Luto nos Estados Unidos

"Jesse Jackson remodelou a sociedade dos EUA", avalia estudioso

O norte-americano Alvin B. Tillery Jr., especialista em diversidade e democracia da Northwestern University (em Illinois) destaca o legado e a importância histórica de Jesse Jackson. Líder dos direitos civis faleceu em 17 de fevereiro, aos 84 anos

Jesse Jackson discursa durante cerimônia em tributo a Martin Luther King Jr., em Washington, em 2011 -  (crédito: Mladen Antonov/AFP)
Jesse Jackson discursa durante cerimônia em tributo a Martin Luther King Jr., em Washington, em 2011 - (crédito: Mladen Antonov/AFP)

Diretor do Centro de Estudos da Diversidade e da Democracia da Northwestern University (Illinois) e professor de ciência política, Alvin B. Tillery Jr. conheceu o reverendo Jesse Jackson quando era um jovem organizador na faculdade. Depois que se tornou professor, teve a oportunidade de encontrar o líder dos direitos civis em várias ocasiões. "Era um homem carismático, brilhante e cativante", lembra-se. Em entrevista exclusiva ao Correio, Tillery avaliou a importância e o legado de Jesse Jackson para a comunidade afroamericana e a sociedade dos Estados Unidos. "Sem Jackson normalizando a ambição presidencial negra e conquistando delegados em todo o país, é difícil imaginar a trajetória que levou a Barack Obama", observou. Ele também falou sobre a proximidade do reverendo com Martin Luther King Jr., símbolo maior da luta dos direitos civis e contra a segregação racial nos Estados Unidos. 

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Qual é o principal legado de Jesse Jackson? Como acha que ele deve ser lembrado?

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Falando francamente como estudioso do desenvolvimento político americano, eu diria que o principal legado de Jesse Jackson é ter institucionalizado as reformas do movimento pelos direitos civis dos negros. A maioria dos americanos se lembra dele como pregador, candidato à presidência ou figura carismática no cenário nacional. Mas, historicamente, sua contribuição mais importante foi estrutural. Após o assassinato de Martin Luther King Jr., o movimento enfrentou uma encruzilhada: recuar para protestos simbólicos ou avançar em direção às instituições partidárias. Jackson escolheu a segunda opção. Ele ajudou a consolidar as reformas iniciadas após a Convenção Democrata de 1968 e pressionou o Partido Democrata a adotar integralmente um sistema de primárias com delegados diversos, que abriu o processo de nomeação para afro-americanos, mulheres e ativistas de base.

Alvin B. Tillery Jr., professor da Northwester University, conversou com Jesse Jackson em várias ocasiões
Alvin B. Tillery Jr., professor da Northwestern University, conversou com Jesse Jackson em várias ocasiões (foto: Arquivo pessoal)

E como o senhor avalia o fato de ele ter tentado chegar à Casa Branca por duas vezes?

Suas campanhas de 1984 e 1988 não foram projetos de vaidade. Foram demonstrações conceituais de que uma coalizão democrática multirracial poderia competir pelo poder nacional. Sem Jackson normalizando a ambição presidencial negra e conquistando delegados em todo o país, é difícil imaginar a trajetória que levou a Barack Obama.

Como ele conseguiu ajudar a remodelar a sociedade americana e lutar pela justiça racial?

Do meu ponto de vista, Jackson remodelou a sociedade americana de três maneiras cruciais. Em primeiro lugar, ele compreendeu algo que muitos ativistas não perceberam: mudanças duradouras exigem controle sobre as instituições. Por meio de seu trabalho com a Operação PUSH e suas campanhas nacionais, ele construiu redes organizacionais sólidas que traduziram a energia dos protestos em número de delegados, propostas de plataforma e nomeações. Ele forçou o Partido Democrata a internalizar a inclusão racial como um princípio fundamental, e não apenas como um gesto retórico.

Em segundo lugar, ele criou a Coalizão Arco-Íris, que representou uma profunda inovação política na esquerda. Os eleitores negros eram o pilar central, mas a coalizão incluía intencionalmente sindicatos, pequenos agricultores, latinos, brancos progressistas e ativistas pela paz. Essa estrutura expandiu a definição de justiça racial para incluir justiça econômica e inclusão democrática.

A terceira inovação de Jackson foi expandir a imaginação política. Como cientista político, estou atento ao que chamo de "choques de imaginação" na política americana — momentos em que o leque do que parece possível se expande. A campanha de Jackson em 1988, em particular, foi um desses momentos. Milhões de americanos viram um candidato negro competir seriamente em diversas regiões. Essa visibilidade alterou as expectativas cívicas e inspirou uma geração de organizadores, acadêmicos e candidatos.

Como o senhor vê a influência que Martin Luther King Jr. sobre Jesse Jackson?

A formação política de Jackson ocorreu dentro da órbita de King. Através da Operação Breadbasket e da Conferência de Liderança Cristã do Sul, ele absorveu três lições essenciais. King fundamentou a luta política na linguagem da justiça e da dignidade humana. Jackson levou essa cadência para a política eleitoral. Mesmo em debates presidenciais, ele se expressava em termos morais proféticos. A guinada de King, no fim de sua carreira, em direção à Campanha dos Pobres deixou uma profunda marca em Jackson. A Coalizão Arco-Íris expandiu o argumento de King de que pobreza, militarismo e racismo eram sistemas interconectados. King pregava a "comunidade amada". Jackson a operacionalizou dentro do Partido Democrata. Onde King marchava, Jackson organizava as chapas de delegados. Onde King idealizava a democracia multirracial, Jackson a construía dentro das eleições primárias. Em suma, King forneceu a arquitetura moral. Jackson projetou a infraestrutura política.

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postado em 17/02/2026 22:32
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