DECISÃO

Eleições nos EUA: disputa corre o risco de não terminar em 3 de novembro

Eleição presidencial será em 3 de novembro, mas a votação via correspondência já começou em nove estados. Por causa da pandemia da covid-19, previsão é de que os votos enviados por correio atinjam número recorde; entenda

Maíra Alves
postado em 03/10/2020 06:00
 (crédito: JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP)
(crédito: JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP)

Por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus, neste ano os cidadãos norte-americanos poderão escolher o futuro presidente dos Estados Unidos sem sair de casa em 3 de novembro. Isso porque as regras de votação via correspondência foram flexibilizadas, o que também deve atrasar a divulgação completa dos resultados (entenda mais abaixo).

Os EUA ainda tem a infeliz marca de ser o país mais atingido pela covid-19, com cerca de 7,3 milhões de casos confirmados e 207,6 mil mortes.

Na última eleição presidencial, em 2016, foram recebidos 33 milhões de votos pelos correios, o que corresponde a 24% do total de pessoas votantes. Neste ano, por causa da emergência sanitária, a expectativa é de que a proporção seja ainda maior.

Em 22 de setembro, 64,4 milhões de cédulas já haviam sido enviadas a cidadãos de 30 estados e ao Distrito de Columbia, onde está situada a capital dos EUA, Washington D.C. O número corresponde a 31% dos 209,5 milhões de eleitores ativos e que já podem realizar a votação.

Na Flórida, pelo menos um terço dos eleitores também requisitou a cédula de votação. O percentual é igual ou superior a 30% nos estados de Michigan, Minnesota e Wisconsin.

Segundo especialistas, a eleição presidencial de 2020 será uma das mais atípicas na história dos EUA, já que a previsão é que o percentual de eleitores que votará pelos correios será recorde. A estimativa é de que 70% a 80% dos cerca de 160 milhões de eleitores norte-americanos habilitados possam preferir não votar presencialmente em 2020.

Neste caso, os debates entre os presidenciáveis, por exemplo, têm menos impacto do que quando todos os eleitores votam em um mesmo dia, como é o caso do Brasil (veja mais abaixo).

Como funciona?

Os moradores do Distrito de Columbia e mais nove estados – Washington, Nevada, Utah, Colorado, Oregon, Califórnia, Havaí, Vermont e Nova Jersey – receberam as cédulas "automaticamente". Nos outros 41, os eleitores precisam pedir para consegui-las. A depender do local onde vivem, os eleitores têm, ainda, que apresentar uma justificativa para votar via correspondência, como é o caso dos estados do Texas, Tennessee, Louisiana, Mississipi e Indiana.

Além disso, àqueles que moram nos estados em que as cédulas precisam ser requisitadas devem ficar atentos aos prazos de pedidos, que variam consideravelmente entre as regiões.

Nos EUA, todo o processo eleitoral é organizado pelos estados, e isso inclui o voto por correspondência. Cada um decide como vai organizar a votação por correio, e não há lei federal sobre a modalidade.

Risco de atraso na apuração

Regras diferentes também valem para o envio dos votos. Em algumas partes dos EUA, as cédulas devem ser recebidas pelas autoridades até o dia anterior à eleição. Em outras, os votos podem ser postados, inclusive, no dia do pleito.

Assim, o governo só tem responsabilidade sobre os votos de integrantes das Forças Armadas no exterior. A Casa Branca é, porém, responsável pela logística, por meio do Serviço Postal feito por uma empresa estatal.

Contudo, por causa da alta demanda gerada este ano para as eleições, o Serviço Postal está alertando alguns estados de que eles precisam proporcionar mais tempo para a contagem destas cédulas.

O Serviço Postal disse que em ao menos três deles – Michigan, Pensilvânia e Washington – existe um "risco considerável" de os eleitores não terem tempo suficiente para preencher e enviar seus votos respeitando as leis estaduais atuais, que permitem que estes solicitem cédulas a poucos dias da eleição.

"As autoridades eleitorais estaduais e municipais precisam entender e levar em conta nossos padrões operacionais e cronogramas recomendados", disse a porta-voz do Serviço Postal, Martha Johnson.

Como é feita a apuração?

A apuração ocorre em duas etapas. Primeiro, a cédula é autenticada. Um órgão estadual verifica se a assinatura é compatível com a do documento do eleitor e, em caso afirmativo, a libera para contagem.

Essa etapa pode acontecer imediatamente após o recebimento da cédula ou a partir de uma data específica. Alguns estados só permitem que a cédula seja preparada no dia da eleição, o que atrasa a divulgação do resultado.

Em seguida, o voto é contado. Assim como na primeira etapa, alguns estados realizam a contagem imediatamente, alguns dias antes da eleição, outros somente no dia do pleito ou ainda depois que as urnas fecham.

Em todos os estados, os resultados da votação postal só são anunciados junto com a apuração dos votos presenciais. Na Califórnia, em 2016, a contagem completa só terminou um mês depois da eleição.

Eleição já começou

O fato é: a eleição nos Estados Unidos já começou. A Carolina do Norte iniciou em 4 de setembro o processo de votação pelos correios — ou seja, 2 meses antes da eleição de 3 de novembro — em uma campanha cada vez mais agressiva entre o candidato republicano Donald Trump e o rival democrata Joe Biden. 

