Os países do Mercosul e da União Europeia assinaram neste sábado (17/1) em Assunção, no Paraguai, o acordo de livre comércio entre os dois blocos, encerrando um processo de negociação que se estendeu por mais de 25 anos. A cerimônia ocorreu na capital paraguaia porque o país exercia a presidência rotativa do Mercosul e também pelo peso simbólico da cidade, onde foi firmado o tratado fundador do bloco sul-americano, no início da década de 1990.
O evento reuniu o presidente do Paraguai, Santiago Peña; o presidente da Argentina, Javier Milei; o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi; o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz; e o presidente do Panamá, José Raúl Mulino, além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa. O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participou da solenidade e foi o único chefe de Estado sul-americano ausente.
No discurso como anfitrião, Santiago Peña classificou a assinatura como um marco histórico e exaltou o papel do diálogo na construção do entendimento.
“Estamos diante de um dia verdadeiramente histórico, aguardado por nossos povos, que marca um hito ao unir duas das regiões e mercados mais importantes do mundo, Europa e América do Sul”, afirmou. O presidente paraguaio destacou ainda a contribuição do presidente brasileiro para o desfecho das negociações. “Não posso deixar de mencionar um grande e querido, hoje lamentavelmente ausente, sem o qual não teríamos chegado a este dia: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, disse.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o acordo representou uma escolha clara pela cooperação em um cenário internacional instável. “Escolhemos o comércio em vez de tarifas, a parceria produtiva e de longo prazo em vez do isolamento”, declarou. Segundo ela, o tratado criou “a maior zona de livre comércio do planeta”, reunindo cerca de 700 milhões de pessoas e uma parcela expressiva do Produto Interno Bruto global.
Von der Leyen também ressaltou os benefícios econômicos e estratégicos do entendimento. “Este acordo vai gerar empregos, oportunidades e prosperidade para os nossos cidadãos e empresas, dos dois lados do Atlântico”, afirmou, ao destacar que o pacto inclui compromissos robustos nas áreas ambiental e de desenvolvimento sustentável. Para a dirigente europeia, “quando duas regiões como as nossas falam com uma só voz sobre questões globais, o mundo escuta”.
Representando o Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o tratado consolidou uma parceria estratégica entre as duas regiões e reforçou valores democráticos. “O acordo que assinamos hoje estabelece uma parceria entre nossas regiões com enorme potencial econômico e profundo sentido geopolítico”, disse. Segundo o chanceler, o entendimento enviou uma mensagem clara ao mundo. “Acreditamos na cooperação, no diálogo e em soluções construídas de forma coletiva”, afirmou.
Vieira destacou ainda que o tratado fortaleceu a segurança econômica do Atlântico Sul ao Atlântico Norte. “Contribuirá para diversificar parceiros, cadeias produtivas e fontes de suprimento, reduzir vulnerabilidades e ampliar a previsibilidade necessária ao crescimento”, declarou. O ministro ressaltou que o acordo incorporou compromissos com democracia, Estado de Direito, direitos humanos, proteção ambiental e um capítulo específico sobre comércio e gênero. “Esse capítulo dará impulso às políticas de inclusão e empoderamento de mulheres e meninas em todos os nossos países”, disse.
Na véspera da assinatura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o acordo como resultado de um longo e difícil processo. “Foram mais de 25 anos de sofrimento e tentativa de um acordo”, afirmou, durante encontro com Ursula von der Leyen no Rio de Janeiro. Segundo Lula, o entendimento foi positivo não apenas para os dois blocos. “Este acordo é bom para o mundo democrático e para o multilateralismo”, disse.
O presidente brasileiro também destacou que o Mercosul não se limitaria ao papel de exportador de commodities. “Nossa parceria vai contemplar cadeias de valor estratégicas para a transição energética e digital. Este acordo vai além da dimensão econômica”, afirmou.
Apesar da assinatura, o tratado não entrou em vigor imediatamente. O texto ainda precisará ser aprovado pelo Parlamento Europeu e pelos Legislativos nacionais dos países do Mercosul, incluindo o Congresso Nacional brasileiro. A expectativa é que o processo de ratificação seja concluído no segundo semestre do ano.
Com a assinatura em Assunção, Mercosul e União Europeia deram um passo decisivo para transformar décadas de negociações em um acordo que, se ratificado, tende a redefinir as relações econômicas e políticas entre a América do Sul e a Europa nas próximas décadas.
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