Israel - Palestina

Al Jazeera acusa Israel de usar bombas para 'evaporar' civis em Gaza

Investigação mostra que quase 3 mil pessoas desapareceram em lugares alvo de bombadeios israelenses desde o início da ofensiva

Uma investigação da rede Al Jazeera revelou, nesta terça-feira (10/2), que as forças israelenses utilizaram armas térmicas e termobáricas fabricadas pelos Estados Unidos durante os ataques em Gaza. Condenado por grupos de direitos humanos, o armamento é capaz de transformar, em segundos, corpos humanos em cinzas.

Equipes da Defesa Civil em Gaza registraram que, desde o início da ofensiva em outubro de 2023, mais de 2,8 mil palestinos desapareceram sem deixar vestígios, exceto por respingos de sangue ou fragmentos de pele. 

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A investigação intitulada “O Resto da História” reuniu depoimentos de palestinos cujos entes queridos não foram encontrados em locais bombardeados pelas forças israelenses. Esses relatos foram cruzados com levantamentos feitos pela Defesa Civil na busca por desaparecidos e com a análise de locais recentemente atingidos pelos bombardeios. 

Diferentes das bombas convencionais, as bombas termobáricas criam uma nuvem de combustível inflamável, que cria enormes bolas de fogo e efeito de vácuo. As explosões são capazes de gerar temperaturas superiores a 3.500ºC. 

“Quando um corpo é exposto a uma energia superior a 3.000 graus, combinada com pressão e oxidação massivas, os fluidos corporais fervem instantaneamente. Os tecidos vaporizam e se transformam em cinzas”, explica Munir al-Bursh, diretor-geral do Ministério da Saúde palestino em Gaza.

Debate internacional

Ataques indiscriminados - aqueles que não diferenciam combatentes de civis - são condenados pela Convenção de Genebra. Mesmo que lançadas em alvos militares, os efeitos das bombas termobáricas não podem ser contidos em uma única área, devido ao amplo raio de explosão.

A Convenção de 1980 sobre Certas Armas Convencionais (CCW), em vigor desde 1983, condena o uso de armas incendiárias. No entanto, os Estados Unidos interviram para evitar a proibição explícita de bombas termobáricas. 

Grupos de busca identificaram o uso das bombas antibunker BLU-109 e GBU-39, de fabricação norte-americana, nos ataques israelenses a al-Mawasi, área declarada “zona segura” para palestinos deslocados, e a escola al-Tabin, ambos em 2024. 

A advogada e professora da Universidade de Georgetown no Catar, Diana Buttu, denunciou o uso do armamento durante o Fórum da Al Jazeera, em Doha. “Observamos um fluxo contínuo dessas armas provenientes dos Estados Unidos e da Europa”, declarou. “Eles sabem que essas armas não fazem distinção entre um combatente e uma criança, mas mesmo assim continuam a enviá-las."

Ao todo, os ataques de Israel deixaram mais de 72 mil mortos em Gaza desde outubro de 2023. “Quatro dos meus filhos simplesmente desapareceram”, relata Rafiq Bradan, que perdeu familiares durante ataques no campo de refugiados de Bureij. “Procurei por eles um milhão de vezes. Não sobrou nada. Para onde foram?”


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