Voto não é obrigatório

Nos EUA, o voto não é obrigatório. Quem deseja exercer o direito, precisa fazer um registro como votante – “registered voters”.  

Antecipação dos votos

Além do voto por correio, os norte-americanos também podem antecipar seus votos presencialmente. As regras variam consideravelmente de estado para estado.

Na Pensilvânia, por exemplo, eleitores podem registrar as cédulas 50 dias antes das eleições. Já em Oklahoma, a antecipação do voto pode ocorrer apenas cinco dias antes do pleito.

Ou seja, a votação, por correio, começou em 14 de setembro para parte do eleitorado. Nove estados já podem votar para presidente. Até o fim de outubro, é possível que mais da metade dos eleitores já tenham registrado suas escolhas via correspondência.

Preferência dos eleitores

De acordo com a pesquisa do Pew Research Center, divulgada em 26 de agosto, a maioria dos apoiadores de Biden – 58% – preferem votar pelo correio. Entre os eleitores de Trump, o percentual cai para 19%.

O estudo também indica que, quanto mais conservadores os apoiadores de Trump, mais inclinados são para a votação presencial.

Especialistas apostam que Trump antevê a iminência de um revés nas urnas e, por isso, tenta usar o voto a distância como argumento sobre possível fraude. Richard Lau, cientista político da Universidade Rutgers (Nova Jersey), acredita que o presidente está “terrificado” ante a possibilidade de derrota. “Não ficou claro, para mim, qual partido terá mais danos, caso o voto postal seja desencorajado. Acho que uma motivação maior é o fato de que as ações do presidente, de desestimular o voto a distância, permitirão a ele legitimar o resultado das eleições, mesmo em caso de derrota”, afirmou ao Correio

Contudo, de acordo com um estudo da Heritage Foundation, desde 1988 cerca de 250 milhões de cédulas foram enviadas pelo correio, e destas apenas 208 eram fraudulentas e resultaram em condenações.

Dos mais de 9 milhões de eleitores que solicitaram cédulas pelo correio até a segunda-feira (28/9) nos estados da Flórida, Pensilvânia, Carolina do Norte, Maine e Iowa — os cinco onde esses dados estão disponíveis —, 52% eram democratas, 28% eram republicanos e 20% não eram filiados a partidos. Dados coletados por democratas e republicanos, obtidos pelo jornal Washington Post, mostram uma tendência semelhante em Ohio, Minnesota, New Hampshire e Wisconsin.

A liderança democrata no voto por correspondência até agora tem sido assunto de discussões internas entre os estrategistas republicanos. "As margens são impressionantes. É má notícia para todos os candidatos republicanos", disse Whit Ayres, veterano de campanhas republicanas.

Debate entre os presidenciáveis

Donald Trump e o ex-vice-presidente democrata Joe Biden realizara, na terça-feira (29/9) em Cleveland, no estado de Ohio, o primeiro debate televisionado, a 35 dias das eleições presidenciais no país. 

O debate foi marcado por constante tensão e troca de farpas entre os candidatos. "O fato é que tudo o que ele está dizendo até agora é simplesmente uma mentira. Não estou aqui para gritar suas mentiras. Todo mundo sabe que ele é um mentiroso", declarou Biden sobre o republicano.

Trump revidou afirmando que "Não tem nada de inteligente em você" ao candidato democrata.

A tensão entre ambos era palpável desde os primeiros minutos, com interrupções repetidas, que levaram o democrata a perguntar a Trump: "Você vai se calar, homem?".

Ao mostrar agressividade e ao interromper o adversário, Trump escolheu uma tática autodestrutiva, de acordo com a avaliação de especialistas

As pesquisas realizadas depois do debate apontam para uma vitória do democrata no duelo travado em Cleveland (Ohio). De acordo com a enquete da emissora CBS e do site YouGov, 48% dos norte-americanos consultados viram um desempenho melhor de Biden, contra 41% para Trump.

Em entrevista ao Correio, James Naylor Green — historiador político da Universidade Brown (em Rhode Island) — admitiu que a performance de Trump foi “um desastre”. “Ela apenas serviu para fortalecer o seu apoio entre a base de direita. Mas, certamente, não ganhou nenhum suporte entre aqueles que não têm certeza sobre em quem planejam votar”, avaliou.

Trump com covid-19

Por meio de um post no Twitter, Donald Trump confirmou nesta sexta-feira (2/9) que testou positivo para covid-19. O magnata afirmou que a primeira-dama, Melania Trump, também testou positivo para a doença. 

"Esta noite, Melania e eu testamos positivo para covid-19. Começaremos nosso processo de quarentena e recuperação logo. Vamos superar isso juntos", tuitou.


Os dois candidatos se enfrentaram em um único debate, na terça, de três que estavam inicialmente agendados. Os outros dois estavam marcados para os dias 15 e 22. Agora, após Trump afirmar estar doente, é provável que o mais próximo seja cancelado.

De acordo com a mídia americana, na história recente do país, nenhum presidente candidato à reeleição teve um problema de saúde tão grave durante a reta final de uma campanha.

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