Sob boicote de pelo menos 30 deputados democratas, que se recusaram a comparecer ao Capitólio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o discurso sobre o Estado da União deste ano para se vangloriar de uma "transformação histórica" supostamente conquistada em seu primeiro ano de governo. A 252 dias das eleições de meio de mandato, cruciais para as pretensões do Partido Republicano, um Trump com a popularidade em queda tentou salvar a promessa feita há um ano sobre o início de uma "era de ouro" que nunca chegou. No discurso sobre o Estado da União, proferido em sessão conjunta da Câmara dos Representantes e do Senado, o presidente costuma traçar a agenda do próximo ano e expor as realizações de seu governo.
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Trump deixou a Casa Branca às 20h32 pelo horário local (22h32 pelo horário de Brasília), acompanhado da primeira-dama, Melania Trump, e subiu ao púlpito da Câmara 39 minutos depois, sob aplausos dos republicanos e gritos de "USA! USA!". Além dos magistrados da Suprema Corte, sentados na primeira fileira, estavam no plenário vítimas do pedófilo e traficante sexual Jeffrey Epstein, com quem o presidente aparece em fotografias que compõem os arquivos sobre o caso.
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"Nossa nação está de volta. Mais rica, mais forte e maior como nunca antes. (...) Esta é a era de ouro da América", anunciou Trump, na abertura de seu discurso. Ele assegurou que herdou uma nação em crise, com níveis recordes de inflação. "Hoje, depois de apenas um ano, posso dizer com dignidade e orgulho que alcançamos uma transformação como nunca vimos antes, uma reviravolta histórica. (...) Nunca mais voltaremos ao ponto em que estávamos há muito pouco tempo", acrescentou, ao destacar que os Estados Unidos "são respeitados, hoje, como jamais foram". Também assegurou que as fronteiras norte-americanas nunca foram tão intransponíveis e anunciou que, nos últimos nove meses, nenhum estrangeiro ilegal conseguiu entrar no país.
"De 1776 até hoje, cada geração de americanos se apresentou para defender a vida, a liberdade e a busca da felicidade para a próxima geração. Agora, é a nossa vez. (...) Juntos, estamos construindo uma nação onde cada criança tenha a chance de almejar mais e ir mais longe — onde o governo responda ao povo, não aos poderosos", disse.
Havia a expectativa de que Trump contra-atacaria a decisão da máxima instância do Judiciário de invalidar a política tarifária imposta a outros países. Na segunda-feira, o republicano classificara o ato da máxima instância do Judiciário como "ridículo, estúpido e extremamente divisivo".
Interesses nacionais
Em seu pronunciamento, o titular da Casa Branca abordou a política externa e prometeu enfrentar as ameaças aos Estados Unidos. "Estamos restaurando a segurança e a dominação dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, atuando para proteger nossos interesses nacionais e defender o nosso país da violência, das drogas, do terrorismo e da ingerência estrangeira", afirmou Trump. "Durante anos, amplas porções de território em nossa região, incluindo grandes partes do México, têm sido controladas por sanguinários cartéis do tráfico de drogas."
Por dois anos, James Fallows exerceu o cargo de redator-chefe de discursos da Casa Branca durante a Presidência de Jimmy Carter (1977-1981). Em entrevista ao Correio, por e-mail, ele disse que o pronunciamento de Trump somente marcaria uma virada se o republicano declarasse uma abordagem completamente nova e reconhecesse suas falhas no primeiro ano de governo. "Tanto Bill Clinton, após derrotas expressivas nas eleições de meio de mandato de 1994, quanto Barack Obama, depois de reveses ainda piores em 2010, admitiram, em seus discursos sobre o Estado da União, que haviam cometido erros e precisavam considerar um novo caminho. Não espero que isso aconteça", disse, pouco antes do discurso.
Historiador político da American University (em Washington D.C.), Allan Lichtman aposta que o discurso de Trump será esquecido muito antes das eleições de meio de mandato, em novembro. "O impacto positivo dos discursos sobre o Estado da União tem sido historicamente passageiro. Além disso, durante o segundo mandato, Trump mostrou-se incapaz de conquistar os eleitores independentes, que decidirão as eleições de meio de mandato", afirmou ao Correio. Sob ameaça de aumento da inflação, o país assiste a um racha entre integrantes do MAGA (Make America Great Again), o movimento populista de direita nos EUA.
De acordo com Lichtman, Trump costuma desumanizar e degradar qualquer pessoa que o desafiar ou discordar dele. "O presidente aproveitou o discurso sobre o Estado da União para intensificar suas políticas, incluindo a tarifária. Também proclamou que criou a maior economia da história e manteve toda a política externa alinhada, incluindo a duvidosa alegação de ter encerrado oito guerras. Por fim, mentiu, mentiu e mentiu", disse o especialista da American University.
EU ACHO...
"Provavelmente, haverá pouco impacto direto do discurso sobre o Estado da União nas eleições de meio de mandato. Embora o discurso tenha atraído de longe a maior audiência que um presidente alcança diretamente, os resultados das eleições de meio de mandato tendem a ser mais 'guiados pela realidade'. Se a economia estiver melhorando, mais eleitores apoiarão o partido do presidente. Caso contrário, ocorrerá o inverso. As pesquisas sugerem que, no momento, a maioria dos americanos está insatisfeita com os rumos da economia e com o governo de Donald Trump em geral. Ele tentará mudar essa percepção, mas a história política indica que esses resultados de meio de mandato acompanham de perto o índice de aprovação do presidente."
James Fallows, redator-chefe de discursos da Casa Branca durante a Presidência de Jimmy Carter (1977-1981)
Vítimas de Epstein assistem ao pronunciamento
A convite do deputado democrata Hakeem Jeffries, a brasileira Marina Lacerda — vítima do pedófilo e traficante sexual Jeffrey Epstein, com quem Trump mantinha laços de amizade — compareceu ao Capitólio para assistir ao discurso sobre o Estado da União. Menos de quatro horas antes do início do pronunciamento, ela falou ao Correio, por meio do WhatsApp. "Sinto-me muito honrada por estar aqui e mal posso esperar para ouvir sobre as mudanças e melhorias que tornarão os Estados Unidos grandes novamente. Gostaria também de ver um compromisso nacional para melhor apoiar as vítimas de abuso, tanto mulheres quanto homens", afirmou. Marina, 37 anos, foi abusada sucessivamente por Epstein dos 14 aos 17. Também abusada pelo financista americano aos 16 anos, Haley Alexa, 39, foi convidada pelo congressista Ro Khanna. Por sua vez, a deputada Maxine Dexter anunciou o convite a Lisa Phillips, também vítima de Epstein dos 20 aos 23 anos. As vítimas utilizam um broche (foto) com os dizeres "Apoie as sobreviventes; divulguem os arquivos (do caso Epstein)".
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