou o Brasil inteiro com mais de dois mil pré-vestibulares comunitários”, relembrou.
Educafro
A Educafro se consolidou como peça-chave em pautas históricas, como a implementação das cotas raciais nas universidades, a criação do ProUni e debates sobre representatividade política e distribuição do fundo eleitoral.
Ao longo de mais de quatro décadas, Frei David ajudou a construir políticas públicas que mudaram o perfil das universidades brasileiras. O acesso ao ensino superior por jovens negros, antes extremamente restrito, passou a crescer a partir da pressão de movimentos sociais e lideranças como a dele.
Mais do que números, o legado de Frei David aparece nas histórias de estudantes que foram os primeiros de suas famílias a conquistar um diploma universitário.
“A humanidade é linda demais. Não percamos oportunidade de construir um mundo melhor, porque vale a pena. Todo mundo ganha. Pobres e ricos são mais felizes em um mundo melhor”, afirmou.
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