Estados Unidos

Europeus confrontam a nova ordem global criada por Donald Trump

Na maior conferência sobre segurança da Europa, Alemanha alerta que os EUA não têm força para seguirem sozinhos e revela que a política externa baseada em regras deixou de existir. Analistas criticam a postura isolacionista da Casa Branca

O chefe de governo alemão, Friedrich Merz (D), cumprimenta o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, durante reunião em Munique  -  (crédito: Alex Brandon/AFP)
O chefe de governo alemão, Friedrich Merz (D), cumprimenta o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, durante reunião em Munique - (crédito: Alex Brandon/AFP)

Em pouco mais de um ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começou a implodir uma ordem global construída há oito décadas, no pós-Segunda Guerra Mundial, e baseada na parceria transatlântica. Na abertura da Conferência de Segurança de Munique, o maior encontro sobre o tema da Europa, o chanceler alemão, Friedrich Merz, alertou o planeta sobre uma profunda divisão entre a Europa e os EUA". "Eu temo que essa ordem, por mais imperfeita que tenha sido em seu melhor momento, não existe mais naquela forma", declarou o chefe de governo de Berlim, em alusão ao respeito às normas. O presidente da França, Emmanuel Macron, também não poupou críticas a Washington. 

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Merz advertiu: "Na era da rivalidade entre as grandes potências, nem mesmo os EUA serão poderosos o bastante para seguirem sozinhos". O chanceler da Alemanha ressaltou que ser parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não é uma vantagem competitiva apenas da Europa, mas também dos Estados Unidos. Ao defender uma nova parceria estratégica entre o Velho Continente e a Casa Branca, ele fez um apelo: "Vamos reparar e revitalizar, juntos, a confiança transatlântica". 

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Trump tem feito ataques reiterados à Otan. Um dos mais diretos ocorreu em 7 de janeiro passado, em uma publicação na sua plataforma Truth Social. "A Rússia e a China não têm nenhum receio da Otan sem os EUA, e duvido que a Otan estaria lá para nós, caso realmente precisássemos dela", escreveu. Ao menosprezar a aliança transatlântica, atacar a Venezuela e o Irã, impor tarifaços a vários países e ameaçar a captura da Groenlândia, o presidente republicano abandonou o multilateralismo.

Antes de embarcar para Munique, Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, reconheceu o "momento decisivo" e ressaltou que "o mundo está mudando muito rapidamente". "O mundo onde cresci, francamente, se foi. Vivemos nova era da geopolítica."

Durante discurso na Conferência de Segurança de Munique,  Macron instou a Europa a "mostrar um compromisso inabalável na defesa de seus interesses". Também criticou os EUA, sem citar o país diretamente. "Se quisermos ser levados a sério no continente europeu e além, devemos demonstrar ao mundo o nosso compromisso inabalável em defender os nossos próprios interesses. Isso começa, naturalmente, com a continuidade do nosso apoio à Ucrânia, mas também pode ser complementado pelo repúdio a tarifas injustificadas e pela recusa educada a reivindicações injustificadas sobre o território europeu", declarou, em alusão à Groenlândia, parte da Dinamarca. 

Professor de relações internacionais da Universidade de Harvard, Stephen M. Walt admitiu que a ordem mundial dos últimos 75 anos esta mudando. "Agora, estamos em um mundo multipolar. Os Estados Unidos tornaram-se uma hegemonia predatória, que tenta obter vantagem de seus adversários, mas, também, de seus principais aliados", explicou ao Correio, por e-mail. O professor acusa Trump de corroer a ordem mundial em pouco mais de um ano do segundo mandato. "O republicano repetidamente disse que a União Europeia era uma 'inimiga' e tem buscado ajudar partidos de extrema direita de diferentes países europeus. Também quer tirar a Groenlândia da Dinamarca e usou a ameaça de tarifas e outras pressões para forçar concessões econômicas de parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Não se tratam de atos amigáveis", advertiu.

