Peru

Destituição de presidente interino deixa peruanos sem governo

Congresso aprova moção de censura e destitui o presidente interino José Jerí. Acusado de má conduta funcional e falta de idoneidade, ele é o sétimo chefe de Estado a sair do poder em uma década. Até a noite de hoje, país não terá líder

Jerí posa para selfie com simpatizante em frente à Casa de Pizarro, sede do governo, em Lima, na véspera de sua queda  -  (crédito: Presidência do Peru/AFP)
Jerí posa para selfie com simpatizante em frente à Casa de Pizarro, sede do governo, em Lima, na véspera de sua queda - (crédito: Presidência do Peru/AFP)

Por 75 votos a favor, 24 contra e três abstenções, o Congresso do Peru destituiu, na tarde desta terça-feira (17/2), o presidente interino da República, José Jerí, que há quatro meses substituiu Dina Boluarte no comando da Casa de Pizarro — sede do Executivo. Jerí se tornou o sétimo chefe de Estado a abandonar o poder em uma década. Ele foi afastado do cargo após um julgamento relâmpago que o acusou de má conduta funcional e falta de idoneidade para o exercício da função. Figura polêmica, Jerí reuniu-se com empresários chinses dentro e fora do palácio e contratou mulheres, depois de reuniões noturnas. 

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Para o impeachment, era necessário que 58 congressistas votassem pela censura ao governo. "A mesa diretora declara a vacância da Presidência da República", anunciou o presidente interino do Congresso, Fernando Rospigliosi. Às 18h desta quarta-feira (20h em Brasília), os legisladores peruanos elegerão o sucessor de Jerí, cujo mandato terminaria em julho. O Peru realizará eleições legislativas e presidenciais em 12 de abril. 

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Deputados reunidos em sessão extraordinária que aprovou o impeachment do líder interino
Deputados reunidos em sessão extraordinária que aprovou o impeachment do líder interino (foto: Victor Vásquez/Congresso do Peru/AFP)

Professor de relações internacionais da Pontifícia Universidad Católica del Perú, Oscar Vidarte Arévalos afirmou ao Correio que as regras no país não são muito claras. "Jerí foi censurado como presidente do Congresso, enquanto Boluarte sofreu uma vacância. A censura requer menos votos do que a vacância. Agora, será necessário eleger um presidente do Legislativo, para que assuma a Presidência da República até julho deste ano", explicou. "É uma  situação muito estranha, que demonstra graves deficiências na institucionalidade que regula o sistema político peruano. A destituição de Jerí era quase inevitável, pois ele chegou à Presidência sustentado por um pacto mafioso, formado com as bancadas da direita e da esquerda." 

De acordo com Arévalos, o fato de Jerí ser jovem e inexperiente levantava muitas dúvidas. "Ele foi acusado de abuso sexual e era alguém vinculado ao lobby com algumas empresas. Não tinha o perfil de um presidente em transição", observou o estudioso. "O pacto mafioso acabou por sustentá-lo, mas, em pouco tempo, Jerí demonstrou ineficácia na gestão de segurança e manteve as práticas lobistas com empresários e com visitas de mulheres durante a madruga à Casa de Pizarro. Em quatro meses, ele destruiu a figura presidencial. Foi um presidente medíocre." Entre a manhã de ontem e a noite de hoje, o Peru permanecerá em um limbo político, sem um chefe de Estado interino.  

Eduardo Dargent, autor de Caviar: Del Pituco de Izquierda al Multiverso Progre ("Caviar: do 'mauricinho' de esquerda ao multiverso progressista", pela tradução literal) e professor de ciência política da Pontifícia Universidad Católica del Perú, avalia que a sucessiva instabilidade política no país se explica pela erosão de regras que protegiam o presidente, submetidas a várias interpretações. "Isso tornou possível, com o voto da maioria no Congresso, a vacância presidencial. Existe a interpretação de que o líder do Legislativo deve ocupar a Presidência da República. Tudo aponta na direção de um enfraquecimento da figura presidencial", advertiu à reportagem. 

Manifestantes celebram o fim do governo, do lado de fora do prédio do Congresso
Manifestantes celebram o fim do governo, do lado de fora do prédio do Congresso (foto: Ernesto Benavides/AFP)

Ainda segundo Dargent, um apoio a Jerí, em ano eleitoral, poderia ser algo muito oneroso, sob o ponto de vista político. "Os congressistas que o retiraram do poder são os mesmos que o colocaram. Escolheram uma figura com uma série de suspeitas sobre lobby e a contratação de mulheres para o gabinete presidencial. Foi uma irresponsabilidade o Congresso nomear alguém assim." O cientista político alerta que uma eleição ordenada torna-se cada vez mais difícil. "Será preciso nomear outro presidente do Congresso e será difícil buscar um legislador mais racional e que não esteja se candidatando à Presidência, em abril, para assumir o cargo interinamente", avaliou. Ele prevê um novo líder interino marcado pela instabilidade e pelas críticas. "Vivemos um desastre", assegurou Dargent. 

EU ACHO...

Eduardo Dargent, professor de ciência política da Pontifícia Universidad Católica del Perú (em Lima)
Eduardo Dargent, professor de ciência política da Pontifícia Universidad Católica del Perú (em Lima) (foto: Arquivo pessoal )

"O Congresso nomeou um presidente que enfrentava críticas generalizadas e trazia uma carga muito pesada. O Legislativo preferiu deixá-lo como presidente, porque isso garantiria a submissão do Executivo perante o Congresso. Quando escândalos de corrupção e a nomeação de mulheres a cargos altos explodiram, ele acabou caindo. O custo era alto demais."

EDUARDO DARGENT, professor de ciência política da Pontifícia Universidad Católica del Perú (em Lima)

  • Deputados em sessão extraordinária que aprovou o impeachment
    Deputados reunidos em sessão extraordinária que aprovou o impeachment do líder interino Foto: Victor Vásquez/Congresso do Peru/AFP
  • Manifestantes celebram fim do governo, do lado de fora do Congresso
    Manifestantes celebram o fim do governo, do lado de fora do prédio do Congresso Foto: Ernesto Benavides/AFP
  • Eduardo Dargent, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidad Católica del Perú (em Lima)
    Eduardo Dargent, professor de ciência política da Pontifícia Universidad Católica del Perú (em Lima) Foto: Arquivo pessoal
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postado em 18/02/2026 05:50
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