James Naylor Green, historiador político da Universidade Brown (em Rhode Island), vislumbra uma "nova ordem mundial conjuntural". "Se aguentarmos três anos de Donald Trump e não entrarmos em uma guerra mundial, é bem possível que outro presidente, mais provável um democrata, tenha uma visão mais parecida com a ordem global anterior a Trump, baseada na colaboração entre Europa e EUA", disse à reportagem. Segundo o especialista, caso os republicanos ganhem as eleições presidenciais de 2028, a política externa deverá seguir a atual tendência e transformar o papel dos Estados Unidos no mundo. 

Alienação

Joshua W. Busby — professor de Assuntos Públicos da Universidade do Texas-Austin — lembrou à reportagem que os Estados Unidos têm se beneficiado de uma ampla rede de aliados e parceiros ao redor do mundo. "No entanto, suas ações recentes nos âmbitos do comércio e da segurança alienaram amigos tradicionais, incluindo europeus. Com a ascensão da China e seu domínio em setores, como os minerais críticos, os EUA percebem que não podem resolver esses desafios sozinhos. Porém, a imprevisibilidade da política norte-americana na era Trump torna menos provável que outros países possam contar com o cumprimento das promessas dos EUA", afirmou. 

Busby ressaltou que Donald Trump usou a política comercial para punir aliados com tarifas. "Ele tem assinalado ser menos comprometido com a segurança europeia e a possibilidade de favorecer as preferências da Rússia na resolução da guerra na Ucrânia, levando os países europeus a considerarem acordos de segurança e energia menos dependentes dos EUA", avaliou. O professor do Texas considera que os esforços de Trump em reivindicar a Groenlândia representam "ameaças diretas" à soberania europeia. 

EU ACHO... 

Stephen M. Walt, professor de relações internacionais da Universidade de Harvard
Stephen M. Walt, professor de relações internacionais da Universidade de Harvard (foto: Arquivo pessoal )

"Acredito que os europeus estão finalmente se adaptando às mudanças na política dos Estados Unidos. Também começam a entender que precisam reduzir sua dependência dos EUA e atuarem em conjunto para evitar serem intimidados."

Stephen M. Walt, professor de relações internacionais da Universidade de Harvard

Joshua W. Busby, professor de Assuntos Públicos da Universidade do Texas-Austin
Joshua W. Busby, professor de Assuntos Públicos da Universidade do Texas-Austin (foto: Brian Birzer)

"Ainda é cedo demais para dizer quais serão os resultados específicos da Conferência de Segurança de Munique, mas podemos observar  um aumento robusto nos gastos em defesa por parte das nações europeias. Esses países podem estar buscando maneiras de limitar sua própria exposição à coerção norte-americana, de modo que os EUA presenciem uma redução nas compras de seus sistemas bélicos, futuramente." 

Joshua W. Busby, professor de Assuntos Públicos da Universidade do Texas-Austin

O porta-aviões do USS Gerald Ford. Navio pode pesar até 100 mil toneladas
O porta-aviões do USS Gerald Ford. Navio pode pesar até 100 mil toneladas (foto: Alyssa Joy / US Navy)

Um gigante a caminho do Oriente Médio

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que um segundo porta-aviões seguirá em breve para o Oriente Médio, elevando a ameaça militar contra o Irã em meio às negociações sobre seu programa nuclear. "Partirá muito em breve", anunciou o titular da Casa Branca a jornalistas, quando questionado sobre as informações de que o "USS Gerald Ford" seria transferido do Caribe para o Oriente Médio. "Caso não consigamos um acordo, precisaremos dele", afirmou. O republicano admitiu o desejo de uma mudança de regime no Irã. "Parece que isso seria a melhor coisa que poderia acontecer", disse. "Durante 47 anos, eles conversaram, conversaram e conversaram. Enquanto isso, perdemos muitas vidas enquanto eles conversavam."

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    Stephen M. Walt, professor de relações internacionais da Universidade de Harvard Foto: Arquivo pessoal
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    Joshua W. Busby, professor de Assuntos Públicos da Universidade do Texas-Austin Foto: Brian Birzer
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    O porta-aviões do USS Gerald Ford. Navio pode pesar até 100 mil toneladas Foto: Alyssa Joy / US Navy
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postado em 14/02/2026 05:50
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